SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | SEGUNDA-FEIRA, 06 DE DEZEMBRO DE 2021
Poesia na Cidade

Vencedores da 2ª etapa do concurso 'Poesia na Cidade' falam da relação com a literatura

Nesta edição, os três poemas mais votados foram: “Vocação para a peste”, de Priscila Topdjian; “Santa Ceia”, de Katiuce Lopes Justino; e “Pedra Bruta”, de Walter Merlotto

Jéssica Reis
Publicado em 26/09/2021 às 00:00Atualizado em 27/09/2021 às 10:39

O projeto “Poesia na Cidade” busca levar aos leitores a beleza das palavras em forma de versos. Nesta edição, os três poemas mais votados foram: “Vocação para a peste”, de Priscila Topdjian; “Santa Ceia”, de Katiuce Lopes Justino; e “Pedra Bruta”, de Walter Merlotto.

A poeta Priscila Topdjian, formada em Letras e Jornalismo, mestre em Letras (Estudos Literários) pela UNESP/IBILCE, conta como foi criar o poema “Vocação para a peste”. “Foi uma experiência dolorosa, porque a pandemia me angustiou muito. A partir da experiência da angústia, comecei a criar poemas, porque não adiantava torcer para o ano passar rápido. A ordem era sobreviver! Enquanto o país se armava dia a dia, mano a mano, piso a piso, minha vida descontinuava e eu escrevia a minha vocação para a peste”, diz.

Katiuce Lopes Justino, formada em Letras e Pedagogia, com doutorado na área de Teoria Literária pela Unesp e coordenadora pedagógica da Rede Municipal de Educação, em Rio Preto, é autora de “Santa Ceia”. “Esse poema que eu quis publicar naquele momento tão crítico da pandemia, na época da Páscoa, que é o momento em que a fé cristã se mobiliza em torno da ressurreição, eu falava um pouco da dificuldade de viver em meio a tantas tragédias e da dificuldade de partilhar de toda essa cena que a gente assiste, de manipulação política, de intervenção do capital na existência humana, essa dificuldade de reconstruir as famílias, depois de tantas perdas. Por isso que eu trago ali um pouquinho da metáfora da Santa Ceia. Que é o momento de estar junto, de compartilhar o pão.”

Poesia na Cidade (Lezio Junior)

Poesia na Cidade (Lezio Junior)

O poeta Walter Merlotto diz que o poema “Pedra Bruta” faz parte do seu livro “Vírus” (Vitrine Literária, 2009). “Ali eu estou querendo dizer da vida, eu sou um poeta inquieto. A pedra bruta é a resposta da vida ao comportamento interno que habita em mim. Eu já começo o poema questionando a vida e arrasto os versos nesse sentido até mais da metade do poema. E no fim, eu quero dizer o seguinte: a vida é assim tão difícil, tão difícil porque eu também sou difícil para vida. Então, nós somos iguais. Por isso que no final eu digo que ela continua bruta. É uma colocação poética”, explica.

VOCAÇÃO PARA A PESTE

Priscila Topdjian

Talvez uma vocação maior para as coisas do espírito,

desejo de atribuir valor estético à palavra.

Talvez uma vontade mais séria

de construir mais fundo o interno

e deixar que o externo não interfira no verso.

São retumbantes os livros na estante.

Recuso-me a substituir o caderno antigo

pelas páginas de futuro. A tentativa vã

de salvar um ritmo soterrado.

Certa mania: manusear

o delicado, o frágil, nas páginas em que

o que é profundo mantém o antigo sempre novo.

De novo estou aqui

à semelhança do meu jardim:

sem perspectiva e infeliz

Mas pressentindo que um dia essa peste acabará

E descartarei chaves, máscaras, escamas,

choros e flautas transversais.

Não sei se conseguirei compreender,

mesmo no tempo da eternidade, por qual razão

uma porta se abriu, outra se fechou,

tantas nem foram mostradas?

Como será impossível falar da angústia

que me acompanhou nas noites de domingo,

nos cafés de segunda-feira, nas noites de quarta

Pois não tenho tido ânimo para transformar

o dia a dia em versos.

A matéria vida (de tão fina)

perdeu a força, o calor

E me restou esta argila

na qual tem sido modelada a minha vida.

Priscila Topdjian

Poeta, formada em Letras e Jornalismo. É Mestre em Letras (Estudos Literários) pela Unesp/Ibilce

“SANTA CEIA”

Katiuce Lopes Justino

como se fosse um pai a arte é

uma espécie de lugar um espaço contraditório

um oásis sem água (oásis de sangue) sem peixes

um mar mais que morto salgado

a arte diz um silêncio sobre

carregado um beijo traidor

diz intensidades aromas de cedro

a saber cabernet sauvignon

tiro a rolha escolho repartir

a arte ensina a ver a ouvir desver

ensina existir engolir um pedaço grosso de pão

um corpo a arte é

abro a torneira acendo um cigarro saio pela tangente

vem à tona a água

defino melhor o rosto tiro um pouco

da apegada hipocrisia na toalha branca

vejo o azulejo suado sudário

pesco na mesa a posta

de falso bacalhau entre azeitonas

a arte nunca diz (ou me diz)

morte diz palavra e só:

__ Comam e bebam seus vivos.

Katiuce Lopes Justino

Formação em Letras e Pedagogia, doutorado na área de Teoria Literária pela Unesp. Coordenadora pedagógica na Rede Municipal de Educação

PEDRA BRUTA

Walter Merlotto

Por que és bruta

pedra que lapido

em luta?

Pedra fincada no

rosto, jogada na rua.

Pedra.

Esculpida no vai e vem

do chicote que te

domina.

Ainda assim,

és bruta pedra que

lapido em luta.

És de um silêncio

atroz, corpo insolente.

Pedra.

Pedra que cuspo de volta

com cheiro e gosto do

pó que engulo.

Por isso, ainda

és bruta, pedra que

lapido em luta.

Walter Merlotto

Poeta

 
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