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Transformação digital é sobre pessoas, não sobre tecnologia

Gabriel Vital - 06/03/2021 00:18

Andrea Iorio é uma grande versão de testes de si mesmo. É assim que ele gosta de definir sua carreira: em versão "beta". O motivo? É que ele está sempre experimentando, se desafiando a tentar algo novo, sem medo de errar. O erro, aliás, na visão dele, deve ser inteligente. "Esses erros inteligentes são fundamentais porque nos apontam novos caminhos", observa.

Palestrante, escritor de best-sellers e investidor-anjo, o italiano nascido em Gênova trouxe para o Brasil, em 2013, um aplicativo que mudou a vida de muita gente: o Tinder, popular plataforma de encontros amorosos. Ele esteve à frente do app por quase cinco anos. Atuou também como Chief Digital Officer na L'Oréal Brasil e agora dá palestras sobre transformação digital, liderança, inovação, cultura de empresa e experiência do cliente.

Graduado em economia pela Universidade Bocconi, em Milão (Itália), e com Mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins, em Washington (EUA), Andrea é autor do best-seller "6 Competências da Transformação Digital". No ano passado, lançou seu novo livro, "O futuro não é mais como antigamente: Os novos traços do lider em um mundo imprevisível e digital", em que fala das transformações impulsionadas pela pandemia da Covid-19 e a importância da liderança em momentos imprevisíveis.

Em entrevista à Revista Vida&Arte, Andrea fala de transformação digital e sobre como a liderança e a gestão de pessoas são importantes para a potencialização dos negócios.

V&A - Você esteve à frente do Tinder no Brasil por cinco anos. O que de mais valioso você aprendeu neste período?

Andrea Iorio - Eu destacaria cinco aprendizados que eu tive. Primeiro é: o quanto menos vivida eu for a mão da marca em suas campanhas de marketing, mais efetivas elas serão. E isso era muito do Tinder. A gente tinha campanhas pouco descaradas, muito orgânicas e viralizava. Segundo aprendizado é que, no seu funil de marketing, retenção de usuário, vem antes de aquisição. Normalmente, a gente sempre pensa em crescer o número de usuários novos, mas, na verdade, a gente tem que fazer com que os usuários fiquem ativos e retidos plataforma. Terceiro grande ponto é um pouco o lema do meu trabalho, que é "transformação digital não é um assunto de tecnologia, mas sim de pessoas", onde as pessoas estão conectadas profundamente com o propósito da transformação. Quarto: ambientes dinâmicos e complexos fazem da agilidade capacidade de execução, prioridades mais importantes que planejamento e ideação. A gente era muito "mão na massa", muito rápido, muito acelerado. E quinto: a visão de que produtividade não é fazer o mais possível, mas fazer o mínimo necessário. Mesmo que possa parecer contraintuitivo e estranho, na verdade a gente tem que saber o que é necessário e usar o mínimo de recursos pra cumprir.

V&A - Por que o Tinder deu tão certo?

Andrea - O Tinder deu certo porque ele veio pra resolver um problema que existia no mercado. Primeiro, as dificuldades no mundo real de se conhecer, numa vida mais dinâmica, mais complexa. O segundo, era que todas plataformas digitais de aplicativos [de encontros] eram no computador, eram muito chatas, longas de fazer um cadastro, pouco intuitivas. E o Tinder veio só no celular com uma dinâmica "gamificada", então esse jogo fazia com as pessoas ficassem mais tempo na plataforma. Então, acho que ele deu tão certo por entender, verdadeiramente, quais eram as necessidades do cliente na época e não apenas se comparar com os competidores, e por isso transformou o mercado desta forma.

V&A - Transformação digital é para todos?

Andrea - Com certeza é para todos e, na verdade, é dever de todos. Infelizmente, quem não se transformar para acompanhar a transformação digital corre o risco de ficar para trás. Não significa que seja fácil para todos. Tem pessoas que são mais enraizadas em suas crenças, seus preconceitos, e fica mais difícil, mas são eles que, inclusive, mais precisam se transformar. Então, não tem jeito, precisa desta transformação e, enfim, é para todos, sim, é necessidade de todos

V&A - Pensando em grandes empresas, transformação digital é muito mais do que ter um aplicativo ou perfis em redes sociais. Envolve mudanças profundas nos processos e, principalmente, no mindset das lideranças. E nisso as organizações nativas digitais têm uma grande vantagem. Mas, como promover essa transformação em empresas tradicionais?

Andrea - Realmente, o paradoxo é que as empresas tradicionais são aquelas que mais precisam acelerar a transformação, mas são aquelas que também têm mais dificuldade em fazer isso. E, para começar, é dizer que, obviamente, o quanto mais a empresa tiver de vida e uma cultura enraizada, mais difícil é a transformação. Porém, o que a gente pode dizer é que a abordagem que menos funciona é uma abordagem em que você quer fazer uma grande mudança de uma vez. E isso é o que mais se vê: a empresa tradicional diz: "Vamos reescrever uma página branca, vamos transformar tudo, vamos fazer um megaprojeto". Muitas vezes é uma consultoria grande que é contratada, faz um megaprojeto e depois isso não funciona. Os times ficam resistentes. Por quê? Porque para promover essa transformação tem que começar pequeno em empresas tradicionais. Pequenos experimentos, pequenas mudanças no mindset, na forma de trabalhar. E você tem que, todo dia, monitorar o resultado disso, escalar o que funciona e deixar de lado o que não funciona. Tem que começar pequeno e tem que fazer com que as outras áreas queiram participar disso e não se sinta resistentes.

V&A - Quais são as principais competências de um profissional ou líder da nova economia? É possível desenvolver essas habilidades ou elas são inatas?

Andrea - Sempre dá para desenvolver novas competências, é a teoria de Carol Dweck, do mindset, de crescimento, comparado com o mindset fixo. E pessoas com mindset em crescimento conseguem desenvolver novas competências. O profissional, o líder da nova economia precisa de algumas novas competências como, por exemplo, flexibilidade cognitiva, ou seja, a nossa capacidade de pular entre várias áreas do conhecimento. Tem que ter o pensamento crítico, ou seja, a nossa capacidade de ter múltiplos pontos de vistas e usar as perguntas a nosso favor para resolver problemas. Tem que virar especialista em comportamento humano, ou seja, entender mais do cliente do que apenas do nosso produto. Tem que ter, por exemplo, o que eu chamo de radar do futuro, uma capacidade de tomar decisão rápida sobre uma informação incompleta. E, talvez, outra que eu posso dizer, que chamado que chamo de altruísmo digital, que é a capacidade de priorizar o ser humano dentro da experiência de negócio, fomentado a colaboração através da confiança.

V&A - Você já disse em entrevistas que está sempre na versão "beta" em sua carreira. O que isso significa?

Andrea - Pois é, eu me considero sempre "beta" na minha carreira. O que isso significa? Que a gente sempre está em versão de teste, sempre testando alguma coisa, sempre testando, aprendendo para ver o que você escala, o que funciona, o que você deixa de lado porque não funcionou e criar uma nova versão de teste, pois eu não acho que tem uma versão definitiva nunca. Então, esta versão "beta" na carreira é sempre experimentar algo novo em minha carreira, me desafiar com algo novo e testar, aprender com feedbacks, pivotar e evoluir. E sempre criar novos testes.

V&A - Qual a importância do erro de um profissional em uma economia predominantemente digital?

Andrea - A importância do erro em uma economia predominantemente digital é fundamental porque uma certa categoria de erro, que são aqueles que podemos definir como "inteligentes" - que nascem da exploração de outras áreas dos saberes, diferentes dos erros devido a descuidos -, esses erros inteligentes são fundamentais porque nos apontam novos caminhos. O Steve Jobs dizia: que você pode encarar o erro como algo bobo, ou algo ruim, e esquecer ou, digamos, como um feedback que te aponta a um diferente caminho daquele que você percorreu. E, para mim, é essa a importância do erro. E, nesse cenário digital, tem uma grande vantagem: você consegue desenhar os erros para que sejam menos caros possíveis. O que isso quer dizer? O digital te permite fazer simulações, protótipos, minimizar custos e, por isso, o mundo digital nos dá mais chances de errar, por quê? Porque ele é mais barato.

V&A - É quase um clichê dizer quer as crianças de hoje vão trabalhar em empregos que ainda nem existem. Se pudesse dar um conselho, o que você diria para elas se prepararem?

Andrea - Isso realmente é um relatório da Dell Technologies que diz que 85% dos trabalhos que existirão em 2030 não foram inventados ainda. O que eu diria para elas [as crianças de hoje] se prepararem? Não é ir a fundo em setores específicos da educação, inclusive não acreditar que educação é só memorizar coisas e ter conhecimento de coisas, mas ter múltiplas experiências seguindo carreiras educacionais não lineares. Na verdade, essa é dica que não dou só para as crianças, mas para os educadores. Preparem as crianças para serem preparadas para um imprevisível. Então, não é questão de dizer: "Você tem que estudar isso, aquilo, tem que escolher aos dezoito anos, o que você vai fazer da sua vida". A gente não sabe, temos que ensinar a fazer com que as pessoas estejam preparadas a reagir com rapidez, absorvendo, aprendendo a aprender. E aprendendo a desaprender também, porque temos que deixar espaço para o novo entrar. Acho que o grande ensinamento para elas, para poder trabalhar em empregos que ainda não existem, é estar flexíveis para poder se adaptar e aprender e desaprender o tempo todo.

V&A - A pandemia da Covid-19 impulsionou uma série de mudanças. Empresas e pessoas tiveram de se reinventar do dia para a noite e isso reforçou a necessidade de estar preparado para mudanças. O que isso tem a ver com o que você chama de "flexibilidade cognitiva"?

Andrea - Isso, sim, tem a ver com o que eu chamo de flexibilidade cognitiva. Flexibilidade cognitiva, afinal, é a nossa capacidade de reagir com rapidez às mudanças no ambiente que nos cerca. Pense bem: com o cenário da Covid-19, o mundo mudou. Os canais de distribuição mudaram, o cliente mudou, o consumidor mudou, e a gente? Continua fazendo da mesma forma antiga? Mesmo que estejamos em home office, mas nossos processos, rotinas, hábitos, modelos de negócio… Talvez a gente tenha que sempre refletir se a nossa taxa de mudança interna está proporcional à taxa de mudança externa, porque, se não estiver, significa a gente está numa desconexão. O que significa que a gente está ficando para trás. Então, acho que isso é uma pergunta que a gente sempre tem que se fazer e é muito importante.

 

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