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Marcos Pontes: um olhar para o alto

Gabriel Vital - 05/12/2020 00:11

No Conto da Ilha Desconhecida, o escritor português José Saramago diz que "é necessário sair da ilha para ver a ilha", uma alusão à necessidade de se distanciar de certas questões para ter uma visão do todo e, então, tomar melhores decisões. O astronauta Marcos Pontes, hoje ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, sabe bem o que é isso. Em 2006, ele saiu desta ilha chamada Terra e teve uma visão geral do nosso planeta, "essa nave flutuando no espaço com mais de 7 bilhões de passageiros", como ele mesmo diz. Sua capacidade de observar o todo o conduz no trabalho à frente deste importante ministério, cujas ações devem impactar, e muito, o futuro do País. Aos 57 anos, Marcos Pontes quer despertar nas crianças e nos jovens o interesse pela ciência, apresentando este caminho como uma oportunidade para o futuro.

O ministro-astronauta nasceu em Bauru, no interior de São Paulo, é casado e tem dois filhos: Fábio Pontes e Ana Carolina Pontes. É Tenente Coronel Aviador R1 da Força Aérea Brasileira, bacharel em Ciências Aeronáuticas e em Administração Pública, engenheiro aeronáutico, mestre em Engenharia de Sistemas e piloto de teste de aviões de caça com mais de 2.000 horas de voo. Membro da turma 1998 de astronautas da NASA, Marcos Pontes foi o primeiro astronauta a levar a bandeira de um País do Hemisfério Sul ao espaço. Ele fez história e conta, em entrevista exclusiva à revista Vida&Arte, como vê o atual momento do Brasil, a relação de ciência e tecnologia com a política e os planos do ministério para o futuro.

V&A - O senhor viveu boa parte de sua vida no interior de São Paulo - Bauru, Pirassununga, São José dos Campos - e chegou onde pouca gente chegou: no espaço. Hoje, ocupa um cargo fundamental para o desenvolvimento do País, à frente Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Como sua formação e suas experiências prepararam o senhor para este cargo e como o senhor espera contribuir com o Brasil?

Marcos Pontes - Como astronauta, a gente consegue ter uma visão geral do nosso planeta, essa nave flutuando no espaço com mais de 7 bilhões de passageiros e aí vem a ideia do quanto é importante a gente cuidar dessa casa que nos abriga e das pessoas que estão nela. Na minha gestão no MCTI, estabelecemos nossa missão em 3 pilares: produzir conhecimento, gerar riquezas e contribuir para a melhoria de vida da sociedade. Então, essas são nossas principais metas aqui à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Claro que a gente não faz isso sozinho. No ministério, nós temos ao todo 27 instituições vinculadas, que trabalham nas mais diversas áreas, como fomento às pesquisas, estudos com alta tecnologia, astronomia, semiárido, Amazônia, tudo isso pra que a gente consiga usar a ciência, tecnologia e inovações para alcançar esses objetivos. Sou Embaixador da ONU para o Desenvolvimento Industrial e, pela UNIDO, Embaixador da Boa Vontade. Também sou um dos fundadores do World Skills, que incentiva a formação técnica e, sabe o que isso me proporcionou de bagagem para estar ministro de Estado? Que a nossa missão é promover projetos, ações e políticas públicas que alcancem o todo: as pessoas e a sociedade, a economia e empregos com renda, o desenvolvimento sustentável para um planeta melhor para a nossa e próximas gerações. A ciência, tecnologia e inovação estão em nossa vida todo dia, transformando tudo à nossa volta na saúde, educação, meio ambiente, agricultura, indústria, na mobilidade urbana e social, nas carreiras e profissões, enfim, até no fundo oceânico, sob nossos mares e no espaço temos conhecimento sendo gerado para melhorarmos a nossa vida, dos animais e das nossas florestas.

V&A - O senhor foi o primeiro astronauta brasileiro, sul-americano e lusófono a ir ao espaço, na Missão Centenário. Como ministro, o senhor almeja ser pioneiro em alguma área? Qual o legado que pretende deixar para a Ciência, a Tecnologia e as Inovações?

Marcos Pontes - Se você olhar os projetos em curso no ministério e nas organizações vinculadas vai achar mais de uma centena de ações, todas importantes para o nosso país, mas eu queria citar aqui uma iniciativa que conduzimos com muito afinco, que é despertar nos jovens, nas crianças o interesse pela ciência.
Inspirar os estudantes a verem a ciência como parte do dia a dia e como uma oportunidade para o futuro. Para isso, nós estendemos a tradicional Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e criamos o Mês Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovações, que foi celebrado em outubro. Por causa das restrições de segurança devido à pandemia, nós promovemos no canal do MCTI no Youtube mais de 200 horas de palestras e oficinas do ministério e das unidades vinculadas. Todo esse material está disponível na internet com uma série de conteúdos interessantíssimos que podem ajudar um estudante a se interessar por uma área do conhecimento e descobrir uma vocação para a vida toda.

V&A - A pandemia fechou universidades e, em certa medida, paralisou muitos estudos. Por outro lado, reforçou a importância da ciência e impulsionou uma série de avanços na área tecnológica. Como o senhor avalia o impacto da pandemia na ciência brasileira?

Marcos Pontes - Eu digo sempre que a ciência é a única arma que temos para vencer o causador da crise, que é o coronavírus. Desde o início da pandemia, o mundo espera uma resposta vinda das pesquisas científicas para vencermos essa situação. A partir de fevereiro, nós montamos aqui no MCTI uma rede de especialistas para definir nossas estratégias no combate à Covid-19, a RedeVírus MCTI. Desde então, o ministério junto com as universidades e instituições de pesquisa trabalhou na questão da produção nacional de respiradores, testes diagnósticos, mapeamento da doença, pesquisas sobre vacinas, busca de remédios, adaptação de laboratórios, entre outros. O que fica de tudo isso, e esse é o impacto, é a capacidade da ciência brasileira, dos pesquisadores, das instituições de pesquisa de produzirem respostas que ajudam a população, do quanto o investimento nessas estruturas permitiu a gente dar uma resposta à sociedade, assim como aconteceu na época do Zika Vírus, por exemplo.

V&A - O senhor poderia fazer um balanço do ano de 2020 para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações? Quais foram as principais realizações que o senhor destaca?

Marcos Pontes - Eu acho que não tem como falarmos de 2020 sem citar a pandemia do coronavírus. Foi um ano atípico, mas que mostrou o quanto o investimento em ciência, tecnologia e inovações gera resultados. As principais entregas foram preparar o Brasil para outras pandemias, porque é certo haverá outras, só não sabemos quando. Nessa área eu posso citar como entregas o estudo clínico que mostrou que a nitazoxanida é capaz de reduzir a carga viral de pacientes no estágio inicial dos sintomas da Covid-19. Esse estudo começou com uma pesquisa no CNPEM, uma unidade de pesquisa do MCTI, com mais de 2 mil medicamentos. Nós investimentos por meio da Finep R$ 25 milhões para a adaptação de laboratórios para um nível de biossegurança mais alto (NB3) exatamente para lidar o vírus. Ainda temos um projeto para montarmos em breve o primeiro laboratório NB4 do país. Também no CNPEM foi inaugurada a primeira estação de pesquisa no Sirius, o acelerador de partículas. É uma fonte de luz síncrotron, que funciona como um poderoso microscópio, que pode enxergar as características dos materiais. O Sirius é o equipamento mais poderoso em sua classe em todo o mundo e tem o potencial de gerar resultados que vão impactar inúmeras áreas, como saúde, mineração e petróleo e gás, por exemplo.

V&A - O que o brasileiro pode esperar da área de Ciência, Tecnologia e Inovações para o próximo ano?

Marcos Pontes - Esse foi um ano fora da curva, por assim dizer. Ninguém em 2019 podia dizer que o mundo iria mudar tanto em 2020. O Congresso Nacional vai votar o Orçamento do ano que vem, com base nos recursos, poderemos estabelecer como será nossa base de trabalho e as prioridades. Mas com certeza o brasileiro pode esperar muito trabalho e entrega em prol da sociedade. Podemos citar alguns projetos que temos em andamento. Em 2019, nós estabelecemos o Plano Nacional de Internet das Coisas. Essa estratégia criou quatro câmaras de desenvolvimento 4.0, nos temas de Saúde, Agro, Cidades e Indústria, que já estão em pleno funcionamento. Para cada uma dessas câmaras nós agregamos um Centro de Inteligência Artificial Aplicada àquele setor. O Edital está em processo final de escolha, e os próximos quatro centros de IA, que já estão no próximo edital são para Educação; Segurança Pública e Defesa; Segurança Cibernética e um para eficiência de sistemas administrativos, que tem completa conexão com a IA aplicada nas diversas áreas. Recentemente, o MCTI e a Embrapii, que é vinculada ao ministério, anunciaram a criação da Rede EMBRAPII/MCTI de Inovação em Grafeno. A proposta é incentivar pesquisa e desenvolvimento de aplicações industriais para o material no país, que promete revolucionar o processo industrial e o modelo de negócio hoje existente. A estratégia para aumentar a competitividade da indústria nacional prevê aproximar as Unidades EMBRAPII (que são centros de pesquisas credenciados) de grafeno às demandas do setor empresarial pela tecnologia. Temos aqui conselhos que são imprescindíveis para todos e que tomam decisões que impactam positivamente muita coisa – pesquisas para novos medicamentos, alimentos, protocolos de biossegurança, experimentação para farmácos e produtos, melhoramento genético de grãos, plantas e frutas que melhoram a produção agrícola familiar e agrobusiness.  Nesses pontos, todas as cidades que o Diário da Região abrange são beneficiadas pelas políticas públicas que promovemos no MCTI. As prefeituras, empresas, indústrias e setores econômicos e sociais podem nos procurar para conhecer ou apresentar suas demandas para trabalharmos em parceria para resolver.

V&A - Ministro, o senhor já concorreu a uma vaga de deputado federal, foi eleito segundo suplente no Senado e hoje ocupa um cargo político, embora seja um técnico em sua área. Como o senhor vê a relação entre política, ciência e tecnologia?

Marcos Pontes - A política é o espaço por onde passam as aspirações da sociedade. Pelo Congresso Nacional foram aprovados grandes projetos importantes para nós, como o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) com os Estados Unidos, que ficou parado por 20 anos e agora vai permitir o uso do Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão, para o lançamento de equipamentos espaciais com fins pacíficos.
Mais recentemente houve a aprovação do Marco Legal das Startups, que vai ajudar esse cenário da inovação, das empresas e pessoas que têm uma ideia e querem colocar em prática. Temos consultas públicas sobre Inovação em andamento, a possível liberação do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para apoiar as indústrias e outros projetos, a formatação de projetos para a cooperação internacional e o incentivo para recursos da iniciativa privada em CT&I. Então o apoio dos deputados e senadores às causas da ciência e tecnologia é essencial para essa sensibilização do que estamos fazendo e o quanto podemos oferecer à sociedade. Da mesma forma, nós temos um diálogo sempre aberto também com os outros ministros, governadores para articular soluções, servir como uma ferramenta para resolver problemas. A política é o caminho para melhorar a vida da população, garantir mais recursos para CT&I e ajudar a colocar o país nos trilhos para uma nação mais desenvolvida e inclusiva. Tive essas iniciativas em concorrer no passado justamente para contribuir com o meu conhecimento, experiência, propostas e ideias que, acredito, podem ajudar o país em vários setores e segmentos.

V&A - Sua trajetória foi marcada pela superação de desafios. Qual é seu maior desafio hoje, à frente do Ministério?

Marcos Pontes - Esse não é um desafio só da minha pasta, mas de todo o país na verdade, que é a necessidade de aumentarmos os investimentos. Os recursos para ciência, tecnologia e inovações são um investimento com retorno garantido e potencial de acelerar a retomada do país quando a crise do coronavírus passar. O presidente Bolsonaro costuma dizer: "Vejam o que países como Israel, Japão, Coreia do Sul não têm e vejam o que eles são. Vejam o que nós temos e o que nós não somos". A diferença é o investimento em ciência e tecnologia. Todos os países desenvolvidos investem em ciência e tecnologia, para solucionar crises, aumentar o desenvolvimento econômico e social. Todos esses países chegaram lá por meio desse investimento e nós aqui no Brasil temos todo o potencial de trilhar o mesmo caminho. Meu maior objetivo é entregar para o Brasil projetos consolidados e maduros para receber investimentos de qualquer área, pois somos o ministério que pode ajudar em todas as demandas da sociedade. Veja um detalhe importante: todas as nações que são desenvolvidas chegaram a esse patamar porque decidiram que a CT&I seria o instrumento essencial para mudar a sua posição geopolítica, melhorar a qualidade de vida das pessoas e gerar conhecimento para sua sociedade. São investimentos, públicos e privados, de 3, 4 e 5% do PIB, que mudam muita coisa positivamente.

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