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Nômades digitais

Gabriel Vital - 07/11/2020 00:22

As primeiras civilizações eram nômades. Viviam da caça, da pesca, não tinham residência fixa e, quando esgotavam os recursos naturais de um lugar, buscavam uma nova área para se estabelecer. A agricultura foi uma das primeiras tecnologias a ser desenvolvida e possibilitou que o humano fixasse residência em lugares onde poderia cultivar seu próprio alimento, renovando os recursos para sua sobrevivência. Milhares de anos depois, o nomadismo volta graças a uma outra tecnologia: a internet, que possibilita o trabalho remoto. Diferentemente dos nômades do passado, esses nômades digitais não se mudam em busca de recursos naturais para sobreviver, mas à procura de novas experiências para dar sentido à vida.

Foi o que fez o escritor Matheus de Souza, professor de escrita criativa, LinkedIn Top Voice e autor do livro “Nômade Digital: um guia para você viver e trabalhar como e onde quiser” (2019). Desde 2017, ele trabalha de maneira 100% remota e, em setembro daquele ano, fez sua primeira viagem como nômade digital, para o México. “Não teve nada de ‘largar tudo para viajar o mundo’ como muitas matérias pintam por aí. Rolou muito planejamento, já que a primeira transição foi do modelo CLT de escritório para um modelo autônomo 100% remoto”, conta Matheus, que passou a trabalhar como produtor de conteúdo digital. “Basicamente, criei meu próprio trabalho e fiz uma reserva financeira com 6 meses do meu último salário para caso algum imprevisto rolasse – não rolou”, conta. Hoje o escritor diz que sua casa é o mundo. Não tem residência fixa e está sempre em movimento. “O que faço é voltar para o Brasil no final de cada ano para visitar a família e os amigos que ficaram – mas, como em qualquer outro lugar do mundo, quando volto alugo um apartamento pelo Airbnb durante minha estadia”, diz.

Com a pandemia, Matheus ficou “preso” na Tailândia de março a setembro. O país fechou fronteiras duas semanas depois de sua chegada. “Sequer tentei voltar para o Brasil ou algo do tipo. O país se mostrou um lugar seguro para ficar durante a pandemia”, conta. Atualmente está em São Paulo, esperando uma vacina para voltar para a estrada. “Além de os brasileiros estarem barrados em mais de 100 países, não é recomendável viajar durante a pandemia”.

Embora o coronavírus tenha desacelerado a rotina de nômades como Matheus, o momento pelo qual o mundo passa mostrou, de certa forma, que para muitas profissões é possível trabalhar em casa ou em qualquer lugar do mundo – pré-requisito para quem pretende colocar o pé na estrada sem, necessariamente, largar tudo. “Essa transformação digital forçada tem mostrado para profissionais das mais diversas áreas que o trabalho remoto é algo mais do que possível. Acredito que assim que a pandemia acabar e as fronteiras dos países estejam abertas sem restrições, trabalhar literalmente de onde quiser, ou seja, enquanto se viaja o mundo, deixará se soar utópico para as pessoas devido a essa experiência em que os profissionais se viram obrigados a trabalhar de forma remota”, diz o escritor.

Seu livro, ele acrescenta, tem a missão de, justamente, desmistificar essa ideia trazendo como pano de fundo o trabalho remoto. “Tento mostrar que você não precisa esperar uma suposta aposentadoria ou fim da sua vida para desbravar o mundo. O nomadismo digital não é sonho nem ficção –– e sim um novo jeito de encarar a vida e de se relacionar com o trabalho”, conclui.

Casal já morou em 70 países

O desenvolvedor de software Vinícius Manhães Teles e a fotógrafa Patrícia Figueira Santos perceberam, em 2009, que suas profissões permitiam que trabalhassem em qualquer lugar do mundo. A descoberta foi por acaso, durante uma viagem a passeio para Buenos Aires, na Argentina. Após voltar da viagem, o casal de Niterói (RJ), que já trabalhava em home office, decidiu se mudar para a capital argentina no ano seguinte. Vinícius e Patrícia se planejaram e, em maio de 2010, rumaram para Bariloche, de passagem, antes de seguir para Buenos Aires, onde se estabeleceriam.

“A gente só estava ali num momento de transição, esperando pra fixar residência em Buenos Aires. Lendo alguns livros, tive contato pela primeira vez com o conceito de nomadismo digital e achei superinteressante. Vi que tínhamos todas as condições para isso, porque de um modo geral nosso trabalho já era todo feito online. Foi assim que a gente decidiu começar”, diz Vinícius. De lá para cá, o casal já passou por 70 países e atualmente está em Curitiba, já planejando “rodar um pouco” pelo Sul do Brasil. “Vamos continuar monitorando essa questão [da pandemia] no exterior para decidir quando a gente volta lá para fora”, conta Vinícius.

Por onde passa, o casal aluga apartamentos por aplicativos de hospedagem e esses lugares viram, por alguns meses, a casa e o local de trabalho de Vinícius e Patrícia, que criaram canal no YouTube e um blog – o “Casal Partiu” – para dar dicas sobre como viver viajando e ganhar dinheiro trabalhando remotamente. Para Vinícius, considerando profissionais que executam funções intelectuais, a tecnologia para trabalhar fora do escritório já existe há muito tempo e a única razão para manter determinados tipos de trabalho de forma presencial é cultural. “Qualquer coisa que você faça hoje em um trabalho de escritório, você tem condição de fazer remotamente e com frequência até melhor”, defende.

Mas, para adotar um estilo de vida nômade é preciso mais do que apenas um trabalho remoto. Também é importante estar preparado para sentir saudade e ter a consciência de que alguns laços podem enfraquecer com o tempo e a distância, mesmo quando a tecnologia facilita o contato. “Não é a mesma coisa de um convívio habitual, de uma vida convencional”, diz Vinícius, que, no entanto, acredita ser possível, sim, manter boas relações de amizade. “Porém, fica o alerta: se você é muito apegado aos seus entes queridos, do tipo que não consegue ficar longe, talvez o nomadismo digital não seja para você. Eu, por exemplo, sempre fui um cara desapegado nesse sentido”, acrescenta Matheus.

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