Grupo Diário da Região   | segunda-feira, 10 de agosto
IMG-LOGO
Home Tecnologia

O papel da inteligência artificial na medicina

Gabriel Vital - 01/08/2020 00:18

Em 1932, o escritor Aldous Huxley previu um mundo em que os avanços da biologia, da psicologia e principalmente da medicina dariam o tom das transformações na sociedade. A tecnologia tem papel central na obra de Huxley, mas seu "Admirável mundo novo" não é tão admirável assim. Em um universo distópico, o autor previu que a tecnologia aplicada à medicina poderia separar os indivíduos em castas geneticamente manipuladas, preservando uma estrutura social controlada pelo Estado de ponta a ponta - da fecundação à morte. Oitenta e oito anos depois, algumas das previsões de Huxley até que se tornaram realidade, mas não com os objetivos que ele imaginou. Sua obra pode ter servido de alerta. Mas o fato é que evoluímos tecnologicamente e - felizmente - estamos usando a ciência em favor das pessoas. Prova disso é que não faltam amostras de que os esforços humanos, aliados a ferramentas altamente tecnológicas, têm contribuído para o bem comum. A vacina contra o coronavírus, por exemplo, caminha para ser a solução mais rápida da história para um problema epidêmico. Enquanto isso, impulsionadas pela própria pandemia, outras soluções são desenvolvidas com a utilização de inteligência artificial (IA) e que podem revolucionar a medicina como conhecemos hoje.

Uma dessas iniciativas está sendo testada pelo Centro de Pesquisa em Engenharia em Inteligência Artificial do Brasil, localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, a 212 quilômetros de Rio Preto. Pesquisadores desenvolveram um sistema que detecta, a partir da voz do paciente, sinais de síndrome respiratória, como a provocada pelo coronavírus. Chamada de Spira - sigla para Sistema de Detecção Precoce de Insuficiência Respiratória por meio de Análise de Áudio - a plataforma utiliza a tecnologia de inteligência artificial para reconhecer variações na voz de quem fala português e alertar sobre uma possível doença.

Para que o computador pudesse entender esses sinais, o grupo de pesquisadores - que inclui cientistas de computação, médicos e linguistas - teve de ensinar a máquina como identificar as características da fala de uma pessoa saudável e compará-la com a de pacientes afetados por doenças respiratórias, diferenças que nem sempre são evidentes. Com uma grande quantidade de dados coletados, o sistema é capaz de identificar possíveis doenças e classificar adequadamente os pacientes, apenas ouvindo sua voz.

Quanto maior o banco de dados desse sistema, mais preciso será o "diagnóstico" que ele poderá oferecer. É por isso que os pesquisadores ainda estão recebendo amostras de vozes e qualquer pessoa pode participar de forma anônima pelo site: spira.ime.usp.br/coleta. Segundo o professor e doutor em computação Marcelo Finger, que coordena o projeto, mais de sete mil pessoas já contribuíram com a pesquisa, sendo que 200 estavam diagnosticadas com Covid-19 no momento da coleta. Cada uma gravou três frases. "Estamos focados na detecção da síndrome respiratória, mas com o que a gente conseguir aprender nesse contexto e com a identificação dos limites das técnicas de inteligência artificial, será possível construir outras soluções", explica Finger.

O coordenador do projeto acrescenta ainda que essa pesquisa, realizada por um grupo multidisciplinar, estuda o processamento de linguagem natural, uma área de estudos de inteligência artificial bastante ampla e que está em expansão pelo mundo. Esses esforços, segundo ele, poderão abrir caminho para o diagnóstico de problemas variados. "A princípio, estudamos a insuficiência pulmonar devido ao contexto que estamos vivendo. Porém, há outras doenças que podem se manifestar pela voz, como alterações nas pregas vocais, problemas cardíacos, pressão alta e ataques de ansiedade", diz o professor.

Diagnóstico por imagem

A inteligência artificial também é aliada de médicos nos diagnósticos por imagem. Uma iniciativa do InovaHC, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), em parceria com a Petrobras e a Amazon, desenvolveu uma plataforma que utiliza algorítimos para identificar marcadores de coronavírus em imagens de raio-x e tomografia computadorizada.

Além de aumentar a precisão do diagnóstico, o algorítimo é capaz de analisar uma vasta base de dados, com milhares de raios-x e tomografias, para identificar padrões e fazer comparações a fim de identificar o nível de comprometimento dos pulmões de pacientes com a Covid-19. "Os algoritmos serão cruciais para reduzir as incertezas diante de uma doença tão recente e complexa. Com apoio imediato, essa tecnologia pode ser a diferença entre encaminhar um paciente para uma unidade de terapia intensiva ou não", explica Marco Bego, diretor executivo do Instituto de Radiologia (InRad) e diretor do InovaHC do Hospital das Clínicas.

 

Aplicações da IA na medicina

Tratamento de doenças

Os computadores podem ajudar no tratamento de doenças. A IBM, empresa de tecnologia americana, desenvolveu um algoritmo capaz de "estudar" a literatura científica e sugerir opções de tratamento para cada caso. Assim, a plataforma, chamada Watson Health, oferece ao médico as alternativas mais seguras e indicadas para cada prognóstico.

Cirurgias inteligentes

Robôs equipados com inteligência artificial são capazes de fazer avaliações pré-operatórias para direcionar os movimentos do cirurgião durante o procedimento. Há ainda robôs autônomos que usam uma base de dados de operações passadas para aprimorar suas próprias técnicas e realizar cirurgias de forma automática. A startup Verb Surgical tem um protótipo de robô cirurgião com as empresas Google e a Johnson & Johnson.

Acompanhamento preventivo

A startup israelense Clew criou uma plataforma totalmente baseada em inteligência artificial para colher informações sobre pacientes internadas em unidade de terapia intensiva (UTI) e prever potenciais complicações que podem resultar no colapso dos sistemas vitais, levando o paciente à morte. A plataforma compara as informações coletadas com uma extensa base de dados, identificando padrões para alertar os médicos antes que aconteça alguma complicação fatal.

Editorias:
Tecnologia
Compartilhe: