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Saiba como é o modelo de negócio das startups

Gabriel Vital - 04/07/2020 00:13

Inovação, criatividade, escalabilidade e incertezas - muitas incertezas. Essas são algumas das características comuns entre as startups, empresas cujo modelo de negócio foge aos padrões tradicionais. O termo startup, aliás, está frequentemente associado a empresas em seu período inicial, com estrutura pequena, custo de manutenção baixo e altíssimo potencial de crescimento rápido. A tecnologia tem papel fundamental no fator "escalabilidade", isto é, capacidade de replicar o negócio com velocidade para ganhar mercado em um curto espaço de tempo. As incertezas, por sua vez, são, muito provavelmente, o segredo para o crescimento exponencial desses negócios inovadores. Isso porque as ideias que dão certo normalmente surgem a partir das dúvidas e buscam solucionar problemas com base na análise de dados reais.

Se em um passado recente as empresas demoravam anos para conquistar mercado e se consolidar como negócios sustentáveis, hoje as startups alcançam resultados em períodos abreviados. Exemplo disso são os chamados unicórnios, empresas inovadoras que nasceram na última década e já chegaram ao valor de mercado de 1 bilhão de dólares (ou mais). O Brasil tem seis deles: 99, que concorre com a norte-americana Uber; Nubank, cartão de crédito sem anuidade; iFood, delivery de comida; PagSeguro, fintech de pagamentos online; Movile, que investe em negócios promissores; e Stone, outra plataforma de pagamentos digitais. Não por acaso, em 2020 o Brasil subiu 17 posições no ranking mundial de startups e ficou em vigésimo lugar na lista elaborada pela StartupBlink. O levantamento mostra que o País teve melhor desempenho em critérios de qualidade e ambiente de negócios, no entanto, ainda fica atrás dos melhores colocados no quesito quantidade.

Embora a maioria das startups brasileiras esteja concentrada nos grandes centros urbanos - São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Curitiba -, há espaço também para essas empresas em cidades do interior, como Rio Preto, onde elas estão espalhadas em escritórios próprios, ambientes de coworking e no Parque Tecnlógico (Partec), que seleciona negócios por meio de editais e proporciona integração ao ecossistema de empreendedorismo e inovação.

Cofundador e COO (sigla para chief operating officer, ou diretor de operações) da Simplifica.CI, Ariel Costa acredita que o modelo de startup está muito mais relacionado à cultura da empresa do que ao estágio em que ela se encontra. "Existe uma discussão muito grande sobre quando a empresa deixa de ser uma startup. O que eu entendo é que muitas, mesmo depois desse período de validação, mantém a cultura de experimentação e de inovação como algo intrínseco ao negócio, isso fica enraizado no time. Muitas metodologias, formas de trabalho e inspirações desse ecossistema de startup se perpetua mesmo depois que a empresa cresce e toma uma proporção grande", explica. Para ele, os processos de validação acabam voltando na medida em que as empresas apostam em melhorias e novos produtos, o que mantém viva a cultura de startup.

A empresa de Ariel nasceu em 2015, fruto de uma parceria dele com o sócio Edelcio Molina, hoje CEO (sigla para chief executive officer, ou diretor executivo) da Simplifica.CI. A startup passou por um processo de validação e só chegou ao mercado, de fato, em 2017, quando participou de um programa de aceleração em Ribeirão Preto. "Os dois primeiros anos foram de muito experimento. Depois é que acabamos investindo mais e dando sequência ao negócio", conta Ariel. A startup oferece uma solução multiplataforma para comunicação interna, que inclui TV corporativa, e-mail, aplicações mobile e desktop. "Em médias e grandes empresas, que têm entre 500 e 1 mil funcionários, se a informação oficial não for organizada acontece muito aquela conversa de corredor. Por isso, o setor de recursos humanos (RH) trabalha junto com alguém de comunicação para ter um discurso oficial, de modo a tornar o propósito da marca muito mais claro ao seu público interno, facilitando o desempenho do time e o alinhamento estratégico", explica.

Hoje a startup rio-pretense conta com um time de 12 pessoas. "Parece que não, mas, para uma startup, conseguir ter os primeiros funcionários é um grande desafio, porque às vezes ela acaba morrendo com os próprios fundadores", diz Ariel. Segundo ele, a empresa já atende clientes em todo o Brasil - incluindo grandes nomes em Rio Preto -, além de países como México e Argentina. "Hoje estamos com o produto validado e entrando nesse processo de crescimento", afirma. Com a pandemia, toda a equipe está trabalhando em home office desde março, modelo que a empresa deve manter quando puder reabrir o escritório físico. "Percebemos que não será necessário ficar 'full time', em horário comercial, de segunda a sexta, no escritório", diz Ariel, que prevê uma forma de trabalho "mista", em que os colaboradores usem o espaço físico para reuniões e networking.

 

Inovação na saúde

Diferentemente das startups de tecnologia, que muitas vezes têm seus negócios baseados em softwares para oferecer serviços, as healthtechs, voltadas para inovação na área da saúde, costumam ter um ritmo de crescimento mais lento e a necessidade de altos investimentos para desenvolver e validar seus produtos e processos. É o caso da Nanochemtech Solutions, empresa rio-pretense que desenvolveu um kit com compostos químicos e um sensor para identificação de microrganismos, como vírus e bactérias, em ambientes hospitalares. O objetivo é ajudar na diminuição de um dos principais problemas dos hospitais públicos e privados: a infecção hospitalar.

Operando no Parque Industrial de Rio Preto desde 2018, a empresa ainda não tem faturamento, mas já levou a solução para hospitais de referência no estado de São Paulo por meio de parcerias. A doutora em química Gabriela Byzynski, que está à frente da startup, explica que o modelo de negócio é mais lento, pois o produto precisa passar por validação, certificação e registro da Anvisa. "É necessário um investimento relativamente alto para desenvolvimento desses produtos e um tempo um pouco mais longo do que as startups tradicionais de tecnologia da informação (TI)", explica Gabriela, que tem como sócia a doutora Margarete Gotardo de Almeida.

Gabriela acrescenta que o desenvolvimento da healthtech em Rio Preto depende de investimentos de agências de fomento à pesquisa, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Segundo ela, a captação de recursos da iniciativa privada ou de investidores-anjo não são interessantes para seu modelo de negócio, justamente em função do tempo que pode levar para a empresa chegar, de fato, ao mercado, começar a faturar e passar a dar retorno aos investidores.

A empreendedora detalha que o plano de negócio da Nanochemtech Solutions envolve escalabilidade e prevê que a empresa atuará no modelo B2B, ou seja, venderá suas soluções para outras empresas, como hospitais públicos e particulares, no futuro. "A partir do momento que tivermos parcerias para produção em larga escala desse produto, vemos grande possibilidade, principalmente, da utilização dos dados que esse sensor pode apresentar para o gestor de um hospital, o que agrega um valor muito alto ao produto", explica Gabriela.

Segundo ela, esses dados poderão ser utilizados, por exemplo, para identificar quais áreas estão mais vulneráveis a contaminação no ambiente hospitalar e, assim, adotar ações de forma preventiva para evitar infecções. "Em cada instituição hospitalar existe um microbioma, os microorganismos presentes naquela instituição. Se houver, portanto, algum surto ou alguma alteração nisso, o gestor conseguirá ver em qual localidade em que está", finaliza.

Vocabulário 'startupês'

Aceleradora - organização que dá suporte financeiro, treinamentos e mentorias para o crescimento de startups

B2B - sigla para "business to business", modelo de negócio em que uma empresa vende seus produtos ou serviços para outras empresas

B2C - sigla para "business to consumer", modelo de negócio em que uma empresa vende seus produtos ou serviços para o consumidor final

B2G - sigla para "business to government", modelo de negócio
em que uma empresa vende seus produtos ou serviços para entidades governamentais
Captação de recursos - investimentos que podem ser feitos por empresas privadas, fundos, bancos, crowdfunding, agências de fomento e investidores individuais

Coworking - espaço de trabalho coletivo em que empreendedores e funcionários de diferentes empresas trabalham juntos, também conhecido como "escritório compartilhado"

Crowdfunding - também chamado de financiamento coletivo, normalmente feito por meio de uma plataforma especializada

Escalabilidade - capacidade de entregar um mesmo produto para um grande público sem ter, necessariamente, grandes estruturas físicas

Incubadora - versão tradicional do processo de aceleração, em que uma organização apoia o desenvolvimento de novas empresas por um período de tempo

Networking - rede de contatos profissionais, essencial no mundo das startups, pois ajuda os empreendedores a conhecer pessoas que possam abrir portas e encurtar caminhos

Valuation - é o valor de mercado do negócio, ou seja, o valor total da empresa caso ela seja vendida. É fundamental saber o valuation para vender participações no negócio

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