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O homem que quer solucionar problemas

Gabriel Vital - 06/06/2020 00:21

Considerado o pai da computação, o cientista britânico Alan Turing dizia que nós só podemos ver um pouco do futuro - ou uma curta distância à frente - mas que isso já é suficiente para perceber que há muito a ser feito. Para o rio-pretense Fuad Gattaz Sobrinho, que segue os passos e se inspira em Turing, esse "muito a ser feito" diz respeito a resolver problemas e a maneira de fazer isso passa pela compreensão de que diferentes áreas precisam trabalhar juntas. Em outras palavras, a tecnologia pura e simples não faz sentido se não estiver associada a outras áreas do conhecimento e se sua aplicação não contribuir para solucionar problemas da humanidade. "Inclinando para o processo das tendências que a gente tem hoje no mundo, precisamos desenvolver ciência, tecnologia e inovação de forma transversal, não disciplinar, mas transdisciplinar diante de problemas específicos que o cidadão, a coletividade e os países têm interesse hoje", afirma.

Nascido em Rio Preto, em 1952, em uma família de origem libanesa, Fuad cursou Química Industrial ao mesmo tempo em que fazia o curso científico - equivalente ao que hoje é o ensino médio - no Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves. Formou-se e rumou para capital do País, onde cursou Matemática e Física na Universidade de Brasília (UNB). Concluiu a graduação em dois anos, o que não era permitido na época. O aluno tinha de ficar na faculdade pelo menos dois anos e meio. "Tive que pedir autorização do então ministro da Educação, Jarbas Passarinho, para me formar", conta Fuad, que conseguiu a conclusão antecipada do curso superior e logo ingressou no mestrado em Computação, o que abriu as portas para que pudesse trabalhar na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) como pesquisador na área de informática. Sua missão era compreender e buscar soluções utilizando a tecnologia na área agrícola. Fez doutorado em Ciência da Computação e trabalhou em inúmeros projetos, dentro e fora do Brasil. Um deles com nome de filme: Guerra nas Estrelas, programa militar lançado pelo então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, em 1983, que consistia em um sistema de satélites equipados com canhões a laser para destruir mísseis enviados contra os EUA. Cerca de duas mil pessoas participaram do programa em todo o mundo. "Durante toda minha vida só posso agradecer que sempre tive o privilégio de atuar com pessoas muito brilhantes", diz o cientista e pesquisador.

Fuad sempre esteve, como ele mesmo diz, "na fronteira da ciência". "Por incrível que pareça, nunca surgiu alguma coisa que eu fui aprender que fosse já antiga", afirma. Talvez por isso, enquanto o mundo fala de indústria 4.0 como uma novidade, ele acredita que a sociedade já esteja vivendo na era da indústria 5.0 - ou 6.0. Para o pesquisador, conceitos como inteligência artificial, que fascinam leigos, têm outro significado: "A inteligência artificial nunca vai substituir a inteligência humana. É a inteligência humana que gera a artificial", defende. Para ele, ciência e tecnologia devem trabalhar de forma transversal. "A nova tendência do mundo hoje é de ser transdisciplinar. Com isso, você tem a reorganização da sociedade", afirma Fuad, que exemplifica citando e propondo a construção de redes colaborativas formadas por profissionais de diferentes áreas com foco em resolver problemas comuns do grupo e da sociedade como um todo. "Isso é um processo que não é socialista, comunista, nem capitalista. Não tem esquerda nem direita. É um processo em que você é a favor da ética, a favor da correnteza, a favor do ser humano. É a necessidade humana que vai reger os próximos séculos. É assim que eu enxergo", explica.

O pesquisador, que é presidente da Sociedade Latino-americana de Engenharia de Software, acredita que a pandemia do coronavírus acabou por acelerar um processo que já vinha acontecendo. "Eu, por exemplo, dou aula para qualquer lugar do mundo do meu computador, usando redes colaborativas. Nós estamos implantando na Sociedade um centro de integração de sistemas em que todos estão colaborando entre si para a redução de problemas comuns. E nós não saímos do lugar em que nós estamos. Agora, nós sabemos como vai ficar o problema da Covid-19, se vamos ter sequelas, quanto tempo vai durar. Enquanto não tivermos uma vacina, teremos que conviver com esse problema. E como fazemos isso? De forma transdisciplinar, colaborativa", diz o pesquisador.

Fuad acrescenta ainda que tem um sonho para Rio Preto: a criação de um centro transdisciplinar de pesquisa e resolução de problemas que envolva pessoas de todas as áreas, das universidades ao comércio, passando pela indústria e o poder público. "Para ele, a cidade é "um lugar fantástico para fazer isso" e "tem muita gente boa que pode contribuir", incluindo rio-pretenses que hoje não vivem na cidade - "você pode chamar o mundo todo". Na visão do pesquisador, a construção desse centro passa pela compreensão de que "ninguém é dono de nada" e que "a arrogância é inimiga da humildade".

 

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