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Excesso de informação e a sensação de caos

Gabriel Vital - 03/05/2020 00:16

Começa com uma mensagem no WhatsApp. Você desbloqueia o celular e, depois de responder, resolve conferir o Facebook. De lá, passa para o Instagram, depois para o Twitter, que o leva a um vídeo no YouTube. E é assim, de aplicativo em aplicativo, que o brasileiro passa, diariamente, ao menos três horas acessando as redes sociais.

É tanta informação, de tantas fontes diferentes, que parece impossível absorver e compreender tudo o que está acontecendo. E é mesmo. Segundo pesquisa realizada pela consultoria Consumoteca Lab, 78% dos brasileiros são incapazes de assimilar todo o conteúdo a que são expostos diariamente. Isso é o que o estudo chama de "infotoxicação", quando o usuário cai na "espiral da verdade", uma dobra espacial em que cada indivíduo tem a necessidade de fazer seu ponto de vista sobressair, o que gera "sensação de caos que destrói antigas certezas e convicções" sobre o mundo.

"A espiral da verdade é essa sensação de estar o tempo todo preso em um redemoinho de discursos, entrar em discussões que não chegam a lugar nenhum. E o que fazemos para nos sentir seguros? Ficamos agarrados a verdades que se parecem com o queremos ouvir e fechamos os olhos para outras opiniões", diz o estudo, que ouviu mil pessoas em diferentes partes do País.

Mas, como escapar desse vórtice de desinformação se, segundo a mesma pesquisa, 64% das pessoas têm a internet como principal fonte de informações sobre os acontecimentos do dia a dia? Para a socióloga e pedagoga Ana Maria Klein, do Departamento de Educação do Ibilce/Unesp, em Rio Preto, o primeiro passo é entender que uma coisa é o que se sente e outra o que se vive. "Esse excesso de informação às vezes cria uma realidade que não é a vivida, mas a sentida. Então você sente aquilo por uma realidade que estão te passando, mas não necessariamente é aquilo que você está vivendo", explica.

Fazer essa separação é fundamental para estabelecer limites sobre até que ponto o conteúdo consumido vai impactar a vida e a saúde mental do indivíduo. Klein também destaca a importância de checar as fontes das informações para evitar "fake news", além de reservar tempo para "digerir" aquilo que foi lido ou assistido na internet. "Você não tem nem tempo de entender, de pensar como aquilo se relaciona com a sua vida. Você vai sendo massacrado por um monte de informação que não necessariamente contribui para aumentar seu conhecimento sobre o tema", alerta a professora.

A psicóloga Meire Fernanda Pandim Ravazzi complementa dizendo que, especialmente em um momento como este, de pandemia, as mídias são um "abrigo", uma fonte de comunicação, onde o indivíduo busca compreender o desconhecido. "Porém, isso nem sempre tem o efeito desejado, tais informações nem sempre irão nos assegurar de que temos controle sobre a epidemia e de como iremos nos proteger. Muitas vezes são geradoras de ansiedade e frustrações por noticiarem uma realidade triste e perigosa. Não há muito o que fazer a não ser nos confinarmos e aguardar que algum remédio seja descoberto ou criado. Esta indefinição é, por si só, uma verdade difícil de se experimentar, já que temos uma dificuldade imensa em lidar com o que não é concreto, definido ou definitivo", afirma.

Ravazzi acrescenta ainda que, entre o remédio e o veneno, muitas vezes a diferença é a dose. "Quando, na ânsia de nos proteger, ficamos presos às informações e nos nutrimos disso, corremos o risco de alimentar o medo irracional, além do medo já consciente, e isso terá como consequência a exacerbação da ansiedade e das angústias", diz a especialista.

Como manter-se informado é preciso, até para proteger a si mesmo e aos demais, a psicóloga recomenda reservar momentos específicos para buscar informações sobre os últimos acontecimentos, sempre em fontes confiáveis, evitando cair, assim, na "infotoxicação" com conteúdos sem procedência. "Para proteger-se é preciso criar uma rotina em que você possa realizar suas atividades e cuidar de si, buscando informações em fontes fidedignas e em momentos específicos, evitando que o assunto lhe inunde de preocupações. Tente buscar ajuda em atitudes práticas para o enfrentamento da situação, troque conversas com familiares e amigos, compartilhe suas preocupações e esperanças", orienta.

 

Polifonia digital

O estudo feito pela consultoria Consumoteca Lab também explora o conceito de "polifonia digital", termo usado pelos pesquisadores para definir um cenário em que novas vozes produtoras de conteúdo e de informação disputam relevância diante de uma audiência. O problema é que essas vozes podem ser de qualquer pessoa, literalmente, já que todo indivíduo munido de um celular com acesso à internet é um potencial produtor de conteúdo.

"Ao longo do tempo, surgem cada vez mais enfoques sobre as mesmas histórias. O fato objetivo ganha novas versões. O lado das minorias, trechos propositalmente apagados; recortes específicos passam a ser lembrados. É a partir do surgimento dessas novas narrativas que a posição dos especialistas vai perdendo importância. Com tanta gente falando, passamos a escutar mais quem concorda com nossos ideais do que quem tem mais embasamento técnico na área", diz o estudo, que lembra ainda que saímos da era dos poucos formadores de opinião para entrar na era dos muitos fomentadores de opinião.

Para o psicólogo Ivo Carraro, professor do Centro Universitário Internacional Uninter, o usuário de internet precisa usar a inteligência para selecionar as informações que consome, até mesmo para preservar sua saúde mental, especialmente em tempos de pandemia. Além disso, ele recomenda criar uma rotina e estabelecer horários específicos para buscar informações. "O que o cérebro gosta é de ter uma rotina, um planejamento para que eu não possa me deixar levar por essa avalanche que faz com que eu me perca e a razão não dê conta da questão emocional", explica.

Números

78% dos brasileiros são incapazes de assimilar todo o conteúdo a que são expostos diariamente

66% dos brasileiros abrem as redes sociais assim que acordam

33% dos brasileiros postam imediatamente nas redes sociais tudo que acham interessante

47% dos brasileiros não acreditam que as redes sociais ajudem a dialogar com ideias diferentes

72% os brasileiros já se sentiram enganados por fake news

65% afirmam já ter entrado em discussões no WhatsApp

54% não mudaram de opinião e também nunca viram alguém mudando

Fonte - Consumoteca Lab

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