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Quem planta flores colhe felicidade

É lugar comum dizer que as plantas alegram a vida das pessoas. Quem não gosta de receber flores, por exemplo? Enfeitar a casa com vasos? Olhar um jardim florido ou colher hortaliças na horta doméstica? Mas o bem-estar provocado pelo contato com a natureza vai muito além de observação e colheita. A ciência já comprovou que aquelas pessoas que se envolvem no cultivo de plantas, tem nas mãos uma terapia poderosa no tratamento de diversas doenças, como depressão, hipertensão e até obesidade.

O tratamento se mostra ainda mais eficaz quando o paciente literalmente "coloca a mão na massa", ou melhor, coloca a mão na terra. É que o contato com as bactérias existentes no solo melhoram a saúde. Esse conjunto de bactérias, e outros micro-organismos, é chamado de microbioma e está presente em todos os seres vivos, na terra, nas plantas e nos animais, incluindo aí os seres humanos.

O biólogo e professor de ciências, Edmar Manduca, afirma que a bactéria Mycobacterium vaccae, por exemplo, que é encontrada no solo, apresentou relação direta com o nosso humor. "Os cientistas injetaram esse microoganismo em ratos e conseguiram ativar uma resposta em um conjunto de neurônios, o mesmo atingido pelo Prozac, um dos remédios mais utilizados para combater a depressão", explica.

A mesma bactéria já apresentou também resultados positivos em estudos sobre ansiedade e até em veteranos de guerra que sofriam de estresse pós-traumático. Um estudo da Universidade de Bristol, no Reino Unido, mostrou que o contato com as bactérias presentes na terra beneficiam a saúde mental. Nesta pesquisa, o contato das pessoas com a terra e com o humus, que é resultado da compostagem, funcionou como antidepressivo, diminuiu alergias, dores e náuseas.

Na Universidade de Princeton, Estados Unidos, a pesquisa mostrou que pessoas que sujam as mãos na prática da jardinagem são mais felizes. Foram medidos os níveis de felicidade em praticantes da jardinagem e comparados com outras 15 atividades de lazer rotineiras, como sair para jantar, andar de bicicleta e ir ao cinema. A jardinagem ganhou.

Tem muita gente aderindo a essa prática e a pandemia de coronavírus acelerou esse processo. De acordo com o Google Trends, de março a junho de 2020, houve um aumento de 180% na procura pelo termo "kit de jardinagem".

Um hábito que deve se manter no período pós-Covid, à medida que as pessoas forem percebendo os benefícios do cultivo de plantas, como aconteceu com Érika Taguchi, moradora de Itápolis. Formada em publicidade e propaganda, ela ganhou bolsa de estudos para estudar marketing no Japão. "Morei um tempo trabalhando e voltei surtada de lá, com depressão, crise de pânico, bem mal, não conseguia pisar fora de casa. A única coisa que eu conseguia fazer era tirar matinhos da horta da minha irmã", disse.

Érika passou por tratamento psiquiátrico e tomou medicamentos, mas o que salvou mesmo o emocional dela foi o contato com a terra. Tanto, que ela decidiu estudar na Escola Superior de Agricultura (Esalq), em Piracicaba. "Foi aí que decidi o que fazer na vida. Eu não conseguia trabalhar em empresa, cidade grande. A única coisa em que eu me equilibrava era trabalhando com plantas. Tenho muitos relatos de pessoas que, assim como eu, se recuperaram mexendo no jardim", contou.

Muitos jovens estão optando por carreiras relacionadas ao cultivo agroflorestal e de orgânicos, segundo Maria Fátima Martinhão, médica fitoterapeuta com especialização em medicina ayurvédica na Índia. "O trabalho no escritório, burocrático, está levando as pessoas a se sentirem muito infelizes, doentes, levando ao abuso de drogas, lícitas e ilícitas", disse. "Há uma efervescência, um desejo de voltar para a terra, não só pelo ganho financeiro, mas para recuperar a natureza e a saúde de si próprio", completou.

A professora aposentada Rosely Ignácio, 63 anos, é mais uma prova de que esse tratamento realmente funciona. Há 32 anos ela se mudou de São Paulo para uma casa com quintal, em Matão. Se viu em um momento complicado: divorciada, sem ajuda financeira, grávida e com quatro filhos pequenos. Foi no contato com a terra que ela encontrou equilíbrio emocional. Transformou o quintal em um pequeno pomar que hoje abastece de frutas frescas para toda a vizinhança.

 

Cores e aromas

Mas não é só quem suja as mãos na terra que se beneficia do contato com jardins e hortas. Na cidade de Marília, um grupo de pacientes de um lar de idosos apresenta, a cada dia, melhoras na memória e bem-estar depois que começaram a passar um tempo no jardim de ervas medicinais e hortaliças que foi construído no local.

A médica Maria Fátima Martinhão foi uma das criadoras do jardim do hospital. Ela explica que o bem-estar provocado por esse ambiente é sentido no aspecto mental, com o aumento da concentração, no aspecto físico, com o exercício, respiração ao ar livre e exposição ao sol, e no aspecto emocional, porque tanto a cor verde como o cheiro das flores e plantas aromáticas são elementos que acalmam e equilibram as emoções.

Só de estar naquele ambiente, junto ao verde, com os aromas que as plantas medicinais exalam, os pássaros, o silêncio, já é um benefício para esses idosos, segundo Maria Fátima. "É um movimento de muita intimidade com eles mesmos, para se reconectar à natureza. Um excelente trabalho que está dando bons resultados. Estar fora da natureza é um dos motivos que causa patologias", disse a médica que receita a jardinagem aos pacientes.

Como praticar jardinagem

O contato com a terra e a produção de alimentos ou plantas ornamentais é bastante acessível. Fácil e barato, e nem precisa ter muito espaço. Pode-se começar cultivando em vasos pequenos e ir ampliando. Um vaso de ervas aromáticas na cozinha, por exemplo, é uma boa ideia para enfeitar a casa, liberar aromas e ainda pode ser utilizada na culinária.

Na parte das ornamentais, algumas espécies são mais indicadas para quem está começando, como as suculentas e cactos, ou espada-de-são-jorge, que não demandam muitos cuidados e se adaptam a vários lugares, com iluminação e climas diferentes. Quem deseja produzir alimentos, mesmo sem espaço, pode optar por vasos, pequenos canteiros ou mesmo hortas verticais.

Participar de grupos também é uma alternativa, quando a pandemia terminar. Em Marília, por exemplo, existe, desde 2017, um coletivo de pessoas voluntárias que transformaram uma praça pública em uma horta - a Horta Cavallari. As pessoas plantam, realizam oficinas e encontros para discutir agroecologia e combate ao uso de agrotóxicos. Durante a pandemia os trabalhos foram suspensos.

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