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Agricultura regenerativa faz a natureza produzir sozinha

Muito tempo atrás, a natureza não precisava da ajuda dos seres humanos para produzir comida. Mas quando o homem começou a interferir na natureza, ela parou de produzir comida sozinha. E agora, é necessário uma "forcinha", que vem na forma de adubos, irrigação, defensivos e até proteção solar.

Na década de 40, foi criado nos Estados Unidos, dentro do Instituto Rodale, o termo Agricultura Orgânica. Por volta dos anos 80, os agricultores, e os pesquisadores do Rodale, perceberam que o planeta estava muito desgastado pela agricultura convencional, e que, portanto, precisava ser recuperado. Surge então, o termo Agricultura Orgânica Regenerativa, que nada mais é do que fazer o caminho de volta do que foi feito até agora na produção de alimentos. Ou seja, transformar o ambiente da produção de comida, especialmente o solo, no que era antes da intervenção dos seres humanos.

Se a natureza for recuperada e voltar a ser o que era antes, ela poderá produzir alimentos espontaneamente, sem a necessidade da ajuda de ninguém.

Na agricultura regenerativa são utilizados basicamente os princípios da agricultura orgânica, que respeitam o meio ambiente, as relações de trabalho e utilizam elementos da própria natureza para adubação e controle de pragas. Significa produzir recuperando o solo e o ecossistema. Na produção convencional, geralmente os processos agrícolas fazem o contrário, degradam o meio ambiente, o solo, a atmosfera, com emissão de gases nocivos, a até a sociedade do entorno, pessoas e animais, por conta do desmatamento e desemprego.

Solo vivo

Embora para muita gente não pareça, a terra é um organismo vivo, cheio de micro-organismos que se movimentam e modificam o tempo todo. É essa vida que faz a planta crescer, florescer e produzir.

Os micro organismos possibilitam que os minerais da natureza sejam absorvidos pelas plantas. Sem eles, a planta não consegue usar esses nutrientes. E sem nutrientes, não cresce, não produz.

"O solo original era rico em minerais. Toda evolução das espécies foi embasada nesses 40 minerais, na diversidade. Mas hoje o solo é degradado", diz Lucio Lambert, pesquisador independente com mestrado em Agricultura Orgânica pela UFRRJ-Embrapa. "Como espécies estamos sentindo falta desses nutrientes. Muitas doenças que temos hoje, são fruto da carência desses elementos", completa.

O pesquisador aponta os principais vilões dessa degradação. A exposição à chuva, por exemplo, porque sem cobertura natural as enxurradas levam os minerais deixando o solo empobrecido. As queimadas e o uso de defensivos químicos, que acabam por matar os micro organismos, deixando o solo morto. E tem ainda a consequência negativa da pecuária extensiva, com o pisoteamento do gado que deixa a terra compactada e improdutiva.

"O tripé fundamental para que o solo seja fértil são minerais, matéria orgânica e micro-organismos", diz Lúcio Lambert. Esses elementos podem retornar ao solo por meio da agricultura regenerativa, em que o produtor adiciona micro-organismos e matéria orgânica, bem como bioinsumos e biofertilizantes. Esses podem ser produzidos com matéria prima da propriedade, como pó de rocha, borra de café, casca de banana, farelo de trigo, vegetação para a adubação verde.

"A fonte do insumo vai depender da localização da propriedade, do que tem disponível no sítio e na região. Se tem criação de animal pode usar esterco, cama de aviário, esterco de cavalo, por exemplo. Se mora perto do mar, algas marinhas. Se mora perto de um porto, pode ter acesso a cascas e escamas de peixe. Se tem fogão à lenha, a cinza é rica em potássio e sílica. Se tem carvoaria na região, pode usar o resíduo, que se transforma em carvão bioativado. Enfim, são resíduos que geralmente são desperdiçados, mas que podem ser incorporados ao solo, agregando fertilidade", afirma Lambert.

Regenerar a terra é regenerar pessoas

Há dois anos e meio o engenheiro Fernando Cesar Silva, 53, comprou um sítio de 5,5 hectares em Mirassolândia, região de São José do Rio Preto - SP. O sítio não produzia comida, estava ocupado com plantação de seringueiras e eucaliptos. Fernando então removeu a maioria das árvores e começou o trabalho de recuperar o solo e plantar alimentos.

Hoje, ele se orgulha de dizer que cultiva todos os alimentos que precisa. "Quase 100% da minha mesa vem da minha propriedade", diz.

A lista é longa, inclui arroz, feijão, alho, cebola, mandioca, batata doce, batata inglesa, cenoura, beterraba, rabanete, nabo, brócolis, couve flor, alface, couve, repolho, jiló, e ainda gado (carne e leite), porcos, galinhas (carne e ovos), milho para os animais, melancia, morango, e ainda há um pomar diversificado, que em breve deve começar a produzir diversas frutas. E ainda: por gostar de tomates, ele cultiva 300 espécies exóticas.

O excedente da produção é vendido aos vizinhos, que, segundo Fernando, estão despertando cada vez mais para a alimentação saudável e seus benefícios. "As pessoas fazem fila para comprar nossos produtos. O sabor é outro, e a saúde também. Tudo sem nada de veneno, sem adubo químico, sem ração comercial cheia de hormônios, cheia de vitamina artificial. Aqui é tudo da maneira mais natural possível".

Para conseguir esse resultado, o engenheiro usou práticas da agricultura regenerativa. Ao retirar as árvores considerou deixar as que eram importantes no sombreamento, e quebra vento.

O solo já estava na sombra e coberto com folhas das seringueiras, o que ajudou na recuperação. Mas a cultura anterior era convencional, com uso de adubos químicos, que empobreceram a terra.

Como a intenção dele é "voltar a natureza do solo de quando era uma mata virgem", ele precisou fornecer grande quantidade de matéria orgânica, como esterco compostado, minerais, pó de rocha, e cobrir o solo com vegetação espontânea. "Se essas plantas apareceram aqui é para ajudar a terra, ajudar as próximas plantações. Por isso não fazemos a capina", explica.

Ele também investe na plantação de flores, para atrair abelhas, que são importantes na polinização. Quanto às pragas, ele ensina: "Não aparece muitos problemas com insetos. Quando aparece, resolvemos facilmente com detergente, vinagre e biofertilizante produzido com estrume das vacas do sítio mesmo".

Fernando conta que decidiu comprar a propriedade em Mirassolândia porque trabalha no período da tarde em Rio Preto. De manhã, todos os dias vai ao sítio trabalhar no cultivo dos alimentos. "É como se estivesse indo para o céu. Além de gostar de plantar, tem a saúde da família, que é preservada com esse tipo de alimentação", afirma.

"A agricultura orgânica regenerativa leva à regeneração da saúde humana também. Se você revitaliza, remineraliza, regenera seu solo, acaba por revitalizar, remineralizar e regenerar também a saúde do ser humano", diz Lúcio Lambert.

 

Mudanças climáticas

A agricultura regenerativa se coloca como uma prática que vai além da simples produção natural de alimentos. O manejo da terra visando a preservação das propriedades originais do solo pode influenciar de forma positiva até mesmo as alterações climáticas. Um exemplo é a prática de arar a terra para o plantio, que ao remexer raízes antigas libera carbono. Na atmosfera esse elemento se combina com o oxigênio para formar o dióxido de carbono, um dos principais gases de efeito estufa. Um estudo do Instituto Rodale, mostra que as práticas de agricultura regenerativa promovem a absorção de 100% do dióxido de carbono que é emitido na atmosfera durante a agricultura convencional.

Práticas para regenerar


Fazer a rotação de culturas

Proteger a terra como cobertura natural (folhas e palha)

Não remexer a terra antes
de plantar

Diminuir uso de fertilizantes
e pesticidas

Não utilizar sementes
geneticamente modificadas

Praticar o bem-estar animal

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