Grupo Diário da Região   | segunda-feira, 19 de outubro
IMG-LOGO
Home Sustentabilidade

Já ouviu falar em economia donut?

O mundo que conhecemos não é mais como antigamente. E essa mudança vem ocorrendo há muito tempo, mas agora, com a pandemia de coronavírus, elas ficaram mais evidentes. Os preços de alguns produtos, que antes eram determinados pelo custo de produção e demanda, hoje são medidos levando-se em conta fatores como responsabilidade social ou ambiental dos produtores. Economistas já consideram o capital natural das empresas.

O problema é que, o mesmo setor financeiro que reconhece essas mudanças, ainda olha para os resultados em gráficos numéricos de desempenho e geração de riquezas, que desconsideram os valores sociais e ambientais.

Incomodada com essa incoerência, a economista britânica Kate Raworth, do Instituto de Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford, formatou a Economia Donut. O modelo Donut foge das complicadas teorias vigentes. Diz que as metas econômicas devem atender as necessidades das pessoas sem exceder os limites do meio ambiente. Simples assim.

O nome é referência à tradicional rosquinha americana, porque o gráfico utilizado pela pesquisadora imita o desenho de um donut. Nesse modelo, o centro da guloseima seria onde caem as pessoas que por várias questões acabam ficando sem o necessário para viver dignamente (emprego, casa, água, alimentação, etc). No anel da rosquinha estão os que tem acesso a alimentos e água potável, habitação, educação, saúde, saneamento, energia, renda, participação política - de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

O objetivo desse modelo é que todas as pessoas fiquem dentro do donut, mas sem extrapolar os limites ecológicos, que estão representados pelo anel externo da rosquinha. Fora do donut estão as pessoas que utilizam mais do que o planeta pode produzir. Se houver muita gente nesse espaço, aparecem os problemas climáticos, porque os recursos naturais são explorados em demasia.

Segundo a jornalista Maria Clara Parente, que foi aluna de Kate Raworth, no Schumacher College, em 2018, a ideia de utilizar um gráfico em formato circular, com limites vazios, pode explicar melhor a situação do planeta que o modelo de gráfico do PIB, criado por economistas do século 17, em que as crises eram outras. "Essa economia valoriza todas as relações que estão na Terra. Entendemos as coisas pelas metáforas - a rosquinha é um símbolo", explica Parente.

Para formatar as diretrizes da Economia Donut, expostas no livro de mesmo nome, Kate Raworth identificou três grandes problemas contemporâneos que precisam ser combatidos: crise financeira permanente, desigualdade na distribuição da riqueza, e o consumo desenfreado dos recursos ambientais. Para ela, o resultado disso não pode ser medido somente pelo PIB, assim como os resultados positivos das soluções. "É preciso olhar a melhoria nas pessoas e na Terra", diz Parente.

Cuidar da casa

Um dos princípios mais importantes da teoria Donut é o cuidado que se deve ter com a casa que habitamos. Isso se refere ao próprio corpo, moradia, e também, principalmente, ao planeta. "Não dá mais para acreditar que vai destruir aqui e quando acabar, vamos viver em Marte", afirma Maria Clara Parente.

A economia hoje é baseada no crescimento desenfreado, como se a geração de riqueza fosse algo ilimitado. Esse é o gráfico considerado pela economia tradicional. Mas a natureza não cresce o tempo todo, existem períodos de descanso, amadurecimento dos frutos, perenidade das folhas, para então depois brotar vigorosamente e produzir mais, e melhor. Assim existe prosperidade. É um ciclo que funciona perfeitamente há bilhões de anos, mas um ciclo que a economia não considera. Aquilo que cresce sem paradas, acaba por esgotar e matar o sistema em que está inserido.

A reconstrução, seja do homem, da economia ou do planeta, pede mudanças de paradigmas. Reconstruir hoje, significa uma total reconfiguração da forma como o ser humano se relaciona com o macro organismo - Terra e pessoas. "Vivemos o maior desafio, de extinção da espécie mesmo. Talvez a pandemia seja só o primeiro susto se continuarmos destruindo", diz Maria Clara Parente.

Economia individual

A cidade de Amsterdam, na Holanda, é a primeira do mundo a adotar os conceitos da economia Donut. Está sendo considerada como uma das soluções que podem ajudar a recuperar a economia local pós pandemia. Em Amsterdam, foi feito um estudo identificando quais necessidades não estavam sendo atendidas, e quais os limites ecológicos que estavam sendo ultrapassados. A aplicação do modelo se baseou nessas fraquezas.

Mas o modelo criado por Kate pode ser adotado tanto por cidades, como por países, empresas e até individualmente, no nosso dia a dia. É o que decidiu fazer um grupo de moradores do Rio de Janeiro. Há oito anos eles discutem diretrizes para a formação de uma comunidade alternativa. Mesmo sem saber, eles seguem os princípios da economia Donut. "Apesar de nunca ter ouvido falar dessa teoria, acho importante os pesquisadores criarem metáforas para que as pessoas entendam melhor o conceito de recursos não renováveis, consumir só o que produz, reduzir consumo exagerado", disse o bioengenheiro Lucio Lambert, um dos membros da Comuna Autossustentável, uma ecovila agrícola. Cada participante tem seu espaço individual, mas em uma única propriedade. Tudo gira em torno do coletivo. A compra da terra, o trabalho no campo e comercialização, assim como todas as decisões. A proposta não é abolir o dinheiro, nem abrir mão dos lucros. O grupo pretende gerar renda mediante a venda do excedente produzido. "É somente uma crítica ao modelo atual vigente, do consumista urbano, destruidor de recursos. Queremos ser uma alternativa a isso", diz Lambert.

Toda a produção vai obedecer princípios de agroecologia, respeitando o meio ambiente. Inicialmente a ideia é produzir o próprio alimento, de forma orgânica, captar água e energia, promover a reciclagem e incorporação da matéria orgânica ao solo. "O primeiro passo que precisa dar, e que é o mais difícil, é plantar o próprio alimento. Mesmo não tendo a intenção de ser 100% autossuficiente", disse Lambert. "Não temos a intenção de mudar o mundo. Mas achamos que nós seres humanos fomos responsáveis pela criação desse caos que o planeta e a sociedade vive, então deveríamos nos sentir um pouco na obrigação de propor uma saída e construir uma alternativa na vida prática", finalizou.

 

Editorias:
Sustentabilidade
Compartilhe: