Grupo Diário da Região   | sexta-feira, 11 de setembro
IMG-LOGO
Home Sustentabilidade

Apertem os cintos, o motorista sumiu!

Carros trafegando pelas ruas sem ninguém ao volante é uma cena que pode se tornar comum mais cedo do que imaginamos. A tecnologia dos carros autônomos, que permite que um veículo se movimente sozinho, sem a necessidade de um ser humano na posição de motorista, já é realidade. "A adoção de veículos autônomos em vias públicas tende a ser um processo gradual e irrefreável", diz Raphael Vivacqua Carneiro, engenheiro doutorando em Ciência da Computação, e também sócio-fundador da Lume Robotics, empresa que participou da criação do primeiro carro autônomo brasileiro.

Sim, o Brasil já tem um carro que pode andar sem motorista, e ele já está sendo utilizado em empresas privadas do Paraná. O e.coTech 4, lançado em janeiro desse ano, foi desenvolvido pela empresa Hitech Electric, startup paranaense que produz veículos elétricos, em parceria com a Lume Robotics, do Espírito Santo.

Apesar da capacidade tecnológica de operar normalmente nas ruas, carros desse tipo ainda não podem ser utilizados em vias públicas. É que o Brasil ainda não tem regulamentação para isso. A ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas, começou em 2017, estudar uma legislação específica para os carros autônomos, mas os trabalhos ainda não avançaram.

"A legislação de trânsito do Brasil ainda está bem atrasada nesse caminho inevitável, porém já foram iniciadas discussões sobre o tema na Câmara dos Deputados, envolvendo o DENATRAN, pesquisadores e montadoras de veículos, bem como eventos promovidos pelo INMETRO e o Programa Rota 2030 do Governo Federal", diz Raphael Carneiro, da Lume.

"Aqui no Brasil, atualmente, temos apenas a intenção em definir regras para a direção autônoma. Enquanto isso não é oficializado, torna-se ilegal rodar com carros autônomos em vias públicas. Por isso mesmo nosso direcionamento foi para ambientes fechados onde não temos essa barreira", explica Rodrigo Contin, fundador e CEO da Hitech Electric, que criou o e.coTech 4.

Alguns países estão mais avançados na regulamentação e na liberação de testes autônomos em vias públicas, com ou sem supervisão humana dentro dos veículos. É o caso de Cingapura, Reino Unido, Nova Zelândia, Finlândia, Holanda, Alemanha, Noruega, Canadá, Estados Unidos e Suécia.

No Brasil, apesar da falta dessa regulamentação, os especialistas concordam que essa realidade de termos carros autônomos nas ruas está próxima. Tanto Rodrigo Contin como Raphael Carneiro estimam prazo de 10 anos. "E após isso, nas décadas seguintes, certamente passará a ser o modo de direção padrão da maioria dos veículos", diz Raphael Carneiro.

Os brasileiros são receptivos a essa tecnologia. Estudo realizado em 2019, pela KPMG - empresa de auditoria independente, mostrou que os brasileiros estão mais adeptos e dispostos a aderir aos carros sem motorista. Por outro lado, a pesquisa mostrou também mais um entrave para a adoção da tecnologia: a falta de infraestrutura, a necessidade de adequação viária para receber os veículos autônomos. "O País quer, mas obviamente temos um déficit em estrutura", afirma Contin.

O pioneiro no Brasil

O primeiro carro autônomo do Brasil, o e.coTech4, foi criado pela Hitech Eletric, do Paraná, em parceria com a Positivo Tecnologia e Lume Robotics, uma startup tecnológica sediada no Espírito Santo. É movido a energia elétrica e pode ser "abastecido" em tomadas comuns de três pinos, com voltagens de 110V ou 220V. A recarga leva seis horas e dá autonomia para rodar 100Km. O custo aproximado por recarga é de R$ 4, dez vezes mais econômico se comparado com um carro popular 1.0 abastecido com gasolina, que consome cerca de R$ 45 para rodar a mesma distância.

O e.coTech 4 leva esse nome por ter nível 4 de automação. Isso significa, entre outros fatores, que pode ser operado sem a presença de um motorista. O carro detecta objetos a 50 metros de distância. Durante o trajeto, o sistema reconhece quase instantaneamente os obstáculos estáticos (meios-fios, muros, postes e barreiras) e móveis (pedestres e outros veículos), então o sistema faz o carro desviar ou reduzir para não haver colisão. "No semáforo por exemplo, se a luz vermelha estiver acesa, o sistema autônomo faz o veículo parar e aguardar até que a luz verde acenda. Se houver pedestres atravessando ou prestes a atravessar uma faixa de pedestre, o sistema autônomo faz o veículo parar e aguardar até que a faixa fique liberada, antes de prosseguir", explica Raphael Carneiro.

É possível conduzi-lo através de aplicativos para smartphones. Mas o diferencial está na localização, porque não utiliza o sistema GPS como a maioria dos carros autônomos. O sistema usa localização precisa em mapas. Opção que foi adotada porque as informações fornecidas pelo GPS apresentam erros de localização com um ou mais quarteirões, locais com sinal fraco, etc. "Por isso desenvolvemos o nosso próprio sistema de mapeamento, utilizando sensores que fazem a leitura do ambiente trafegável. Com esse sistema de localização a precisão média de localização é de apenas 10 centímetros. Isto torna a tecnologia de mobilidade autônoma bastante eficiente e segura", explica Raphael, da Lume Robotics.

Carro sustentável e seguro

Entre as vantagens dos carros autônomos está a sustentabilidade. Um relatório lançado pelo Boston Consulting Group (BCG) e pela Universidade de St. Gallen, na Suíça, mostrou que esse tipo de veículo pode diminuir a poluição nos ambientes urbanos. Geralmente os carros autônomos são movidos a energia elétrica, o combustível mais ecológico que existe. O estudo apontou que Los Angeles, por exemplo, reduziria as emissões de dióxido de carbono em 2,7 milhões de toneladas/ano se tivesse circulando nas ruas mais carros autônomos, movidos a energia elétrica, e compartilhados.

Oura vantagem seria a segurança. "É uma máquina que tem repetibilidade, que não erra. Isso aumenta a segurança e fluidez do trânsito", diz Rodrigo Contin.

Raphael Carneiro cita os estudos realizados pelo Departamento de Transportes dos EUA, em que 94% dos acidentes de trânsito com vítimas fatais são causados por falhas humanas, tais como: fadiga, desatenção, atitude imprudente ou imperícia. "Este tipo de falha pode ser drasticamente reduzido ou eliminado pelos sistemas autônomos. Além disso, o sistema autônomo é baseado em sensores precisos e por isso possui um tempo de reação cinco vezes menor do que o tempo de reação típico de um ser humano. Isto reduz muito o número de acidentes inevitáveis, que são aqueles em que não há tempo suficiente para o motorista reagir".

 

Níveis de direção autônoma

Os níveis de autonomia de um carro variam de 0 a 5. Confira:

Nível 0 - Dependem totalmente do motorista, podendo emitir apenas alguns avisos de segurança, como ponto cego e saída da faixa de tráfego.

Nível 1 - Oferece ao motorista suporte de aceleração ou freio, controle de velocidade e centralização na faixa da estrada.

Nível 2 - O carro pode acelerar e frear sozinho em linhas retas. Mas precisa de monitoramento de um motorista dentro do carro.

Nível 3 - Carro anda sozinho em várias situações comuns, não necessitando do motorista. Mas ainda precisa de uma pessoa dentro do carro.

Nível 4 - Veículos não precisam de pedais de aceleração nem volante. Não precisa da presença de motorista. Mas ainda é limitado em situações complicadas de trânsito.

Nível 5 - O nível máximo da autonomia. O carro pode se locomover sozinho sem nunca precisar da interferência de alguém. Também não precisa de volante ou pedais.

Editorias:
Sustentabilidade
Compartilhe: