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O novo sustentável pós-coronavírus

Como será o mundo pós-coronavírus? Já se fala em "novo normal" para definir o comportamento das pessoas depois desse período tão atípico e traumatizante que estamos vivendo.

Uma frase escrita há 100 anos pelo líder marxista Vladimir Lenin nunca esteve tão atual: "Há décadas em que nada acontece. E há semanas em que décadas acontecem". As grandes crises da humanidade, como revoluções, guerras e também as pandemias, são chamadas pelos historiadores de "aceleradores da História". É a velocidade das mudanças que estamos vivendo nessa pandemia.

Realmente, mudanças que já vinham acontecendo, estão sendo aceleradas como, por exemplo, o trabalho remoto, a consciência e as leis que obrigam a responsabilidade social, a educação à distância, e a busca por uma vida mais sustentável.

O ser humano ainda vive o momento de reflexão sobre o futuro. Mas o planeta já vive a realidade do novo normal. Enquanto as pessoas estão lutando contra a contaminação do vírus - aderindo ao isolamento social e pesquisando vacinas, o meio ambiente já mostra mudanças profundas.

Na Itália, por exemplo, as águas dos canais de Veneza ficaram limpas como há anos não ficavam. Tudo por conta da redução do trânsito das gôndolas.

O ar que respiramos também sente os efeitos do número menor de pessoas circulando. Na região de São José do Rio Preto, por exemplo, a Cetesb constatou, por meio de estações de monitoramento, que a concentração de dióxido de nitrogênio na atmosfera reduziu drasticamente após a redução no tráfego de veículos devido à pandemia. E imagens de satélite mostraram redução significativa nas concentrações de poluição do ar também em países da Europa e na China nos períodos de isolamento social.

Espera-se que o novo normal das pessoas também contribua para que essas melhorias no meio ambiente continuem. Especialistas falam que a crise do coronavírus pode criar um novo tipo de comportamento e hábitos que ajudariam a combater as mudanças climáticas.

Empreendedores de produtos sustentáveis também são otimistas. "As pessoas com certeza vão se preocupar mais com o meio ambiente, procurar um estilo de vida mais saudável, reduzir o consumismo desenfreado, reduzir o lixo. O isolamento nos fez repensar que coisas simples fazem falta, e que devemos valorizar o planeta", disse Daiana Brás, artesã da Ciclo Alternativa, que trabalha com produtos lixo zero.

Terá a humanidade essa consciência de preservação dos recursos naturais? Tem muita gente apostando que sim. A seguir, algumas tendências de comportamento para o novo normal, que podem ajudar o planeta.

Menos é mais

Seja por conta da consciência ambiental, do combate ao desperdício de recursos, seja pelas dificuldades econômicas que já começam a aparecer, o fato é que a pandemia está mostrando que o importante é a qualidade e não a quantidade do consumo. Há uma tendência à procura nos próximos anos pelos brechós e customização de roupas, e não apenas o descarte e compra de novas peças. O mesmo é observado nas relações humanas. O distanciamento está deixando evidente a importância dos pequenos prazeres, dos recursos que temos em casa, e do contato com amigos e família. Esse choque de separação pode provocar o resgate da vida simples, a priorização da felicidade e saúde aos bens materiais.

Mais solidariedade

A epidemia está mostrando que as dificuldades nesse momento só serão superadas com união. A solidariedade está em alta no Brasil, e o individualismo está em baixa. Pessoas e empresas estão fazendo doações às comunidades que precisam, e ajudando os governos na construção de hospitais de campanha, em um grande esforço coletivo. Sem contar que a velocidade do contágio do vírus depende também do esforço conjunto. Não adianta apenas uma parcela da população se prevenir com máscaras, por exemplo, ou respeitar os distanciamentos, se os demais continuam agindo sem cuidados. Todos serão contaminados. Já está comprovado que os hábitos e práticas se tornam comuns quando mantidos regularmente por um tempo. Ou seja, uma sociedade praticamente obrigada a ser solidária por alguns meses, será naturalmente solidária por muitos anos. A solidariedade de um povo pode fazer a diferença na solução de questões ambientais de um país.

Aldeia global online

Muito se fala nas alterações climáticas provocadas pela queima de combustíveis fósseis. Com a pandemia, e menos carros nas ruas, os níveis de poluição da atmosfera já estão diminuindo. Os trabalhos em home office, educação à distância e as compras online que estão sendo feitas hoje, podem ser um hábito no futuro, e assim, diminuir a circulação de veículos utilizados para a locomoção das pessoas.

Experiências culturais imersivas também estão em alta nesse momento, e podem ser adotadas no pós-coronavírus, como as lives de música e tours virtuais a museus e exposições.

O bem-estar dos bichos

É provável que o coronavírus tenha surgido do contato de seres humanos com animais silvestres, armazenados em jaulas sem condições de higiene, vendidos em um mercado da cidade chinesa de Wuhan. Já está provado que a produção industrial de animais, com criação em cativeiro, e condições inadequadas, propicia o aparecimento de doenças. A gripe suína H1N1, de 2009, por exemplo, também parece ter surgido em uma operação de confinamento nos Estados Unidos. A gripe viária H5N1, de 1997, apareceu em granjas na China que não respeitavam os princípios do bem-estar animal.

"Sistemas de confinamento animal podem, de fato, gerar mais suscetibilidade a doenças e prejudicar todo o processo industrial do alimento até chegar à mesa do consumidor", disse Gabriela Pinheiro de Sousa, mestre em Agronegócio e Desenvolvimento com dissertação sobre o bem-estar animal em granjas de produção de ovos.

O indicado é que a indústria de proteína animal adote procedimentos de gestão da qualidade, como rastreabilidade, identidade preservada, segregação de produtos, controle de ações preventivas e corretivas e certificações, trazendo maior segurança ao consumidor e, consequentemente, diminuindo a poluição e desgaste de recursos naturais.

"Chegar a um limite aceitável de práticas que coloquem os animais de produção em condições mínimas de bem-estar é, hoje, uma obrigação", diz Sousa.

Desligue o ar e respire a natureza

A contaminação pelo coronavírus é menor em ambientes ao ar livre. A imunidade que dificulta a infecção é reforçada pela vitamina A, que pode ser potencializada no organismo humano pelos raios de sol. Com isso, as pessoas estão preferindo abrir as janelas e desligar o ar-condicionado, o que representa economia de energia e, consequentemente, de recursos naturais utilizados para gerar essa energia e diminuição na geração de gases refrigeradores na atmosfera. Provavelmente, nas construções dos próximos anos haverá a valorização de projetos de engenharia e arquitetura que aproveite a luz natural e priorizem a circulação de ar.

 

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