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Lixo que vira eletricidade

Uma cidade que aproveita quase 100% do lixo produzido e ainda consegue gerar, com isso, eletricidade suficiente para abastecer 1/3 desses moradores. Não estamos falando de filme de ficção. Essa situação é possível e já é realidade em alguns países, incluindo o Brasil.

Trata-se das usinas chamadas URES (Usinas de Reciclagem Energética), que utilizam tecnologias de reciclagem energética para, com a queima ou gaseificação do lixo, gerar energia elétrica.

Até as cinzas provenientes desse processo são aproveitadas na fabricação de tijolos, com adição de 15% de cimento. A queima de 150 toneladas de lixo, por exemplo, produz cinza suficiente para fabricar tijolos que podem construir uma casa de 50 metros quadrados. São José do Rio Preto, de acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, gera por dia cerca de 420 toneladas. Tirando os 30% que é material reciclável reaproveitado, sobraria 300 toneladas para produzir energia elétrica e tijolos que dariam para construir duas casas por dia. Atualmente, esse volume é depositado no aterro sanitário, que fica em Onda Verde. A curto prazo, os aterros são uma alternativa correta para a destinação do lixo que não pode ser reciclado. Mas a longo prazo, se tornam um problema devido ao acúmulo de dejetos.

O problema desse lixo seria rapidamente resolvido com as UREs, não fosse o alto investimento de instalação de uma usina como essa. Em Boa Esperança - MG, a 470 km de Rio Preto, uma usina termoquímica para geração de energia elétrica por meio de resíduos urbanos está em fase de conclusão, devendo começar a operar ainda esse ano. Já foram investidos R$ 32 milhões no projeto.

A usina de Boa Esperança vai produzir energia para alimentar 25% da necessidade dos moradores. Para isso vai processar 60 toneladas por dia, sendo que 40 toneladas são produzidas diariamente no município. “As 20 toneladas restantes pretendemos recuperar do lixão, ou seja, do passivo ambiental que fica na área logo ao lado da usina, e assim acabar gradualmente com ele”, diz Felipe Rinaldi, engenheiro de processos da Carbogás, a empresa responsável pela implantação do projeto, parceria com a prefeitura e Furnas Eletrobrás.

Atualmente o Brasil tem apenas uma usina que transforma o lixo em eletricidade. A Usina Verde é a pioneira no país e começou a operar em 2005, como projeto experimental, no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ). Em 2017, a Usina Verde começou a atender empresas que desejam minimizar o impacto do lixo gerado pelos seus produtos. Hoje, são processados, em média, 300 toneladas de lixo por mês. De acordo com a gerente técnica da fábrica, Fernanda Ferreira de Sousa, 90% do lixo hospitalar do Rio de Janeiro e cidades vizinhas já está sendo transformado em energia elétrica.

Ambas as usinas, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, operam com tecnologia desenvolvida aqui no Brasil, embora sejam tecnologias diferentes. “É importante termos uma tecnologia adaptada à nossa realidade, porque a forma como os resíduos chegam no Brasil é diferente de outros países, que tem outros hábitos para a segregação do lixo”, diz Sousa.

Usinas de reciclagem energética pelo mundo

As primeiras usinas de reciclagem energética foram implantadas na década de 80, no Japão e alguns países da Europa. Atualmente mais de 30 países no mundo já aderiram à transformação do lixo em energia elétrica. Na Alemanha, por exemplo, não existem mais aterros sanitários. Alguns países, como a Dinamarca, não geram lixo suficiente para usar a capacidade total das usinas que foram construídas, e assim importam de outros lugares, como Noruega, Suécia e Reino Unido.
O Brasil, que gera 240 mil toneladas de lixo por dia, tem atualmente mais de 5 mil lixões espalhados por cidades de vários Estados, sem contar os aterros sanitários.

Como funciona

Gerar energia elétrica com a queima do lixo é um processo complexo. Resumidamente, funciona da seguinte forma: o lixo é colocado em uma esteira e jogado dentro dos incineradores, que foram previamente aquecidos a 850 graus com o uso de gás natural, GLP ou óleo diesel.
A adição do lixo, que gera calor, garante a reação de combustão dentro do incinerador. Os gases gerados com a combustão trocam calor com a caldeira e geram a energia elétrica.
Todo tipo de lixo, orgânico ou inorgânico, pode ser utilizado no processo. Isso inclui restos de comida, embalagens (plástico e papel), lixo hospitalar, fraldas descartáveis e absorventes, etc.
“Na Usina Verde só utilizamos o lixo que não pode ser reciclado por outros processos”, explica Fernanda Sousa.

Nem tudo são flores
Existe algumas críticas em relação à implantação das usinas geradoras de eletricidade por meio da queima do lixo. A principal é a geração de resíduos nocivos ao meio ambiente provenientes dessa queima, como gases que podem ser lançados na atmosfera. Mas os engenheiros contestam dizendo que os gases gerados passam por tratamento antes de serem liberados ao meio ambiente. “No caso da Usina Verde, a emissão de gases é monitorada pelo INEA – Instituto Estadual do Ambiente”, disse Fernanda Sousa. O INEA tem no Rio de Janeiro, a função que a Cetesb tem em São Paulo. Os gases ácidos que resultam da incineração do lixo são lavados com água alcalinizada, para transforma-los em sais minerais e água.

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