SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | QUARTA-FEIRA, 20 DE OUTUBRO DE 2021
Literatura

Poesia e engajamento social

Patrícia Reis Buzzini
Publicado em 03/07/2021 às 00:30Atualizado em 03/08/2021 às 11:14

A poesia está no ar, na sala de estar, na revista, nos noticiários, na música, no cinema, na literatura. Dá concretude ao abstrato, unidade ao diverso. Inventa o tempo, organiza o pensamento. Como afirma Octávio Paz, a poesia é revolucionária por natureza, um exercício espiritual, um método de libertação interior (O arco e a lira, 2012). Apesar das regras, encerra infinitas possibilidades. Consagra códigos linguísticos, desperta valores humanos. Atributos que se derretem ao calor de "Cratera antes da queda = Cráter antes de la caída", novo livro da escritora e etnolinguista Roselis Batistar. Professora universitária em Reims, na França, e filha do renomado jornalista paraibano Oduvaldo Batista - com quem realizou vários projetos editoriais - Roselis transita obstinadamente entre línguas indígenas, o português, o espanhol, o russo, o inglês e o francês. Nesta publicação, a autora apresenta poemas que falam, sobretudo, de liberdade, do universo feminino, da família e do meio ambiente. De acordo com o escritor e crítico literário João Adalberto Campato Jr, que assina o prefácio da obra, a poesia de Roselis compartilha recursos expressivos muito bem planejados como o emprego da linguagem metalinguística, a expressão vaga e sugestiva, o tom largamente meditativo, a ironia fina, e o jogo astuto com as sonoridades. Poemas que escorrem por fendas de uma realidade caótica e desordenada, contraindicados para olhos cartesianos. Em entrevista exclusiva para a revista Vida & Arte, a escritora fala mais sobre o lançamento de seu livro, a relação com o pai intelectual e a carreira profissional.

Vida & Arte - Você é filha do jornalista paraibano Oduvaldo Batista, que já residiu em Rio Preto e é reconhecido pela prodigiosa trajetória na imprensa e na defesa de causas sociais. Quais foram as influências dessa figura paterna em sua vida?

Roselis Batistar - Minha vida, sem dúvida, teria sido outra se eu não tivesse tido os pais sensatos, cultos e generosos que tive. Meu pai foi meu grande mentor e sempre me incentivou a criar, em qualquer área. Lembro-me que aos 12-13 anos, escreveu na 1ª página de meu álbum de lembranças: "continue estudando sempre e amando as artes". Esse conselho, hoje, soa profético aos meus ouvidos. Ele não precisava dizer, ele fazia. Eu e meu irmão aprendíamos que defender os indefesos era normal, que não ser racista também, que dar à filha mulher o mesmo que a um filho homem é o certo, que ele não precisava ser religioso para ser humano, - meu pai era ateu - que tinha amigos padres e amigos comunistas, e que, todos mereciam respeito. Ensinou-me, pelo exemplo, o amor à natureza, aos animais, à música, à leitura, ao alimento vegetal, à política, à História, ao conhecimento em geral. Ele tinha, claro, seus defeitos e frustrações; era teimoso, guloso, amava ou detestava. Passou pela ditadura inventando metáforas e hipérboles para sobreviver. Em São José do Rio Preto veio duas vezes, participou de meus "Encontros sobre Indigenismo" no IBILCE, e achou a secura do clima "engraçada". Conheceu alguns repórteres de O Diário da Região, que ele chamava de "focas", porque eram novatos no métier. Levava muito a sério o trabalho de jornalista, e achava que o caminho político e sócio econômico do Brasil em vias de uma justiça social seria longo e árduo. Oduvaldo Batista foi jornalista por mais de 60 anos. Até um mês antes de falecer ainda publicou. Nunca gozou de uma aposentadoria digna. O equivalente a ¾ de salário mínimo de hoje. Talvez tenha sido por isso que me incentivou a sair do país, o que fiz aos 19 anos.

V&A - Quando surgiu a oportunidade de trabalhar em Reims, na França? Você saberia identificar as principais diferenças entre o ensino superior brasileiro e o europeu?

Roselis - Eu era professora de língua francesa no IBILCE (UNESP) de Rio Preto na época e fazia pesquisa em Linguística Teórica e Aplicada, em Tradução, em Etnolinguística, em Discurso, em Civilização francófona, etc. Saí de lá porque me casei com um professor universitário da SORBONNE IV. Uma vez na França, terminei um mestrado em espanhol para, em seguida, matricular-me em outro doutorado, já que meu primeiro doutorado em Linguística não era tão "importante" para conseguir um trabalho. Há grandes diferenças tanto no ensino de línguas estrangeiras, e de Linguística e Literatura numa universidade francesa e numa brasileira. Entre as principais diferenças é que, na França, atribui-se muita atenção à escrita, à tradução e à versão como aprendizagem da sintaxe e do vocabulário na linguagem oral ou escrita da língua que se estuda. Não se treina muito o oral, e logo, a fonética é pouco estudada. Acho que o melhor método de ensino de línguas, de civilização e de literatura "implícita" ou "aplicada" - e desculpo-me pela pretensão - é o que eu criei através do cinema. Quanto aos cursos teóricos, chamados magistrais, e os cursos de tipo seminário, com menos estudantes, método utilizado na França e na Rússia, parece-me excelente. Além do mais, na França a graduação é somente de 3 anos; na Rússia, de 4, com muito mais horas de aulas, terminando, em geral às duas da tarde. No Brasil observei uma maior liberdade no ensino superior, em Goiânia, em São Paulo, em Rio Preto. O bom eram as aulas de língua serem quase diárias.

V&A - Qual é a sua concepção de poesia? Você acredita que o isolamento social pode favorecer a escrita literária?

Roselis - Poesia é a arte que se faz com a linguagem, com a fala. Nem todo mundo é versado em desenho, para chegar dele à pintura; nem todo mundo pode criar formas na madeira ou nas pedras e nem cogita nisso; Escultura? O mesmo se pode dizer da Música, pois criar com sons não é para qualquer um; e criar formas diferentes como os grandes arquitetos, que coisa difícil... mas a língua, isso todo mundo tem. Acredito na necessidade da arte para que um ser humano se sinta "accompli", completo. Como toda arte, a poesia tem suas regras, seu "universo" simbólico, e cria imaginariamente formas, canta melodias com as palavras, expressa um sentir que é único para o poeta, e ao mesmo tempo universal. Para mim, a poesia é o coletivo, é a variedade, é o arquétipo de vida. Não concebo a vida sem ela. Quando sinto o impulso, o "élan" do poema, e que não acho um pedaço de papel, a insatisfação me esgota, o stress me sucumbe, a infelicidade me consome. O isolamento sempre favoreceu a escrita, mas não acredito em isolamento se tenho a poesia comigo. A pandemia me sussurrou que eu devia ter um caderno e caneta à cabeceira de minha cama, para poder acordar no meio da noite e escrever o poema que estava ali, entre o dormir e o acordar. Então componho.

V&A - Como surgiu a oportunidade de participar na Antologia Elos da Língua Portuguesa, idealizada por João Paulo Vani e Samira Camargo? Qual é a importância de projetos voltados à divulgação e valorização da leitura no Brasil?

Roselis - Foi Telma, a minha cabeleireira sagaz e inteligente - que eu já conhecia de outra conferência que dei anos atrás em Rio Preto - quem me falou que tinha uma amiga escritora que ia à Suíça receber um prêmio, e que ela também ia. Claro que me interessei. Foi assim que a conheci. Samira Aparecida Camargo aproximou-se de mim, pôs as mãos nas minhas costas e com o sorriso sincero e amigável que a caracteriza, perguntou: Você que é a Roselis? Foi assim que tudo teve início. Agradeço a ela minha inserção no mundo cultural de Rio Preto, a ela o fato de ter-me apresentado ao editor E. Zanetti, da Editora Ponto Z. Projetos como Elos da Língua Portuguesa são necessários em todo o país, pois implica leitura, valorização dessa arma que todos temos, a língua portuguesa, uns mais, outros menos, aí entra a pedagoga e alerta: " Não é só no Brasil que se fala português". Incentivo à educação? Também.

V&A - Você acaba de lançar um novo livro de poemas, "Cratera antes da queda = Cráter antes de la caída", pela Editora Ponto Z. Como surgiu esse projeto? Selecione um poema para compartilhar com nossos leitores.

Roselis - O título se põe por último - dizia meu pai. Havia uma ideia no ar, fruto de um ar que vinha da sociedade onde estamos inseridos. E quase sempre foi assim com todos os meus livros. Pode ser que algo já rondava por perto, mas o que definiria em poucas palavras o que eu estava criando, não era o mais importante, e sim o que eu estava passando, bem ou mal. Do que "Cratera antes da queda..." não fala, pois nem a MORTE escapa? Esse livro é um grito abafado, pois se eu o solto completamente, posso cair. Pelo sim pelo não, repasso a vida que era bem melhor antes, apesar de...e queremos evitar a queda, a morte antes da hora, o feio do nosso país. "Hay que luchar". Cratera é uma consciência acordada que vive com insônia, que clama por arte, justiça e liberdade. Como? Se soubesse não teria concebido o poético no trágico! Mas a poesia se dá, com cratera ou não, e serve de alerta melodioso e artístico.

A BOLHA

Roselis Batistar

A bolha reluzente resistia

Saiu da banheira e ganhou o seu quarto

Como quem procura um farto repasto

Para resolver explodir de emoção.

A bolha crescia como se alguma magia a impulsasse

Como se o pensamento da dama

Ao sair da cama d'água

Resvalasse toda a mágoa para o ralo da banheira;

E faceira ela pensava:

_ "Estás crescendo com minh'alma

Que já não guarda mais a ânsia de gritar

Que vê estrelas deslizando no sabão"...

Mas a bolha escutou seu grito!

E explodiu como num rito.

Achou ela então o que a matava:

Só um enorme coração!

Roselis Batistar (Divulgação)
Roselis Batistar (Divulgação)
Título: Cratera antes da queda = Cráter antes de la caídarAutor: Roselis Batistar Ano: 2021rEditora: Ponto ZrPáginas: 192rPara adquirir o livro "Cratera antes da queda = Cráter antes de la caída" (2021), entrar em contato com Editora Ponto Z por telefone ou e-mail: (17) 992300006 /editorapontoz@gmail.com. (Divulgação)
Patrícia Reis Buzzini (Arquivo pessoal)
 
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