IMG-LOGO
Home Cultura

Memórias juvenis formatam novo livro de Guimarães Ortega

Patrícia Reis Buzzini - 01/05/2021 00:25

A infância é um período sagrado, encerra sensações e experiências decisivas para a formação do caráter das pessoas. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis já afirmava que "o menino é o pai do homem", ao discorrer sobre a influência do meio doméstico nos primeiros anos de vida de seu protagonista. De acordo com a psicanálise, grande parte das vivências do passado ficam inacessíveis ao longo dos anos, restritas a recantos obscuros da memória. Nessa perspectiva, considera-se que a literatura memorialista abarque textos que apresentam tentativas de verossimilhança, por meio de imagens, palavras, símbolos e significações. Como no poema de Fernando Pessoa, o narrador memorialista será sempre, de certa forma, um fingidor, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Apesar de tudo, contar histórias continua sendo um impulso natural, que simplesmente brota de dentro da gente. Se haverá conexão exata entre escrita e realidade, nunca saberemos. Mas será mesmo que importa?

Em Escola de Moleques, Guimarães Ortega compartilha relatos que não se restringem ao universo masculino, cenas comuns na rotina de um grupo de estudantes no final dos anos sessenta. Com estilo leve e bem-humorado, o livro tem tudo para provocar identificações em leitores da chamada geração analógica e estimular o imaginário daqueles que já nasceram na era digital. Os embates entre professores e alunos numa atmosfera marcada por autoritarismo e repressão ganham ares de comédia nos contos "Juderléia" e "Uma classe especial". Nos contos "FBI", "O rato" e "Keka e Biro", evidenciam-se situações de rivalidade, empatia e superação na prática de atividades esportivas. E quem se recorda do ofício de "boy"? Jovens que eram contratados para fazerem de tudo dentro de uma empresa: ir ao banco, cartório, tirar xérox, entre outras coisas. Em "O repouso dos guerreiros" e "Um dia como outro qualquer", acompanhamos alguns contrastes entre a dura rotina de trabalho dos "boys" e a rotina de intelectuais e universitários que engrossavam protestos contra a ditadura na época. A bicicleta, sonho de consumo dessa geração, é abordada no conto intitulado "Cleide". O desejo de transgredir regras em imponentes veículos "tunados" reaparece nas narrativas "O carro" e "Valtinho e sua moto". Momentos banais ou extraordinários que atravessam o tempo na escrita apurada do escritor Guimarães Ortega.

Natural de Marília, Guimarães escreveu em jornais, participou de vários concursos literários com menção honrosa e já publicou uma série de livros, entre poesia e prosa. Em entrevista exclusiva para a Revista Vida & Arte, o escritor, músico e jornalista, que já foi reconhecido nacionalmente como "grande talento literário", fala mais sobre a sua trajetória profissional e o lançamento do novo livro.

Vida & Arte: O que surgiu primeiro, o interesse pelo jornalismo ou a pela literatura? Como você enxerga a relação entre essas duas atividades?

Guimarães Ortega: O jornalismo, sem dúvida. Uma paixão de infância, que surgiu pela admiração por um tio jornalista. Homem de poucas palavras e sorriso circunspecto, me cativou aos 12 anos de idade a ponto de me despertar o desejo de ser jornalista. Um sonho que se tornou realidade em 2008, quando finalmente me formei. A escrita veio nos anos 1970, quando comecei a escrever poesias e letras de músicas, e logo enveredei para a prosa. A relação entre jornalismo e literatura é exatamente a escrita, numa simbiose envolvente. Tanto que me apaixonei pelo "New Journalism", tendência que utiliza a técnica literária no jornalismo.

V&A: Em 1982, você publicou o livro de poemas "Dois Caminhos", com seu irmão Henrique. Como surgiu essa parceria? Você poderia compartilhar o seu poema favorito conosco?

Guimarães: "Dois Caminhos" pois são vertentes distintas da poesia. Meu irmão Henrique mais lírico, realista e às vezes cético. Eu, discursivo, fantasioso. O livro é dividido em duas partes: "Sonho Elegia Sonho" e "O Exercício". E a proposta do livro em conjunto por sermos membros da Academia de Letras de Marília, além da questão do custo da edição. Resolvemos economizar bancando uma edição "feita em casa", literalmente, sem o auxílio de uma Editora. O poema que mais gosto (Sombras) está no livro "Sombras em Tempo de Sonhar". Do livro "Dois Caminhos", gosto muito deste:

Quem, fez, não fez.

Quem, fez, não sei.

Quem fez, já foi.

Quem fez, não vem.

Quem fez, morreu?

Quem fez, não morre!

Quem fez, fui eu.

Por que, não sei.

V&A: Em "Histórias do Cava" (2006), vencedor do Programa Nelson Seixas, você faz a sua primeira incursão pelo universo memorialista dos contos. No livro, o Cava é descrito como um clube muito especial. Qual seria o verdadeiro tesouro do Cava?

Guimarães: O Cava era um clube de garotos cujos membros tinham um propósito: se divertir. O verdadeiro tesouro do Cava era a amizade entre os membros, a união em busca do objetivo comum. Entretanto o tesouro acabou se perdendo no tempo, por uma simples razão: os garotos foram crescendo, tornando-se adultos, até se afastarem definitivamente. O livro tem uma peculiaridade: cada conto é uma história distinta, porém existe uma cronologia. Se o livro for lido de forma sequencial se transforma em uma única história, com começo, meio e fim. Eu o considero um romance em forma de contos.

V&A: Como foi a experiência de participar da 23ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em 2014, com o livro "O Passaporte para o Inferno"?

Guimarães: Sinceramente, foi um pouco frustrante. "O Passaporte para o Inferno" foi lançado inicialmente em 2005. Posteriormente resolvi, juntamente com minha Editora na época, lançar uma segunda edição revista e atualizada. A União Brasileira de Escritores me convidou a lançar o livro na Bienal e aceitei, com muito orgulho. A decepção se deu em razão de os frequentadores visitarem as grandes empresas, editoras de renome. Essas ficam nas ruas principais e em grandes espaços, fornecendo brindes e agrados. As pequenas editoras ficam nas últimas ruas (mais baratas para locação), onde chegam poucos visitantes. A proposta da Bienal é a divulgação e o congraçamento literário. Com poucos visitantes (alguns amigos e parentes) tive pouquíssima projeção, embora seja uma experiência válida por estar ali, naquele grande evento cultural.

V&A: Este mês, você laça o seu Terceiro livro de contos, "Escola de Moleques (E outras travessuras)", pela editora THS. Nesta obra, você resgata valores, conflitos e situações que marcaram a vida de muitos jovens que viveram no final dos anos sessenta e início dos anos setenta. Considerando o conteúdo das histórias, você acredita que as novas gerações perderam muito?

Guimarães: Nos anos sessenta ocorreram mudanças que foram consideradas uma grande revolução comportamental. Mudanças principalmente culturais e sociais, que alteraram definitivamente o universo. Os jovens lutavam por seus ideais, encontrando todo tipo de dificuldades, o que valorizou muito a juventude da época. Os adultos diziam que o mundo estaria perdido se entregue aos jovens de então. Não só o mundo não se perdeu como está muito melhor, mesmo com os erros cometidos, embora com mais acertos. Com as novas gerações não é diferente, ainda que as ferramentas sejam novas e os desafios são outros, mais urgentes. Muitos de nós, adultos, agimos como nossos pais em relação aos jovens de hoje. Mas o mundo não estará perdido, não só pela perspicácia da atual juventude, mas também porque estão resgatando os valores das gerações anteriores.

V&A: Quais foram os impactos da pandemia do Covid-19 no seu trabalho? Você tem novos projetos de publicação para o ano de 2021?

Guimarães: Para meu trabalho a pandemia - ou pandemônio, como costumo falar - pouco influenciou. Teve sim algum impacto na minha vida social, por não poder confraternizar com amigos e parentes, por não poder frequentar restaurantes e algumas atividades culturais. Para 2021 o único projeto por enquanto é o lançamento do livro "Escola de Moleques..." Em 2022 pretendo lançar o livro "Melodia Poética" que contempla as letras das músicas que escrevi quando toquei em um grupo musical na cidade de Marília, nos anos 1970.

 

Editorias:
Cultura
Compartilhe: