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Cultura em tempos de isolamento social

Patrícia Reis Buzzini - 06/03/2021 00:25

Não é novidade que um dos setores mais afetados pela crise global decorrente da pandemia do Covid-19 seja o da Cultura. Espetáculos, shows musicais, festivais e eventos artísticos e culturais dos vários segmentos das artes foram cancelados e/ou adiados por tempo indeterminado. Artistas, produtores, empreendedores e todos os demais integrantes dessa enorme cadeia criativa perderam suas receitas, em razão da necessidade de isolamento social. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), estamos vivendo um período de "emergência cultural", considerando que muitos artistas estão lutando para manter condições básicas de sobrevivência. Outra vulnerabilidade apontada pela UNESCO é a fragilidade das estruturas de política cultural em diversos países, além da escassez de orçamentos para as pastas relacionadas a esse setor. Contudo, muitas pessoas ainda ignoram - e até mesmo negam - a importância da cultura como exercício de cidadania e de formação de identidades, ferramentas essenciais para a construção de sociedades mais pacíficas e resilientes.

No final de 2020, foram publicados os resultados de uma pesquisa realizada em todo o território nacional - com apoio da UNESCO no Brasil, SESC, USP, Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura e 13 Secretarias Estaduais de Cultura - sobre a percepção dos impactos da COVID-19 nos setores cultural e criativo do Brasil. Entre os meses de março e abril, 41% dos entrevistados declararam que perderam a totalidade de suas receitas, e entre maio e julho de 2020 essa proporção aumentou para 48,88%. As artes cênicas aparecem como o setor mais afetado, com perda total de receita em 63% dos casos. Sobre as expectativas para o segundo semestre de 2020 e início de 2021, merece destaque a projeção de crescimento do setor de tecnologias de informação e comunicação (TIC), que previu um aumento de até 50%. Entre as empresas e organizações, as medidas mais adotadas foram a redução de carga horária, seguida da redução salarial. No período de maio a julho de 2020, consta que 27,89% dos indivíduos obtiveram o auxílio emergencial de R$ 600,00. Contudo, além de auxílio financeiro, os participantes relatam que gostariam de obter mais informações direcionadas ao setor, participar de redes profissionais e obter apoio psicológico e/ou consultoria.

Com o objetivo de contribuir para o debate de ideias acerca do valor da cultura no momento atual, conversamos com Adriana Belic, experiente curadora, produtora e gestora cultural rio-pretense. Graduada na área de Ciências Humanas e especialista em Música e Negócios, também conta com pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas pela Cátedra da Unesco, Universitat de Girona e Observatório Itaú Cultural. Na FIESP, Adriana integra o COSIC - Conselho Superior da Indústria Criativa e o Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais. É diretora técnica da agência Belic Arte.Cultura e da Belic Music, editora e gravadora musical. Desde 2018, participa do WIN Brasil, iniciativa de valorização da mulher na música, atuando também há dois anos como embaixadora do WME - Woman Music Event.

Vida&Arte - Quando você começou a se interessar por música? Como aconteceu essa ponte entre a música e a gestão cultural?

Adriana Belic - A música sempre esteve presente em minha vida. Na infância, lembro que minha mãe e meu pai, Heleni Belic Cherubina e João Batista Cherubina, abriam nossa casa para realizar serenatas, quando morávamos em Jales, interior de São Paulo, além de nos proporcionarem a oportunidade de frequentar shows de nomes consagrados na música brasileira, como o MPB4 Quarteto, que ocorreu em 1978, no Teatro da PUC/SP em São Paulo. Na casa de meus avós maternos, ouvíamos discos de Bach, Beethoven, Chopin, Mozart, além de outras delícias como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Não faltavam, obviamente, os disquinhos coloridos de música infantil! Enfim, ao longo dos anos, essa semente plantada no ambiente familiar cresceu e me influenciou a ampliar o repertório, numa busca constante por novos gêneros musicais e artistas.

A transição entre ser apreciadora da arte musical para curadora e gestora cultural aconteceu num processo longo e sedimentado, iniciado em 1989, quando fui convidada ao final de um concerto erudito que assistia para integrar a equipe de um dos equipamentos da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Atualmente, a cultura e música estão tão presentes em minha vida que não consigo mais identificar quando, especificamente, comecei a me dedicar a essa área.

V&A - Entre 2015 e 2017, você atuou no Setorial de Música, do Conselho Nacional de Políticas Culturais/Ministério da Cultura, representando o Estado de São Paulo. Quais foram os seus maiores desafios?

Adriana - Naquele momento, ter sido eleita como representante do Estado de São Paulo no Setorial de Música já foi um enorme desafio, pois Ministério da Cultura não realizava a renovação de seu Conselho por meio de voto direto envolvendo personagens e representantes da área. Essa mudança se revelou um avanço, sob vários aspectos. Atuando em parceria com Daniela Ribas, grande amiga e estudiosa da música, buscamos implementar políticas públicas por meio de diálogos acerca das necessidades e barreiras a serem superadas para a consolidação do setor em nosso país, o que acabou sendo tolhido pela extinção do Ministério em maio 2017, em pleno exercício de nosso mandato.

V&A - Há anos que você integra diversas comissões do Programa de Ação Cultural - PROAC, no estado de São Paulo. Qual é a importância desse programa para a manutenção de atividades culturais no país e quais são os critérios essenciais na seleção dos projetos?

Adriana - Cabe dizer que a Lei do Programa de Apoio à Cultura, o ProAC, completa 15 anos! Foi criada em 2006, durante do Governo de José Serra (2004 -2008), tendo como inspiração a Lei Rouanet, sendo constituída por dois pilares fundamentais: o Edital e a Renúncia Fiscal. Estruturada com apoio da comunidade cultural, recebeu pleno apoio do parlamento paulista, sendo aprovada após a realização de duas audiências públicas, sem qualquer alteração na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A legislação que implementou o ProAC tornou-se um marco inquestionável em política pública cultural, por ampliar e democratizar o acesso ao palco. Da maneira como foi concebida, a legislação do PROAC equilibra as categorias de ação do estado, pois de um lado trata dos Editais que atendem majoritariamente aos setores mais frágeis, e por outro oferece incentivo fiscal ou renúncia fiscal para viabilizar setores mais organizados da cultura, que contam com apoio empresarial, numa conjugação de modalidades que fortalece a cultura e o próprio governo. No braço Edital, cada edital tem suas particularidades, critérios objetivos e legais a serem observados pelos integrantes de suas respectivas comissões. Quando sou convidada a integrar alguma comissão, além de seguir os critérios mencionados, procuro ser democrática, generosa e plural, visando a contribuir para a aplicação adequada dos recursos públicos.

V&A - Há mais de 25 anos, você atua na formulação de parcerias em projetos internacionais de arte e cultura, como o OnFITA 2020, festival de música que ocorre em paralelo com o FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo, em Portugal. Quais são os benefícios de se levar a produção artística brasileira para outros países?

Adriana - O economista Celso Furtado - um dos principais intelectuais brasileiros do Século XX - preconiza que "a política cultural que se limita a facilitar o consumo de bens culturais tende a ser inibitória de atividades criativas e a impor barreiras a inovação". Nesse sentido, acredito que as cooperações internacionais sejam uma das principais estratégias de legitimação de modelos de desenvolvimento sobretudo o criativo, artístico. Em termos simples, cooperar implica compartilhar propósitos entre dois ou mais setores, estabelecer relações, trocas e ações, na busca por benefícios mútuos. Levar a cultura brasileira a outros países significa permitir diálogos, propiciar que se estabeleça um processo virtuoso no qual diferentes eixos temáticos se interligam: cultura, cidadania, inovação e inclusão. É praticar o que se denomina "diplomacia cultural" de forma criativa, flexível e oportuna.

V&A - Como você lidou com os impactos da pandemia do Covid-19 em seu trabalho?

Adriana - Cabe relatar uma vivência inédita, o de estar fora do Brasil e precisar ser repatriada quando a pandemia do Covid 19 foi declarada pela OMS em 11 de março de 2020. Na ocasião, eu estava em Portugal realizando a curadoria do OnFita, mostra musical que acontece em paralelo à mostra teatral do FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo. As medidas adotadas em razão da pandemia, como o fechamento das fronteiras e cancelamentos de voos, me atingiram diretamente pois minha passagem de volta foi cancelada pela companhia aérea. Só pude retornar ao Brasil em meados de abril de 2020. Nesse período indefinido para todos e para o meu trabalho, foi fundamental o amparo e o apoio que recebi de Antonio Revez, diretor artístico da Cia Lendias d´Encantar e do FITA, e do Município de Beja/Alentejo (Portugal), pois me proporcionaram condições para seguir trabalhando à distância, participando de diálogos que buscaram saídas para a sobrevivência do setor, da agência e dos projetos em andamento. O cancelamento de todos os festivais e espetáculos presenciais causou um impacto tremendo em nossas vidas. Entretanto, desde o princípio, estava claro para mim que os artistas, os integrantes da agência e meus parceiros não deveriam interromper a criação. Nessa perspectiva, passamos a avaliar o cenário e agora, graças aos recursos da Lei Aldir Blanc, com inúmeras criações inéditas conseguimos retomar alguns projetos culturais, voltando a movimentar parte dessa imensa cadeia cultural brasileira.

V&A - Em novembro de 2020, ocorreu a primeira edição brasileira do Festival das Marias - Festival Internacional de Artes no Feminino, no formato online, trazendo discussões acerca de temas relacionados ao fazer artístico feminino. Você tem planos de realizar o evento novamente, este ano?

Adriana - Sim, em 2021 realizaremos a edição brasileira de forma ampliada, e será novamente uma alegria imensa! Os trabalhos que entregamos ao público em 2019, na edição portuguesa, e em 2020, na edição brasileira, foram uma semente que segue gerando frutos. No momento, estruturamos a programação da edição de 2021, para que seja representativa da arte feita por mulheres, em especial artistas brasileiras, além de firmarmos as parcerias sempre primordiais para a realização de eventos desse porte. Planejamos que as edições Brasil e Portugal sejam simultâneas, havendo um diferencial: as manifestações artísticas estão previstas para acontecer presencialmente em Portugal, e no ambiente digital no Brasil. Ambas servirão de palco para artistas, equipes de produção, filmagem e edição, que ficarão responsáveis pela realização de mais de 50 diferentes atividades culturais.

 

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