SÃO JOSÉ DO RIO PRETO | DOMINGO, 25 DE JULHO DE 2021
Literatura e cultura

Cultura em tempos de isolamento social

Patrícia Reis BuzziniPublicado em 06/03/2021 às 00:25Atualizado há 12/07/2021 às 10:58

Não é novidade que um dos setores mais afetados pela crise global decorrente da pandemia do Covid-19 seja o da Cultura. Espetáculos, shows musicais, festivais e eventos artísticos e culturais dos vários segmentos das artes foram cancelados e/ou adiados por tempo indeterminado. Artistas, produtores, empreendedores e todos os demais integrantes dessa enorme cadeia criativa perderam suas receitas, em razão da necessidade de isolamento social. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), estamos vivendo um período de "emergência cultural", considerando que muitos artistas estão lutando para manter condições básicas de sobrevivência. Outra vulnerabilidade apontada pela UNESCO é a fragilidade das estruturas de política cultural em diversos países, além da escassez de orçamentos para as pastas relacionadas a esse setor. Contudo, muitas pessoas ainda ignoram - e até mesmo negam - a importância da cultura como exercício de cidadania e de formação de identidades, ferramentas essenciais para a construção de sociedades mais pacíficas e resilientes.

No final de 2020, foram publicados os resultados de uma pesquisa realizada em todo o território nacional - com apoio da UNESCO no Brasil, SESC, USP, Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura e 13 Secretarias Estaduais de Cultura - sobre a percepção dos impactos da COVID-19 nos setores cultural e criativo do Brasil. Entre os meses de março e abril, 41% dos entrevistados declararam que perderam a totalidade de suas receitas, e entre maio e julho de 2020 essa proporção aumentou para 48,88%. As artes cênicas aparecem como o setor mais afetado, com perda total de receita em 63% dos casos. Sobre as expectativas para o segundo semestre de 2020 e início de 2021, merece destaque a projeção de crescimento do setor de tecnologias de informação e comunicação (TIC), que previu um aumento de até 50%. Entre as empresas e organizações, as medidas mais adotadas foram a redução de carga horária, seguida da redução salarial. No período de maio a julho de 2020, consta que 27,89% dos indivíduos obtiveram o auxílio emergencial de R$ 600,00. Contudo, além de auxílio financeiro, os participantes relatam que gostariam de obter mais informações direcionadas ao setor, participar de redes profissionais e obter apoio psicológico e/ou consultoria.

Com o objetivo de contribuir para o debate de ideias acerca do valor da cultura no momento atual, conversamos com Adriana Belic, experiente curadora, produtora e gestora cultural rio-pretense. Graduada na área de Ciências Humanas e especialista em Música e Negócios, também conta com pós-graduação em Gestão e Políticas Públicas pela Cátedra da Unesco, Universitat de Girona e Observatório Itaú Cultural. Na FIESP, Adriana integra o COSIC - Conselho Superior da Indústria Criativa e o Fórum Brasileiro pelos Direitos Culturais. É diretora técnica da agência Belic Arte.Cultura e da Belic Music, editora e gravadora musical. Desde 2018, participa do WIN Brasil, iniciativa de valorização da mulher na música, atuando também há dois anos como embaixadora do WME - Woman Music Event.

Vida&Arte - Quando você começou a se interessar por música? Como aconteceu essa ponte entre a música e a gestão cultural?

Adriana Belic - A música sempre esteve presente em minha vida. Na infância, lembro que minha mãe e meu pai, Heleni Belic Cherubina e João Batista Cherubina, abriam nossa casa para realizar serenatas, quando morávamos em Jales, interior de São Paulo, além de nos proporcionarem a oportunidade de frequentar shows de nomes consagrados na música brasileira, como o MPB4 Quarteto, que ocorreu em 1978, no Teatro da PUC/SP em São Paulo. Na casa de meus avós maternos, ouvíamos discos de Bach, Beethoven, Chopin, Mozart, além de outras delícias como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Não faltavam, obviamente, os disquinhos coloridos de música infantil! Enfim, ao longo dos anos, essa semente plantada no ambiente familiar cresceu e me influenciou a ampliar o repertório, numa busca constante por novos gêneros musicais e artistas.

A transição entre ser apreciadora da arte musical para curadora e gestora cultural aconteceu num processo longo e sedimentado, iniciado em 1989, quando fui convidada ao final de um concerto erudito que assistia para integrar a equipe de um dos equipamentos da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. Atualmente, a cultura e música estão tão presentes em minha vida que não consigo mais identificar quando, especificamente, comecei a me dedicar a essa área.

V&A - Entre 2015 e 2017, você atuou no Setorial de Música, do Conselho Nacional de Políticas Culturais/Ministério da Cultura, representando o Estado de São Paulo. Quais foram os seus maiores desafios?

Adriana - Naquele momento, ter sido eleita como representante do Estado de São Paulo no Setorial de Música já foi um enorme desafio, pois Ministério da Cultura não realizava a renovação de seu Conselho por meio de voto direto envolvendo personagens e representantes da área. Essa mudança se revelou um avanço, sob vários aspectos. Atuando em parceria com Daniela Ribas, grande amiga e estudiosa da música, buscamos implementar políticas públicas por meio de diálogos acerca das necessidades e barreiras a serem superadas para a consolidação do setor em nosso país, o que acabou sendo tolhido pela extinção do Ministério em maio 2017, em pleno exercício de nosso mandato.

V&A - Há anos que você integra diversas comissões do Programa de Ação Cultural - PROAC, no estado de São Paulo. Qual é a importância desse programa para a manutenção de atividades culturais no país e quais são os critérios essenciais na seleção dos projetos?

Adriana - Cabe dizer que a Lei do Programa de Apoio à Cultura, o ProAC, completa 15 anos! Foi criada em 2006, durante do Governo de José Serra (2004 -2008), tendo como inspiração a Lei Rouanet, sendo constituída por dois pilares fundamentais: o Edital e a Renúncia Fiscal. Estruturada com apoio da comunidade cultural, recebeu pleno apoio do parlamento paulista, sendo aprovada após a realização de duas audiências públicas, sem qualquer alteração na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. A legislação que implementou o ProAC tornou-se um marco inquestionável em política pública cultural, por ampliar e democratizar o acesso ao palco. Da maneira como foi concebida, a legislação do PROAC equilibra as categorias de ação do estado, pois de um lado trata dos Editais que atendem majoritariamente aos setores mais frágeis, e por outro oferece incentivo fiscal ou renúncia fiscal para viabilizar setores mais organizados da cultura, que contam com apoio empresarial, numa conjugação de modalidades que fortalece a cultura e o próprio governo. No braço Edital, cada edital tem suas particularidades, critérios objetivos e legais a serem observados pelos integrantes de suas respectivas comissões. Quando sou convidada a integrar alguma comissão, além de seguir os critérios mencionados, procuro ser democrática, generosa e plural, visando a contribuir para a aplicação adequada dos recursos públicos.

V&A - Há mais de 25 anos, você atua na formulação de parcerias em projetos internacionais de arte e cultura, como o OnFITA 2020, festival de música que ocorre em paralelo com o FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo, em Portugal. Quais são os benefícios de se levar a produção artística brasileira para outros países?

Adriana - O economista Celso Furtado - um dos principais intelectuais brasileiros do Século XX - preconiza que "a política cultural que se limita a facilitar o consumo de bens culturais tende a ser inibitória de atividades criativas e a impor barreiras a inovação". Nesse sentido, acredito que as cooperações internacionais sejam uma das principais estratégias de legitimação de modelos de desenvolvimento sobretudo o criativo, artístico. Em termos simples, cooperar implica compartilhar propósitos entre dois ou mais setores, estabelecer relações, trocas e ações, na busca por benefícios mútuos. Levar a cultura brasileira a outros países significa permitir diálogos, propiciar que se estabeleça um processo virtuoso no qual diferentes eixos temáticos se interligam: cultura, cidadania, inovação e inclusão. É praticar o que se denomina "diplomacia cultural" de forma criativa, flexível e oportuna.

V&A - Como você lidou com os impactos da pandemia do Covid-19 em seu trabalho?

Adriana - Cabe relatar uma vivência inédita, o de estar fora do Brasil e precisar ser repatriada quando a pandemia do Covid 19 foi declarada pela OMS em 11 de março de 2020. Na ocasião, eu estava em Portugal realizando a curadoria do OnFita, mostra musical que acontece em paralelo à mostra teatral do FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo. As medidas adotadas em razão da pandemia, como o fechamento das fronteiras e cancelamentos de voos, me atingiram diretamente pois minha passagem de volta foi cancelada pela companhia aérea. Só pude retornar ao Brasil em meados de abril de 2020. Nesse período indefinido para todos e para o meu trabalho, foi fundamental o amparo e o apoio que recebi de Antonio Revez, diretor artístico da Cia Lendias d´Encantar e do FITA, e do Município de Beja/Alentejo (Portugal), pois me proporcionaram condições para seguir trabalhando à distância, participando de diálogos que buscaram saídas para a sobrevivência do setor, da agência e dos projetos em andamento. O cancelamento de todos os festivais e espetáculos presenciais causou um impacto tremendo em nossas vidas. Entretanto, desde o princípio, estava claro para mim que os artistas, os integrantes da agência e meus parceiros não deveriam interromper a criação. Nessa perspectiva, passamos a avaliar o cenário e agora, graças aos recursos da Lei Aldir Blanc, com inúmeras criações inéditas conseguimos retomar alguns projetos culturais, voltando a movimentar parte dessa imensa cadeia cultural brasileira.

V&A - Em novembro de 2020, ocorreu a primeira edição brasileira do Festival das Marias - Festival Internacional de Artes no Feminino, no formato online, trazendo discussões acerca de temas relacionados ao fazer artístico feminino. Você tem planos de realizar o evento novamente, este ano?

Adriana - Sim, em 2021 realizaremos a edição brasileira de forma ampliada, e será novamente uma alegria imensa! Os trabalhos que entregamos ao público em 2019, na edição portuguesa, e em 2020, na edição brasileira, foram uma semente que segue gerando frutos. No momento, estruturamos a programação da edição de 2021, para que seja representativa da arte feita por mulheres, em especial artistas brasileiras, além de firmarmos as parcerias sempre primordiais para a realização de eventos desse porte. Planejamos que as edições Brasil e Portugal sejam simultâneas, havendo um diferencial: as manifestações artísticas estão previstas para acontecer presencialmente em Portugal, e no ambiente digital no Brasil. Ambas servirão de palco para artistas, equipes de produção, filmagem e edição, que ficarão responsáveis pela realização de mais de 50 diferentes atividades culturais.

Poesia e engajamento social

Patrícia Reis Buzzini  (Johnny Torres)

Patrícia Reis Buzzini (Johnny Torres)

A poesia está no ar, na sala de estar, na revista, nos noticiários, na música, no cinema, na literatura. Dá concretude ao abstrato, unidade ao diverso. Inventa o tempo, organiza o pensamento. Como afirma Octávio Paz, a poesia é revolucionária por natureza, um exercício espiritual, um método de libertação interior (O arco e a lira, 2012). Apesar das regras, encerra infinitas possibilidades. Consagra códigos linguísticos, desperta valores humanos. Atributos que se derretem ao calor de "Cratera antes da queda = Cráter antes de la caída", novo livro da escritora e etnolinguista Roselis Batistar. Professora universitária em Reims, na França, e filha do renomado jornalista paraibano Oduvaldo Batista - com quem realizou vários projetos editoriais - Roselis transita obstinadamente entre línguas indígenas, o português, o espanhol, o russo, o inglês e o francês. Nesta publicação, a autora apresenta poemas que falam, sobretudo, de liberdade, do universo feminino, da família e do meio ambiente. De acordo com o escritor e crítico literário João Adalberto Campato Jr, que assina o prefácio da obra, a poesia de Roselis compartilha recursos expressivos muito bem planejados como o emprego da linguagem metalinguística, a expressão vaga e sugestiva, o tom largamente meditativo, a ironia fina, e o jogo astuto com as sonoridades. Poemas que escorrem por fendas de uma realidade caótica e desordenada, contraindicados para olhos cartesianos. Em entrevista exclusiva para a revista Vida & Arte, a escritora fala mais sobre o lançamento de seu livro, a relação com o pai intelectual e a carreira profissional.

Vida & Arte - Você é filha do jornalista paraibano Oduvaldo Batista, que já residiu em Rio Preto e é reconhecido pela prodigiosa trajetória na imprensa e na defesa de causas sociais. Quais foram as influências dessa figura paterna em sua vida?

Roselis Batistar - Minha vida, sem dúvida, teria sido outra se eu não tivesse tido os pais sensatos, cultos e generosos que tive. Meu pai foi meu grande mentor e sempre me incentivou a criar, em qualquer área. Lembro-me que aos 12-13 anos, escreveu na 1ª página de meu álbum de lembranças: "continue estudando sempre e amando as artes". Esse conselho, hoje, soa profético aos meus ouvidos. Ele não precisava dizer, ele fazia. Eu e meu irmão aprendíamos que defender os indefesos era normal, que não ser racista também, que dar à filha mulher o mesmo que a um filho homem é o certo, que ele não precisava ser religioso para ser humano, - meu pai era ateu - que tinha amigos padres e amigos comunistas, e que, todos mereciam respeito. Ensinou-me, pelo exemplo, o amor à natureza, aos animais, à música, à leitura, ao alimento vegetal, à política, à História, ao conhecimento em geral. Ele tinha, claro, seus defeitos e frustrações; era teimoso, guloso, amava ou detestava. Passou pela ditadura inventando metáforas e hipérboles para sobreviver. Em São José do Rio Preto veio duas vezes, participou de meus "Encontros sobre Indigenismo" no IBILCE, e achou a secura do clima "engraçada". Conheceu alguns repórteres de O Diário da Região, que ele chamava de "focas", porque eram novatos no métier. Levava muito a sério o trabalho de jornalista, e achava que o caminho político e sócio econômico do Brasil em vias de uma justiça social seria longo e árduo. Oduvaldo Batista foi jornalista por mais de 60 anos. Até um mês antes de falecer ainda publicou. Nunca gozou de uma aposentadoria digna. O equivalente a ¾ de salário mínimo de hoje. Talvez tenha sido por isso que me incentivou a sair do país, o que fiz aos 19 anos.

V&A - Quando surgiu a oportunidade de trabalhar em Reims, na França? Você saberia identificar as principais diferenças entre o ensino superior brasileiro e o europeu?

Roselis - Eu era professora de língua francesa no IBILCE (UNESP) de Rio Preto na época e fazia pesquisa em Linguística Teórica e Aplicada, em Tradução, em Etnolinguística, em Discurso, em Civilização francófona, etc. Saí de lá porque me casei com um professor universitário da SORBONNE IV. Uma vez na França, terminei um mestrado em espanhol para, em seguida, matricular-me em outro doutorado, já que meu primeiro doutorado em Linguística não era tão "importante" para conseguir um trabalho. Há grandes diferenças tanto no ensino de línguas estrangeiras, e de Linguística e Literatura numa universidade francesa e numa brasileira. Entre as principais diferenças é que, na França, atribui-se muita atenção à escrita, à tradução e à versão como aprendizagem da sintaxe e do vocabulário na linguagem oral ou escrita da língua que se estuda. Não se treina muito o oral, e logo, a fonética é pouco estudada. Acho que o melhor método de ensino de línguas, de civilização e de literatura "implícita" ou "aplicada" - e desculpo-me pela pretensão - é o que eu criei através do cinema. Quanto aos cursos teóricos, chamados magistrais, e os cursos de tipo seminário, com menos estudantes, método utilizado na França e na Rússia, parece-me excelente. Além do mais, na França a graduação é somente de 3 anos; na Rússia, de 4, com muito mais horas de aulas, terminando, em geral às duas da tarde. No Brasil observei uma maior liberdade no ensino superior, em Goiânia, em São Paulo, em Rio Preto. O bom eram as aulas de língua serem quase diárias.

V&A - Qual é a sua concepção de poesia? Você acredita que o isolamento social pode favorecer a escrita literária?

Roselis - Poesia é a arte que se faz com a linguagem, com a fala. Nem todo mundo é versado em desenho, para chegar dele à pintura; nem todo mundo pode criar formas na madeira ou nas pedras e nem cogita nisso; Escultura? O mesmo se pode dizer da Música, pois criar com sons não é para qualquer um; e criar formas diferentes como os grandes arquitetos, que coisa difícil... mas a língua, isso todo mundo tem. Acredito na necessidade da arte para que um ser humano se sinta "accompli", completo. Como toda arte, a poesia tem suas regras, seu "universo" simbólico, e cria imaginariamente formas, canta melodias com as palavras, expressa um sentir que é único para o poeta, e ao mesmo tempo universal. Para mim, a poesia é o coletivo, é a variedade, é o arquétipo de vida. Não concebo a vida sem ela. Quando sinto o impulso, o "élan" do poema, e que não acho um pedaço de papel, a insatisfação me esgota, o stress me sucumbe, a infelicidade me consome. O isolamento sempre favoreceu a escrita, mas não acredito em isolamento se tenho a poesia comigo. A pandemia me sussurrou que eu devia ter um caderno e caneta à cabeceira de minha cama, para poder acordar no meio da noite e escrever o poema que estava ali, entre o dormir e o acordar. Então componho.

V&A - Como surgiu a oportunidade de participar na Antologia Elos da Língua Portuguesa, idealizada por João Paulo Vani e Samira Camargo? Qual é a importância de projetos voltados à divulgação e valorização da leitura no Brasil?

Roselis - Foi Telma, a minha cabeleireira sagaz e inteligente - que eu já conhecia de outra conferência que dei anos atrás em Rio Preto - quem me falou que tinha uma amiga escritora que ia à Suíça receber um prêmio, e que ela também ia. Claro que me interessei. Foi assim que a conheci. Samira Aparecida Camargo aproximou-se de mim, pôs as mãos nas minhas costas e com o sorriso sincero e amigável que a caracteriza, perguntou: Você que é a Roselis? Foi assim que tudo teve início. Agradeço a ela minha inserção no mundo cultural de Rio Preto, a ela o fato de ter-me apresentado ao editor E. Zanetti, da Editora Ponto Z. Projetos como Elos da Língua Portuguesa são necessários em todo o país, pois implica leitura, valorização dessa arma que todos temos, a língua portuguesa, uns mais, outros menos, aí entra a pedagoga e alerta: " Não é só no Brasil que se fala português". Incentivo à educação? Também.

V&A - Você acaba de lançar um novo livro de poemas, "Cratera antes da queda = Cráter antes de la caída", pela Editora Ponto Z. Como surgiu esse projeto? Selecione um poema para compartilhar com nossos leitores.

Roselis - O título se põe por último - dizia meu pai. Havia uma ideia no ar, fruto de um ar que vinha da sociedade onde estamos inseridos. E quase sempre foi assim com todos os meus livros. Pode ser que algo já rondava por perto, mas o que definiria em poucas palavras o que eu estava criando, não era o mais importante, e sim o que eu estava passando, bem ou mal. Do que "Cratera antes da queda..." não fala, pois nem a MORTE escapa? Esse livro é um grito abafado, pois se eu o solto completamente, posso cair. Pelo sim pelo não, repasso a vida que era bem melhor antes, apesar de...e queremos evitar a queda, a morte antes da hora, o feio do nosso país. "Hay que luchar". Cratera é uma consciência acordada que vive com insônia, que clama por arte, justiça e liberdade. Como? Se soubesse não teria concebido o poético no trágico! Mas a poesia se dá, com cratera ou não, e serve de alerta melodioso e artístico.

A BOLHA

Roselis Batistar

A bolha reluzente resistia

Saiu da banheira e ganhou o seu quarto

Como quem procura um farto repasto

Para resolver explodir de emoção.

A bolha crescia como se alguma magia a impulsasse

Como se o pensamento da dama

Ao sair da cama d'água

Resvalasse toda a mágoa para o ralo da banheira;

E faceira ela pensava:

_ "Estás crescendo com minh'alma

Que já não guarda mais a ânsia de gritar

Que vê estrelas deslizando no sabão"...

Mas a bolha escutou seu grito!

E explodiu como num rito.

Achou ela então o que a matava:

Só um enorme coração!

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