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O mito de Penélope revisitado na poesia de Mônica de Aquino

Patrícia Reis Buzzini - 06/02/2021 00:30

Os mitos são relatos fantásticos, transmitidos de geração em geração, que nos ajudam a compreender as origens de determinado fenômeno e/ou aspectos gerais da condição humana. A história de Ulisses e Penélope encontra-se registrada na Odisseia, um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, atribuído ao ilustre poeta Homero. Nesta obra, consta que Ulisses, rei de Ítaca, participou da guerra de Tróia e teve uma vida cheia de aventuras. Enquanto Ulisses se ausenta de casa, Penélope — sua bela e astuciosa esposa — é importunada por inúmeros pretendentes, os quais são "entretidos" com a promessa de aguardarem o dia em que ela acabaria de tecer uma tela para o funeral de seu sogro Laertes. Contudo, a mortalha era desfeita todas as noites, até Penélope ter certeza de que seu marido estaria vivo e prestes a regressar. Assim surgiu a famosa expressão "Tela de Penélope", usada para designar alguma coisa interminável. De acordo com a crítica, o mito de Penélope também faz referência à ideia de fidelidade, esperança, paciência, criação e reinvenção em face das adversidades da vida.

Em Fundo falso (2018), a poeta Mônica de Aquino (Belo Horizonte, 1979) recorre à mitologia grega e à história de Penélope para tecer um corpo poético carregado de vivências e sentidos intimamente ligados ao universo feminino. Como assinala o poeta Edimilson de Almeida Pereira na segunda versão deste premiado livro, "Mônica de Aquino elege a linguagem como o cerne dos poemas, considerando-a como uma força capaz de sobreviver à impermanência dos fatos". A obra é dividida em sete partes, com base em diferentes temáticas: "A memória das mãos", "A dor como método", "Água-forte", "Quarto de espelhos", "Corpo sem pausa", "O efeito da quebra" e "Matéria bruta". Em cada parte, somos apresentados a poemas aparentemente simples e concisos que constroem o estilo singular da autora. Além de Fundo falso, Mônica conta com a publicação de Sístole (2005), Continuar a nascer (2019), Linha, labirinto (2020) e seis livros infanto-juvenis. Na entrevista a seguir, a escritora fala mais sobre o processo de composição literária e a recepção de suas obras.

Vida&Arte - Quando foi seu primeiro encontro com o mito de Penélope e como ele influenciou o processo criativo dos poemas de Fundo falso (2018)?

Mônica de Aquino - Não saberia precisar, já que a personagem e seu mais famoso ardil (tecer e destecer o sudário do sogro Laertes para evitar um novo casamento) já se misturou até mesmo à cultura de massa, com a farsa da tessitura sendo retomada em filmes e novelas. Penélope talvez seja a grande personagem arquetípica feminina na literatura, reinventada, desfeita e refeita por tantos escritores, de James Joyce, em Ulysses, a Margaret Atwood, Orides Fontela, Adília Lopes e vários poetas contemporâneos. A série, em Fundo Falso, nasceu do desejo de fazer parte dessa escrita infinita e propor, também, outros pontos de vista a partir da personagem. A ideia que começou despretensiosa acabou se tornando minha série mais longa até hoje, tornando-se um poderoso artifício para abordar a representação do feminino a partir de questões atuais, escolha que agora se desdobra e se multiplica também no meu novo livro, Linha, labirinto (Edições Macondo, 2020).

V&A - Neste livro, percebe-se um estilo semelhante à chamada "poética da concisão", reverenciada por poetas como Friedrich Hölderlin, Edgar Allan Poe e José Paulo Paes. Quais são os pilares que sustentam a sua escrita?

Mônica - Em Fundo Falso, na verdade, já começo a mesclar essa concisão (muito presente em Sístole, meu livro de estreia) com mais narratividade, como na própria série das Penélopes e também na segunda parte, que aborda memórias de infância. Porque busco não escolher pilares fixos: a concisão de poetas como Orides Fontela permanecem como uma importante referência, a que sempre volto, mas quero também no meu trabalho a exploração da forma, testando a linguagem e suas possibilidades. Neste momento, por exemplo, me interessam muito os poetas que dão um passo em direção à prosa e ao ensaio, e tenho experimentado poemas mais longos, com diferentes quebras e estruturas. Outra técnica que aparece muito nos meus trabalhos recentes é a incorporação de versos alheios ou mesmo de trechos de filmes e músicas ou até de propagandas e e-mails banais, e ainda a intersecção com as artes plásticas. Então, acho que poderia dizer que a experimentação formal tem se tornado um pilar. A observação de pequenas coisas do cotidiano (o chamado infraordinário) é mais um pilar importante agora, além do diálogo, no texto, com outros escritores e artistas.

V&A - Como foi a sua trajetória como escritora? Qual é a relação entre a poesia e a literatura infanto-juvenil?

Mônica - Quando era criança um dos meus prazeres já era inventar histórias e desde a alfabetização a poesia foi ocupando um lugar especial nesse encantamento. Claro que escrever e fazer versos é passatempo de muitas crianças que não necessariamente vão se tornar escritores. Mas a relação próxima com a palavra escrita (e já com certa percepção intuitiva da grande capacidade de concentração de sentidos nos poemas) me acompanhou na adolescência, até que ali por volta dos 19 anos resolvi assumir mais claramente essa vocação e comecei a pesquisar meus contemporâneos, e nesse percurso a conhecer interlocutores e a começar a entender - e inventar - o meu possível lugar na literatura.

Meu primeiro livro, Sístole, foi publicado em 2005 pela Editora Bem-te-vi. Passei, depois, muitos anos sem lançar outro livro de poemas, mas não sem escrever. Em 2018 retomo a publicação de poesia, e de lá para cá já são três livros: Fundo Falso, Continuar a nascer (os dois da Relicário Edições, em 2018 e 2019) e Linha, labirinto (Edições Macondo, 2020). A literatura infantil nasceu nesse longo intervalo, depois de um trabalho de reescrita de duas histórias para um livro didático, o que ampliou um desejo que já existia, mas era difuso. Li muita literatura infantil e juvenil nesse período e publiquei cinco livros infantis, todos da Editora Miguilim. É também como poeta que procuro escrever para crianças, buscando criar nesses textos um ritmo interessante, relações e imagens inusitadas.

V&A - Você considera que a mulher já conquistou o seu espaço na cena literária brasileira?

Mônica - Acho que tivemos muitas conquistas nos últimos anos, mas seria difícil responder afirmativamente a essa pergunta, quando até mesmo vários dos nossos direitos civis foram reconhecidos tão recentemente, e quando ainda há tanto para se concretizar. Sabemos que continuamos sob a influência de uma forte cultura patriarcal e que ainda há muito espaço a conquistar ou inventar não só na literatura, mas nas mais diversas áreas da sociedade; a situação é dinâmica e movediça e é importante que estejamos sempre atentos, o que vale também as outras lutas de minorias e grupos historicamente marginalizados, ou dito de outro modo: mesmo com tudo que também há para se comemorar em relação à literatura feita por mulheres, ainda precisamos continuar nos fazendo essa pergunta.

V&A - Devido às restrições impostas pela pandemia do Covid-19, muitos festivais e feiras literárias foram suspensos ou realizados no formato digital. Quais foram os impactos dessas mudanças na produção e recepção de suas obras?

Mônica - Fazem muita falta os lançamentos presenciais, os eventos e trocas, os debates que colocam a obra em movimento. Acredito que pandemia prejudicou a recepção de Continuar a nascer, lançado no fim de 2019. Parte dos lançamentos aconteceria em 2020, eu já estava pesquisando passagens para um evento em Curitiba, por exemplo, quando foi decretada a emergência sanitária. O clima geral do país e do mundo, todo o sofrimento e medo, também mudam nosso foco para o que está mais imediato, e eu que já tenho uma tendência a certo recolhimento acabei sumindo ainda mais das redes e enviando o livro para menos pessoas do que gostaria. Mesmo assim, resolvi lançar Linha, labirinto de novo em um fim de ano e neste cenário adverso, porque já queria colocar em circulação um livro que tem relação direta com Fundo Falso, de 2018, sem distanciá-los tanto no tempo - e também porque não sabemos quanto ainda esse distanciamento social vai durar e o melhor é seguir publicando, mas sei dos prejuízos. Por outro lado, 2020 acabou sendo um ano em que escrevi muitos poemas, participei de oficinas, passei em um doutorado em escrita criativa - um ano muito produtivo, apesar de tudo e também como uma forma de reação, de me manter de pé, de gerar alguma alegria.

V&A - Em sua publicação mais recente, Linha, labirinto (2020), você convida outros autores a refletirem sobre o mito de Penélope. Como foi esse trabalho?

Mônica - Mesmo antes de publicar Fundo Falso, eu já tinha o desejo de separar a série feita a partir da Penélope em uma pequena publicação, talvez uma plaquete com edição artesanal que remetesse à costura. Um tempo depois de publicar o livro, retomei a ideia que cresceu para o desejo de junto aos meus poemas, publicar no mesmo livro, também, poemas de poetas contemporâneos brasileiros que admiro, escritos a partir do mito ou que de alguma forma dialogam com ele. O projeto foi ganhando corpo enquanto eu escrevia novos poemas, retomava os de Fundo Falso com novos títulos e em outra sequência, selecionava os poemas alheios e convidava alguns poetas para também fazerem parte da trama.

Fiz a seleção a partir das minhas leituras e afinidades, tendo sempre em mente que queria um material diversificado, que fosse mais do que uma recolha ou antologia de "Penélopes": o núcleo, mais do que a personagem em si, foi o que ela representa, certa relação com o tempo, a própria materialidade do trabalho manual quando me volto, por exemplo, para os processos criativos das duas artistas plásticas escolhidas, Julia Panadés e Edith Derdyk. Abro, inclusive, para outros personagens, míticos e históricos, como Filomela, da mitologia grega (no poema da Patrícia Lavelle), a escritora Agota Kristof (em um dos poemas da Prisca Agustoni) e João Cândido, líder da Revolta da Chibata (no poema da Lu Menezes), além de Ariadne, com um poema meu e também no próprio título do livro. Para a última parte, escrevi um poema a partir de outra Penélope, a Molly Bloom de Ulysses do James Joyce.

V&A - Você poderia escolher um poema de Fundo falso (2018) para compartilhar com nossos leitores?

Mônica - Apesar de ter falado aqui mais de uma vez sobre as Penélopes, ou exatamente por isso, escolhi esse trecho de um poema de outra parte do livro, sem título.

*

O fósforo brilha por sete segundos

entre o corpo inofensivo e o incêndio

até que um sopro encerra a potência

poderia espalhar o fogo

decidir a cada risco:

acendo uma caixa inteira, teste

e controle, calculo:

já sei o tempo do fogo, fecho os olhos

cinco segundos, o sopro, sinto a fagulha

nos dedos, acendo outro, ainda de olhos fechados

o calor me fala da luz que não vejo

apenas um fósforo, abro a torneira,

a água do mundo poderia escorrer aqui

de onde vem, o que traz

a água constante, o fogo efêmero,

este duplo exercício no meio da tarde

Deus pensando novos princípios

a mesma dúvida: fogo para Sodoma,

água para o dilúvio,

a única regra comum é não olhar para trás.

 

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