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Capital Inicial 'rejuvenesce' todos os dias

Francine Moreno - 06/02/2021 00:17

Neste sábado, 6, a banda Capital Inicial vive um importante momento em quase quatro décadas de carreira. Dinho Ouro Preto, Fê Lemos, Flávio Lemos e Yves Passarell relembram os sucessos da trajetória e anima o público ao som do rock, a partir das 21h, na Jeunesse Arena, no Rio de Janeiro. A apresentação exclusiva marca o retorno gradual do grupo de rock nacional aos palcos após longos meses sem shows com público devido a pandemia do novo coronavírus.

O repertório, do grupo formado nos anos 1980, promete hits lançados nos últimos 20 anos. Acompanhados de Fabiano Carelli (guitarra) e Robledo Silva (teclados), os artistas irão cantar faixas como "Olhos Vermelhos", "Natasha", "A Sua Maneira" e "Primeiros Erros". Para garantir a segurança do público, a casa de shows seguirá rigorosamente as recomendações de segurança das autoridades sanitárias.

Antes deste show, o grupo promoveu lives e também fez uma apresentação ao vivo recentemente, em São Paulo, no Espaço das Américas. A Capital Inicial também comandou um show online no dia 31 de dezembro para celebrar o réveillon em Manaus. "Depois de ter um ano parado, a gente teve cerca de 10 dias com bastante movimentação no final do ano", revela Fê Lemos, baterista e compositor da Capital Inicial e fundador do Aborto Elétrico ao lado de Renato Russo.

Apesar de ficar longe dos palcos, a banda não parou nas redes sociais e no estúdio. Durante o isolamento social, o grupo resolveu movimentar suas redes sociais e para isso criou uma espécie de batalha de músicas "lado B" da carreira. Foram 16 canções que participaram dessa brincadeira entre o grupo e seus mais fiéis fãs, que escolheram a música "Incondicionalmente" para ser lançada em dezembro.

"Incondicionalmente" também vem acompanhada de vídeo p&b, que mostra Dinho Ouro Preto, Fê Lemos, Flávio Lemos e Yves Passarell acompanhados de Fabiano Carelli, interpretando a música. A direção é de Batman Zavareze. "Incondicionalmente", que está disponível em todas as plataformas digitais, é o primeiro fonograma que sai pelo novo selo da banda, o Capital Inicial Music.

Neste ano atípico, em que os artistas tiveram que se reinventar, Fê Lemos conta que a maior dificuldade da banda foi ter que lidar com a ansiedade que veio a partir da constatação de que o grupo não faria shows durante um longo período e quais seriam as consequências disso para o relacionamento com fãs e com a continuação da carreira. "A gente precisou suspender um projeto que seria a gravação de um disco ao vivo e não sabíamos como isso iria impactar os próximos anos da nossa carreira."

Confira a entrevista com Fê Lemos sobre a banda Capital Inicial.

V&A - Vocês voltaram a fazer shows com público, seguindo todos os protocolos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Me fale um pouco sobre este retorno.

Fê Lemos - Fizemos um show em dezembro em São Paulo, no Espaço das Américas, com a plateia sentada e menor que a casa normalmente comporta. Foi muito bom tocar e ver que os fãs continuam com a gente. Foi uma noite emotiva e acredito que, da mesma forma que a gente sentiu falta, o público também sentiu falta. Antes da pandemia, era um contato praticamente semanal, durante os últimos 20 anos. Então, isso foi uma ruptura difícil, que gerou muita ansiedade. Mas foi bom ver todo mundo com a gente novamente.

V&A - Qual foi e está sendo o papel das redes sociais e o canal do Youtube na rotina de vocês durante a quarentena?

Fê Lemos - Tem tido um papel fundamental. Nós temos postados frequentemente reportagens, entrevistas e vídeos sobre as histórias das músicas no nosso canal do Youtube. Cada um contribuiu com algo da vida pessoal para manter o interesse dos fãs nas nossas redes sociais. A gente continua ativo, postando semanalmente fotos e curiosidades sobre nossas vidas. Não tem como imaginar uma carreira artística sem uma presença constante e forte nas redes sociais.

V&A - Quais são os planos de vocês para 2021?

Fê Lemos - Os planos são retomar os ensaios a partir deste mês e fazer gravação do CD 'Acústico 2.0' em março, contando já com a vacina contra o coronavírus e com a diminuição da pandemia, claro.

V&A - Você e os demais integrantes da banda são muito amados pelos fãs. Me fale um pouco sobre a sua relação com seus seguidores. Deixe um recado para eles.

Fê Lemos - Bem, os fãs são a razão da existência da Capital. A gente deve tudo a eles. Se eles não gostassem das nossas músicas e de ir aos shows, a banda teria acabado há muito tempo. Então, nós temos uma gratidão eterna com os fãs. A gente trata os fãs de forma muito pessoal. Alguns se tornaram amigos. É uma questão de honra da banda sempre recebê-los e também os fãs clubes. A Capital Inicial tem o camarim 2, que é um camarim onde os fãs têm acesso facilitado. A gente espera voltar para a estrada e voltar a rever nossos velhos amigos.

V&A - Você já fez muitos shows em Rio Preto e região. Lembra de alguma experiência bacana ou alguma curiosidade que passou por aqui?

Fê Lemos - Eu adoro Rio Preto. Para mim, a cidade é a mais legal do interior de São Paulo. Eu tenho um amigo muito bacana chamado Júlio Monstro. Já fui DJ em Rio Preto em duas ocasiões. Ele tem um clube de amigos, tipo uma confraria, e ele me convidou para discotecar. Infelizmente, agora, eu não recordo os nomes dos locais, mas foram dois bares bacanas e eu fui como DJ convidado. Eu tenho uma relação afetiva com Rio Preto e o Júlio Monstro é um grande amigo. O Claudius Silva, fotógrafo, também. Ele fez fotos bacanas minhas da última vez que estive aí. Rio Preto é um lugar onde eu me sinto em casa.

V&A - Com 38 anos de carreira, a banda Capital Inicial se mantém forte no mercado do rock nacional. Existe uma receita? Pode compartilhar o "segredo" com outros jovens artistas que têm vocês como exemplo?

Fê Lemos - O maior exemplo é a seriedade no trabalho, procurar sempre fazer o melhor. Nosso segredo é tentar sempre levar o melhor show possível para qualquer praça que a gente vá. O grupo sempre entregou o melhor show não importando se era um lugar para mil pessoas ou um festival para 100 mil pessoas. Tem ainda a importância de se manter criativo e não ficar vivendo só do passado, por mais glorioso que ele seja. É importante ter uma relação boa com seu passado, sempre tocar músicas importantes da sua carreira, músicas que marcaram gerações, mas é importante você sempre pesquisar, buscar e trazer algo novo. Manter uma produção de músicas constante e ter humildade, principalmente respeitar os fãs e as pessoas com quem você trabalha e basicamente se divertir. É um prazer de tocar música, estar com as pessoas. Se a música for algo verdadeiro dentro de você, ela vai te acompanhar a vida inteira, mesmo que tenha sucesso ou não. O fato de ter a música dentro de você já é algo que por si só é a maior recompensa que o músico pode ter.

V&A - Que análise vocês fazem do cenário atual do rock nacional? Tem alguma banda que gostam e escutam?

Fê Lemos - O rock nacional não vive o melhor momento. Tem uma geração nova que não conhece as bandas dos anos 80, não conhece o nosso repertório, por exemplo. O rock já divide atenção com vários outros ritmos e estilos, não preciso nem citar o sertanejo, o funk e o agora o trap e tantos outros estilos. O rock teve um predominância nos anos 80 e ele foi gradativamente encontrando um nicho de mercado menor e hoje não são todas as rádios que tocam rock. Houve também um envelhecimento, claro e natural, da minha geração, e houve também tragédias. Perdemos grandes pessoas dentro rock, talvez as cabeças mais importantes como Chorão, Renato Russo, Cazuza, Cassia Eller, Chico Science e Marcelo Fromer. Perdemos muita gente e essas pessoas fazem uma falta incrível. Eles talvez estariam dando uma direção para o rock brasileiro no século 21 e seriam um exemplo. Enfim, ficamos sem a arte destas pessoas e isso foi um tiro terrível. Mas, eu vejo, que têm valores muito bons ainda. A Pitty lançou um disco ao vivo recente que é excelente. Existe uma novíssima geração que mescla a influência da MPB com rock. Gosto muito da Ceú, da Iza e do Emicida. Vejo que a renovação ocorre e, apesar de tudo, eu tenho um boa expectativa para os próximos anos e acredito que o rock já faz parte da cultura brasileira e da vida de milhões de brasileiros, de jovens que querem algo diferente da mesmice, que querem contestar e ouvir músicas que falem de outras coisas, e que falem além de dor de cotovelo e sofrência. Acredito que existe espaço para o rock, mas o rock precisa se reinventar e precisa unir forças em festivais, por exemplo.

V&A - Durante a quarentena vocês conseguiram produzir algo especial que com a rotina movimentada dos shows nunca conseguiram fazer por causa da falta de tempo?

Fê Lemos - Eu consegui trabalhar na produção do meu terceiro disco solo, o meu projeto 'Hotel Básico '. Estou associado à uma cantora chamada Mel Ravasio, que juntos acabamos de lançar o nosso primeiro single 'Quanto Mais Eu Vejo'. Ao ter esse tempo livre, eu pude passar mais horas dentro do estúdio e trabalhar na produção e finalização deste disco que deve sair agora em 2021.

V&A - O ano passado foi um ano atípico, em que os artistas tiveram que se reinventar. Qual foi seu maior aprendizado?

Fê Lemos - O meu maior aprendizado, curiosamente, foi jogar tênis. Com o tempo livre, eu viajei para fora de São Paulo e fui passar uma temporada em Itaipava, na casa da minha namorada, e no condomínio eu joguei muito tênis com um amigo meu. Praticamente todos os dias a gente jogava tênis e isso foi algo inesperado. Eu vinha treinando há vários anos, mas não tinha tido a oportunidade de jogar constantemente. Foi algo bom que a quarentena me trouxe.

 

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