Grupo Diário da Região   | quinta-feira, 21 de janeiro
IMG-LOGO
Home Cultura

Transmutações poéticas na obra de Guilherme Gontijo Flores

Patrícia Reis Buzzini - 09/01/2021 00:30

Graças à globalização, a poesia contemporânea brasileira assimilou paradigmas e formas poéticas cada vez mais híbridas e interligadas às linguagens midiáticas. Na tentativa de integração das partes, observa-se a prevalência de poemas autocentrados, excessivamente focados na tematização sentimental. De acordo com o teórico anglo-indiano Homi Bhabha, o poeta contemporâneo encontra-se numa espécie de "entre-lugar", espaço estético em que é livre para ressignificar o imaginário que o impulsiona. Nessa perspectiva, eis que surge um poeta que ousou percorrer um caminho (aparentemente) inusitado, buscando matéria-prima na antiguidade clássica para grande parte de suas criações literárias. Natural de Brasília, Guilherme Gontijo Flores destaca-se também como tradutor e professor universitário de Latim, o que já explica alguma coisa. Considerado um dos poetas mais prolíficos e talentosos da atualidade, publicou uma tetralogia de obras líricas intitulada "Todos os nomes que talvez tivéssemos" (2013 - 2017) e traduziu obras monumentais como "A anatomia da melancolia", de Robert Burton - que lhe rendeu o Prêmio Jabuti em 2014 - e "Fragmentos Completos" da poeta grega Safo, que recebeu o prêmio de melhor tradução de 2017 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Em 2018, Guilherme publicou "carvão :: capim", coletânea poética organizada em quatro partes, articuladas por dois poemas centrais: Sator e Rotas. De acordo com a crítica, esses poemas parecem sugerir um diálogo com a gravura "Melancolia"(1514), do artista renascentista alemão Albrecht Dürer, na medida em que o poema Sator faz alusão ao famoso quadrado mágico retratado no desenho, e o poema Rotas resgata o jogo entre luz e sombra. Além disso, temas relacionados ao deus romano Saturno, vinculado à ideia de abundância, renovação periódica e morte, também permeiam as subjetividades desta instigante obra literária. Na opinião da escritora Júlia Hansen, "a poética de Guilherme Gontijo Flores se inscreve no compromisso de atuar a tradição, dando voz e corpo no presente a questões ancestrais". A primeira parte, que leva o nome de "Petrografia esparsa", abarca poemas de cunho social que nos remetem as inúmeras mortes "sem sentido" que, inevitavelmente, marcam a vida das pessoas. Nos poemas incluídos em "História dos animais", percebe-se momentos de contemplação da natureza e de busca de conexões entre animais e seres humanos. Em "Quatro cantatas fúnebres", somos apresentados a poemas de cunho político, que homenageiam personalidades como a guerrilheira Dinalva Oliveira e o poeta salvadorenho Roque Dalton. Por fim, na última parte do livro, chamada "Lo ferm voler" (em referência ao trovador provençal Arnaut Daniel), encontramos poemas que ressaltam os sabores da vida, a necessidade de reinvenção do mar, apesar de seus inevitáveis turbilhões, enxurradas e transbordamentos. É um novo referencial para leitores e apreciadores de poesia!

Em entrevista exclusiva, Guilherme Gontijo Flores fala mais sobre a sua relação com a poesia, tradução e literatura.

Vida & Arte - Qual é a importância do latim nos dias atuais? Quando você começou a se interessar por obras da antiguidade clássica?

Guilherme Gontijo Flores - O latim, a meu ver, permanece como uma das muitas línguas da diferença, que podem ser estudadas no presente. Historicamente, a cultura romana foi muitas vezes tomada para justificar atrocidades, mas penso que agora podemos voltar ao latim como fonte de estranhamentos, como um aprendizado daquilo que nos perturba ali, sem o vincular a um conservadorismo, no mais das vezes, hipócrita e destrutivo.

Eu comecei a estudar latim como língua obrigatória no curso de Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. Sempre tive algum interesse pelo assunto, até para ter uma visão diacrônica do português; porém, quando tive a chance de ler um poema de Catulo direto no original, realmente me apaixonei e decidi que precisava conhecer a língua a fundo; mais ainda, decidi que precisava traduzir obras da poesia latina. É o que venho fazendo há cerca de quinze anos.

V&A - Como tradutor, quais são os desafios de se transpor a lira do passado (fortemente atrelada a padrões de oralidade) com base em critérios de poeticidade do presente?

Guilherme - Eu diria que o maior desafio é apostar mesmo nessa oralidade do presente como modo de pensar o passado. Em geral, as traduções de literatura antiga são feitas num linguajar duro, por vezes muito acadêmico, com pendor para o arcaísmo, sem considerar que essas literaturas eram, por vezes, muito vivas. Quando traduzo hoje a poesia de dois mil anos atrás, quero que ela seja poesia hoje, por isso busco um convívio no anacronismo, quero ser anacrônico para dar a vertigem do tempo que passa por meio das traduções.

V&A - Você tem um grupo de performance de textos antigos gregos e latinos chamado Pecora Loca. Como surgiu essa ideia?

Guilherme - Ela veio do convívio com o colega e amigo Rodrigo Gonçalves e uma série de alunos e alunas, todos com o desejo de criar no corpo a poesia do passado. Primeiro tentamos como teatro, mas faltava um saber teatral eficiente, aí migramos pra música, que, apesar de amadora, funciona bem para os nossos interesses. Pra mim, essa experiência mudou completamente meu modo de pensar tradução e poesia como um todo, tanto que eu e o Rodrigo acabamos escrevendo um livro teórico, uma espécie de duplo livresco da Pecora Loca, chamado Algo infiel.

V&A - No ano passado, você lançou o seu primeiro romance "História de Jóia" (2019). Como foi essa transição da poesia para a prosa?

Guilherme - Não vejo como transição. É, na verdade, uma narrativa com um peso na linguagem muito similar ao que chamamos de poesia. Eu diria que saiu como prosa, visualmente, porque a prosa era o caminho pra realizar esse poema especificamente.

V&A - Assim como o título, "carvão :: capim" (2018) nos apresenta poemas que abarcam uma série de elementos vagos e contraditórios, como se fossem, de certa forma, uma metáfora para a própria vida. Se você pudesse escolher um poema desse livro, qual seria?

Guilherme - Não gosto de explicar as simbologias dos meus poemas e livros, até para não controlar demais a vida deles. Aqui vai um poema:

Como na troca de cartas

que não chegam ao destino

algo no corpo escapa & volta

além dos selos quase asa

em pleno voo em pluma falsa

ou salamandra ardendo

sobre o manto branco

das geadas algo no corpo

salta & nega & assim sela

essa cavalgadura inominada

em beco estreito

ou como um dedo

prestidigitador do acaso

reaparece pela mata

em pisco de vaga-lumes

faísca sobre pedras

algo no corpo estala

a madeira dos galhos

se rompendo na noite

desprovida de ventos

vida explode em tudo

que é sagrado algo resvala

e vela seu vazio anunciado

algo no corpo espera

 

Editorias:
Cultura
Compartilhe: