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O legado dos mestres

Patrícia Reis Buzzini - 05/12/2020 00:25

Em setembro, foi publicada a 5ª. Edição da pesquisa "Retratos da leitura no Brasil", pelo Instituto Pró-Livro e Itaú Cultural, que tem como objetivo identificar os hábitos dos brasileiros em relação à Literatura. Dentre as informações mais relevantes, consta que professores, mães e pais continuam sendo os principais responsáveis pelo estímulo da leitura, apesar do crescente poder de atração exercido por youtubers e influenciadores digitais em meio ao público infantil e juvenil. Quem tem filhos em idade escolar sabe bem o que estou falando. Contudo, pode-se inferir que, quando se trata de assuntos mais sérios como Educação, confiança e autoridade falam mais alto nas preferências dos leitores. Por esse motivo, selecionei um livro que tem como tema a arte de ensinar e de aprender: "Lições dos Mestres" (2018), de George Steiner, renomado escritor, crítico literário e professor emérito da Universidade de Cambridge.

Com mais de meio século de experiência docente, Steiner aborda a legitimidade da profissão do professor e alguns pressupostos que lhe são subjacentes. Baseado em conferências proferidas na Universidade de Harvard, o livro divide-se em seis capítulos e retoma o legado dos mais consagrados e cultuados mestres da história da humanidade. Ao discorrer sobre a relação entre mestres e discípulos, o autor identifica três principais estruturas: 1) mestres que destroem seus discípulos, psicologicamente e, em casos mais raros, fisicamente; 2) discípulos que derrubam, traem e arruínam seus mestres; e, por fim, 3) relações de troca entre mestres e seus discípulos, permeadas por um Eros de confiança recíproca. Nesta narrativa profunda e instigante, somos apresentados a dialéticas seminais, encontros e desencontros que evidenciam a complexidade e os desafios da práxis pedagógica.

Desde a antiguidade, Steiner conta que o magistério é visto como uma espécie de sacerdócio, chamamento ou convocação. Mestres como Pitágoras, Sócrates e Jesus destacaram-se, principalmente, por terem sido oradores carismáticos e conscientes da magnitude da palavra, portadora de verdades que aprimoram a vida. Muitos deles estimulavam não apenas a discussão cosmológica, metafísica e lógica, como também a arte, a música e a poesia. Textos de Platão e de Aristóteles são esmiuçados até hoje. Apesar de tudo, o autor adverte que esse tipo de conexão entre mestre e discípulo apresenta perigos proporcionais aos júbilos:

Ensinar seriamente é pôr as mãos no que há de mais vital no ser humano. É tentar ter acesso ao que há de mais sensível e de mais íntimo da integridade de uma criança ou de um adulto. Um Mestre invade, força a abertura, é capaz de devastar a fim de purificar e reconstruir. O ensino ruim, a rotina pedagógica, um estilo de instrução cínico - quer seja o cinismo consciente ou não - são perniciosos. Destroem a esperança pelas raízes. O mau ensino é, quase literalmente, assassino e, metaforicamente, um pecado. Ele diminui o aluno, reduz a uma insanidade abjeta o assunto apresentado. Impregna a sensibilidade da criança ou do adulto com o mais corrosivo dos ácidos, o tédio, com os eflúvios perniciosos do enfado. (p. 26)

Nesse testemunho singular de Steiner, há muitas lições fascinantes. Compreende-se, entre outras coisas, que ensinar bem é ser cúmplice de uma possibilidade transcendente, que não se limita ao arrebatamento didático, homogeneizante e opressor. Que o ensino é falível e provisório. Que uma boa teoria pedagógica deve relacionar-se ao "enigma do livre-arbítrio", possibilitar que o indivíduo descarte ou reavalie preceitos de seu mestre, como já dizia Santo Agostinho. Que nenhum meio mecânico, por mais eficiente que seja, pode erradicar os benefícios do contato com o professor. Que grandes mestres são generosos. Despertam poderes e sonhos que vão além de seus próprios. Preparam seus alunos para partir, pois sabem que existe um universo (quase sempre) inexplorado mais adiante.

 

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