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Ignácio de Loyola Brandão: "criar é aprender a cada momento"

Jessica Reis - 07/11/2020 00:20

Um pedido de entrevista despretensioso por e-mail para o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que aos 84 anos é o ocupante da Cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras e colunista do jornal O Estado de São Paulo. Ele nasceu em Araraquara, interior de São Paulo, tem 46 livros publicados, é jornalista desde 1952 e hoje cronista. Também pertence a outra Academia, a Paulista de Letras. Viveu na Itália e na Alemanha, tem livros traduzidos para o inglês, espanhol, alemão, italiano, húngaro, checo, coreano do sul. Enfim, tem uma carreira brilhante na literatura. Mas, voltando ao pedido de entrevista, logo recebi uma notificação com a resposta:

"Prezada Jéssica,

Falei com o senhor Ignácio, que fica aqui do lado, e ele disse que tudo bem. O senhor Ignácio sou. Falo muito comigo mesmo. Darei a entrevista, claro.

Quanto ao Diário da Região, conheço desde a década de 1950, quando era jornalista em Araraquara e ia para sua cidade. Conheci Amaury Junior, quase adolescente, conheci a 'ex-Miss Brigitte Bardot', Ana Maria Braga, falei no Colégio Anglo umas dez vezes. Teve dia que usávamos a quadra, tantos eram os alunos, era lindo. Fui a vários festivais de teatro.

Como você faz? Manda perguntas? Liga? Qual é seu método? Meu melhor abraço.

Ignácio

Aproveite porque estou relativamente calmo em meio as dezenas de lives e crônica."

Emocionada com tanta ternura em uma resposta de e-mail fiz um novo contato, agradeci e o resultado dessa entrevista exclusiva com o escritor para a revista Vida&Arte, você confere a seguir:

V&A - Escritor, 46 livros publicados, jornalista desde 1952 e hoje cronista. Pertence a duas Academias, a Brasileira e a Paulista. Diante de um currículo desses, queria saber, o que move o senhor?

Ignácio de Loyola Brandão - Ansiedade diante do mundo. Perplexidade diante da vida. Indignação diante da realidade. Vontade louca de que tudo fosse diferente, sem saber como. Vontade de viver uma vida melhor. Ser uma pessoa boa sem saber como. O que me move é adorar criar uma fantasia, contar uma história, surpreender as pessoas. E provocá-las. Gosto do delírio, da imaginação, da loucura. Gosto de inventar e levar as pessoas a acreditar como em Não Verás País Nenhum, hoje mais atual do que nunca. Revela o absurdo do mundo, da realidade, das pessoas. O escritor tem o poder de criar universos, realidades diferenciadas, mundos, vidas, desvendar o oculto, mostrar o que está atrás.

V&A - Como o senhor definiria sua literatura?

Ignácio - Escrevo. Não estou aqui para definir nada. Quem se ocupa disso são os teóricos, os ensaístas, os críticos, os professores, quando têm capacidade. Escrevo, movido por tudo que disse acima. Antonio Cândido me definiu um dia: "Dono de um realismo feroz". Vai ver é isso. Se o mundo e a vida são ferozes, como busco retratá-los, então sou feroz também. Mas tantas vezes sou doce e terno. Vejam livros como O Menino Que Vendia Palavras e Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos.

V&A - Além das lives e crônicas, o que fez durante esse isolamento que nos foi imposto pela pandemia?

Ignácio - "Sento-me na cozinha ao lado de minha mulher Márcia que adora fazer pratos para dois, adora experimentar, adora o livro Panelinha da Rita Lobo. Fico olhando, vamos conversando, preparo uma bebida. Ela gosta de um Gin Tônica, tomo um Cuba Libre, coisa lá da minha juventude, que hoje posso preparar com um belo rum cubano perfumado. Aprendi a conviver com o dia a dia. Antes, ela se isolava na cozinha, eu ficava longe (machismo) esperando.

Mudei, nossa vida mudou. Leio, lemos. Estamos viciados na espanhola Rosa Montero, magnifica. A Casa das Loucas é uma maravilha de livro. Há ainda Histórias de Mulheres, A História do Rei Transparente e A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver. Vejam que títulos incríveis. Releio Lidia Jorge, a portuguesa, um deslumbramento. Leio e releio uma página por dia, logo de manhã, o Mais Longa Vida, de Marina Colasanti. Acabei de comprar a biografia do Samuel Wainer, meu patrão por dez anos na Última Hora, que revolucionou o jornalismo brasileiro nos anos 50 e 60 e foi exterminado pela ditadura. Aprendi jornalismo com Samuel. Leio Ana Paula Maia, Djamila Ribeiro, releio Graciliano Ramos.

Sim, faço Lives. E no momento (início de outubro) sou jurado dessa maravilha de festival que é o "É Tudo Verdade." Cada filme. Como temos jovens cineastas, principalmente mulheres, incríveis. Como esta geração se apaixonou por cinema. Hoje você pode fazer um filme com o celular. Viva a tecnologia! E vemos filmes, vemos séries, vemos filmes.

V&A - O que costuma fazer quando não está escrevendo? Como é o Ignácio no dia a dia?

Ignácio - Quando não estou escrevendo, escrevo... Acordo cedo, alimento o gato Tom (de Tom Jobim), preparo a mesa do café, faço o café. Lemos os jornais. Comentamos algumas notícias. Vamos para escritório que agora virou home office. Marcia é arquiteta e trouxe o computador dela, trabalha aqui em frente. Entramos e fingimos que está tudo normal, cumprimentamos:

"Oi gente, bom dia, tudo bem hoje? Alguma novidade? Saíram ontem para uma balada? Foram se aglomerar? E essa do Trump, hein? Diz que tem Covid. Tem nada. Essa gente é mentirosa, tudo pela eleição. Ninguém responde. Não há ninguém, criamos nossas realidades, nos divertimos.

Levanto, Marcia indaga:

" Onde vai?"

"Ora, Ao banheiro"

Ah! Não me saia na rua. Atendo telefone. Sacaneio os telemarketings: indaga (deve sabe da fama de hemingwayescrevatimosA Ridicula Ideia de Nunca Mais Te Ver. Vejam que totulos incriveis.ros, roman" Para que comprar o que você me propõe se tenho 99 anos e só estou esperando a funerária entregar meu caixão?" Respondo e-mails. Um sujeito quer saber se é possível morar uma semana aqui em casa para saber como vive e trabalha um escritor, ele quer ser escritor, pergunta como começar. Respondo:

"Primeiro se alfabetize, leia muito, depois sente e escreva.". Outro indaga (deve saber da fama de Hemingway):

"O que bebe um escritor?"

Respondo: uísque, conhaque, rum, vermute, fernet, schnaps, Poire, Absinto, Ouzo, Pastis, cerveja preta, vinho tinto, vinho branco. Detesto rosé.

"O que come um escritor?"

"Comida."

Vejo tevê, telejornais, filmes, seriados, filmes antigos, vejo e revejo Oito & Meio, adoro.

Descobri uma realidade avassaladora. A vida das colaboradoras domésticas, antigamente chamadas empregadas. De se matar. Passam a vida fazendo os mesmos gestos, ações, trilhões de vezes, infinitas vezes, automaticamente, são todas personagens do Tempos Modernos, filme clássico de Chaplin.

V&A - No nosso primeiro contato, o senhor mencionou que conhece São José do Rio Preto, da época em que era jornalista em Araraquara. Tem alguma história ou fato marcante que viveu na cidade?

Ignácio - No início da década de 50, fui em um trem especial da EFA que levava a diretoria da ferrovia para o que seria uma viagem inaugural da bitola larga que seguiria rumo, creio eu, a Presidente Vargas. Ou coisa semelhante. Eu era repórter do jornal O Imparcial, de Araraquara. O trem tinha cabine e foi um deslumbramento tomar banho na cabine e seguir para um jantar que aconteceu em um clube. Não me lembro o nome. Automóvel Clube? Sei que pela primeira vez comi comida árabe e tomei arak. Um deslumbramento.

Em uma das vezes que falei na quadra do Colégio Anglo, décadas atrás, a convite do professor Pedrinho, eu tinha me separado de minha primeira mulher, e bati os olhos em uma jovem, traços árabes, que me pareceu bem mais velha que os estudantes. Seria professora, monitora, funcionária? Morena de enorme olhos negros, ela me olhava, olhava e de repente piscou para mim. Teria piscado ou imaginei? Gostaria que ela tivesse piscado? Falei, falei e ela sorria, acenava com a cabeça, fiquei fascinado, não tirávamos os olhos um do outro. Quando tudo terminou, fui envolvido por bandos de jovens que queriam autógrafos, queriam fazer perguntas (ainda não existiam selfies), e assim perdi a jovem de vista. Quem era? Onde está? Será que ela se lembra daquele dia? Ou será que apenas se divertia? Será que ela vai ler esta resposta? Vai rir? Vai dizer: e se tivéssemos começado naquele dia alguma coisa? Eu estaria morando hoje em Rio Preto? Vou ser injusto, porque estive falando em muitas escolas de alto nível. Como lembrar? Nunca me esqueço que certa vez, uma delas me levou e colocou imensos outdoors nas avenidas, mostrando minha presença. Senti-me estrela. Escritor em outdoor? De Rio Preto não me esqueço de Roberto e Dinorath do Valle, esta, escritora maior, que merecia ter estado na Academia Paulista de Letras. Nos correspondemos por um bom tempo. Foi de Marcia Gullo, minha esposa, o projeto de imenso conjunto arquitetônico construído nesta cidade por J. Hawilla. Basta? Conheci Amaury Junior garotão, ele fazia coluna social aqui, eu em Araraquara. Foi o primeiro a fazer na tevê. A vida inteira foi fiel, cada livro que lancei, ele ali estava. Rapidamente cruzei-me, décadas atrás com uma jovem que, diziam, era a Brigitte Bardot local. Um dia, bati os olhos na tevê ela estava lá. Está até hoje, vocês sabem, é a Ana Maria Braga, guerreira.

V&A - Como é ser escritor no Brasil atualmente?

Ignácio - Igual no mundo todo. Uns escrevem, vendem, mas pouquíssimos conseguem viver do livro. Todos nós temos ou tivemos uma profissão paralela para nos sustentar. Tive sorte, o jornalismo foi paralelo e me forneceu temas e mais temas, assuntos para livros, romances e contos. Hoje sou cronista de O Estado de S. Paulo e já escrevi cerca de 2.500 crônicas. Cronista é aquele que fotografa literariamente o cotidiano de uma cidade. Digamos, fazemos Instagrams. Quem fica reclamando que não tem leitor, que é isto, é aquilo, trabalha fora da realidade, O escritor de hoje é aquele que escreve e que também sai para escolas, bibliotecas, auditórios, para falar e procurar formar leitores. temos dupla missão.

V&A - E como era quando começou?

Ignácio - Não diferia. Esta situação vem há décadas. Só que conseguimos conquistar mais visibilidade, a mídia mudou bastante, há escritores celebridades. A televisão hoje nos chama para roteiros e sinopses e ideias.

V&A - O senhor acredita que o escritor tem um papel social?

Ignácio - Escritor escreve. Ao escrever, retrata seu lugar, seu mundo, sua classe social, suas ideias, sua aldeia, seu país. Cada um de nós está mostrando o lugar em que vivemos, nossos problemas, preconceitos, etc e tal. Isto acaba nos conferindo um papel social. O escritor acima de tudo defende, sempre, a melhora da sociedade em que viva, escrava o que escrever. Podemos mudar cabeças. Mas você não senta e diz: hoje faço uma revolução, derrubo um governo, etc. A menos que escreva panfletos, que não são literatura. Nosso papel talvez seja o de abrir cabeças.

V&A - No seus livros, especialmente em "Desta terra nada vai sobrar" há muito da realidade que vivemos hoje no Brasil?

Ignácio - Está tudo ali. Escrevi no final dos anos 1970, publiquei no final de 1981 e fotografei o que via. Exagerando, levado tudo ao absurdo, acabei descrevendo a realidade atual. Descaso como meio ambiente, queimadas, indígenas, falta de água, Amazonas, desertificação, o horror. O execrável personagem do capitãozinho, sobrinho de Souza, por mim imaginado e hoje é realidade na figura desse tenebroso, Salles. Não é atoa que já vendeu um milhão de exemplares nesse tempo todo.

V&A - Tem algum projeto para este ano, um novo livro?

Ignácio - Tenho, faço anotações, preciso encontrar um caminho. Não digo o que é. Jamais digo. Nem conto. Nem minha família sabe. Cada um tem seus TOCs... Manias.

V&A - O que é criar para o senhor?

Ignácio - Estava no júri do festival de documentários "É Tudo Verdade", que foi encerrado domingo passado (4/10) e depois da votação quis ver o filme Wim Wenders, Desperado, espécie de mini biografia cinematográfica do belo diretor alemão que nos deu obras-primas inesquecíveis como "Paris Texas" e "Asas do Desejo". A certa altura, uma declaração de Wim Wenders me surpreendeu e me fez pensar no processo de criação. Claro que cada um tem o seu. No meu caso, é difícil eu começar um livro sem imaginar um provável final. Assim tenho para onde caminhar, existe uma meta. "Não Verás Pais Nenhum" foi exceção. Caminhei mais de 300 páginas sem a mínima ideia de como terminar. A certo momento, descobri. E o final foi uma cena que escrevi e reescrevi 38 vezes, na busca de um fechamento ambíguo, em que o leitor, por si, decide qual o melhor. Para ele, claro. Surpreendi-me com Wim Wenders dizendo que ele nunca tem um final. Se tiver, a história não se constrói por si. Um romance ou um filme, para ele, se faz por si próprio à medida que você avança. No meu caso não sei se quero repetir a experiência do "Não Verás". Mas ela me fascina. Temos de nos arriscar nesse pântano que é a criação no qual você pode se afundar. Porém o desafio é este. Conseguir não se afundar. Criar é aprender a cada momento. A cada livro novo procuro um meio, um modo de contá-lo.

Criar é uma doce e infernal e divertida e desafiadora insegurança. Quem sabe bem disso é a portuguesa mais genial que conheço, Lidia Jorge.

 

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