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Exposição virtual "Intermitências" reúne artistas da Academia Rio-Pretense de Letras e Cultura (ARLEC)

Patrícia Reis Buzzini - 07/11/2020 06:55

Uma das deficiências da linguagem é que ela raramente consegue capturar sensações e acontecimentos de forma imediata. Ninguém é capaz de dizer o advérbio agora, na mesma hora em que ele acontece. Ou de acompanhar o crescimento da grama no jardim. Santo Agostinho, nas Confissões, afirma que só sabemos o que é o tempo quando não pensamos nele. Talvez seja um bom caminho para que tudo "volte logo ao normal". Mas será mesmo possível? A história da humanidade comprova que períodos intermitentes - por mais extensos que sejam não são capazes de alterar completamente a realidade. Em outras palavras, algumas coisas permanecem. Resta saber apenas como assimilar melhor as mudanças naturais e inevitáveis ao contexto atual.

Nos fragmentos de Heráclito de Éfeso, um dos pensadores mais brilhantes da antiguidade, encontra-se a famosa frase: "Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio, (pois) substância mortal jamais se mantém duas vezes no mesmo estado". Para o filósofo, o tempo refere-se a um movimento ordenado contendo medida, limites e ciclos. Cada ciclo encerra práticas específicas que se sobrepõem e se modificam. Antes de Van Gogh, a tinta empastada na tela era sinal de inaptidão. E quem poderia imaginar que antiga técnica de serigrafia se tornaria a "queridinha" da Pop arte? Enfim, não há nada melhor do que a Arte em seu inesgotável potencial criativo e representativo - para nos apresentar um recorte além das aparências, o significado interior das coisas.

Neste mês de novembro, acontece a Exposição Virtual de Arte da Academia Rio-Pretense de Letras e Cultura (ARLEC), com o tema: Intermitências. Nessa perspectiva, cinco renomados artistas e acadêmicos foram reunidos em uma mostra virtual inédita, partilhando olhares e experiências a partir de diferentes suportes criativos. Araguaí Garcia, alçando voos cada vez mais arrojados pela arte abstrata e outras linguagens. O cartunista Lézio Júnior, com suas premiadas caricaturas e ilustrações artísticas. Maria Helena Curti, com toda a delicadeza e requinte de suas aquarelas. Norma Vilar, com sua experiência extraordinária na pintura e na escultura. E Jocelino Soares, com seus inconfundíveis girassóis e cenários bucólicos no estilo primitivista. Em face das especificidades do formato digital, artista e público terão a oportunidade de criar novos vínculos numa melodiosa sinfonia de cores, depoimentos e imagens. Além de fotos e vídeos, a jornalista Elma Eneida Bassan Mendes - recentemente empossada na ARLEC - realizou entrevistas exclusivas com os artistas, que serão publicadas ao longo da exposição, nas redes sociais e no site da ARLEC. Para encerrarmos essa matéria especial sobre o evento, pedi para cada artista falar sobre uma obra da exposição com o intuito de compartilhar algumas reminiscências com nossos leitores. 


Araguaí Garcia

"Não cabe a mim decidir o que uma pessoa está vendo. Cada um vê e escuta o que escolhe ver, escutar e sentir. Porém, se eu for falar algo sobre uma dessas obras, gostaria de falar desta imagem: 'Minerva retórica'. Não passa de um pote vazio, travestido de Deusa da sabedoria. Pote este, que não vê e tampouco escuta, mas, não para de vociferar. É uma homenagem ao efeito 'critiqueiro', tido e havido a crítico. Por isso, não tem olhos nem ouvidos".

 

Jocelino Soares

"Ao pintar a 'Chegada da Folias de Santos Reis', fiz uma volta ao passado, nos tempos de menino na fazenda onde eu morava. Todo ano a gente ouvia lá longe o som dos bumbos e os cantares que se perdiam em meio aos cafezais. Eram os foliões chegando para se apresentarem de casa em casa e assim, arrecadarem alimentos para o dia do grande encontro das companhias. Eu adorava ouvi-los cantar. Principalmente o som agudo no final de cada estrofe. E os palhaços? Ah, os palhaços me causavam um misto de pavor e contentamento. Adorava vê-los dançar ao som da zabumba com seus figurinos coloridos. As máscaras escondiam o rosto. Dois orifícios deixavam à mostra seus olhos. Eram eles que me apavoravam. Hoje, tantos anos depois, como eu gostaria de voltar a ser menino para de novo sentir as mesmas emoções que deixaram marcas indeléveis na alma desde caboclo".

 

Maria Helena Curti

"Essa aquarela foi medalha de bronze no Museu do Louvre, em Paris, e retrata o período em que as mulheres eram trazidas da África para trabalharem como escravas no Brasil, atravessando o Atlântico numa viagem difícil. As crianças choravam assustadas vendo o desespero dos adultos. As mães, para acalentarem seus filhos, rasgavam tiras de pano de suas saias e faziam bonecas para que as crianças tivessem algo para brincar. Essas bonecas feitas de nós, sem linha e agulha, são chamadas ABAYOMIS. A palavra abayomi em iorubá significa 'encontro precioso'. Talvez esse 'encontro precioso' tenha sido meu primeiro acalento no processo de criação".

  

Norma Vilar

"A obra 'Presente' foi desenvolvida para um curso online de arte em cerâmica e, além da importância dada às formas e às técnicas, transmite o equilíbrio com os meus sentimentos e a minha gratidão por viver a arte, por ser capaz de despertar no observador o prazer do fazer. Encontrei através da argila uma nova forma de meditação... de vivenciar o sabor do agora e encontrar forças para enfrentar os acontecimentos como eles são".

 

Lézio Junior

"Essa tela, pintada em tinta acrílica, foi inspirada em uma música do Raul Seixas, chamada 'Ouro de tolo', mais especificamente no trecho: 'Eu devia estar feliz pelo Senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no jardim zoológico dar pipocas aos macacos...' Então eu pensei em ilustrar essa cena com um macaco mais pop, pra simbolizar o lado rebelde e questionador da música. O que me inspira muito na arte é o desafio de ver a tela em branco e chegar até a arte final, em criar algo novo e surpreendente mesmo para mim".

 

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