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A poética de Paulo Henriques Britto

Patrícia Reis Buzzini - 10/10/2020 00:30

Considerando que o texto poético trabalha com a linguagem em níveis semânticos, sintáticos, fonéticos, e rítmicos, entre outros, muita gente acredita que seja impossível traduzir poesia. Mas será verdade? Na universidade, ainda me lembro do primeiro contato com as ideias do escritor, professor e tradutor carioca Paulo Henriques Britto. Em seus artigos, Britto (2002) afirma que o poema deve articular todos esses níveis, ou pelo menos vários deles, no sentido de chegar a um determinado "conjunto harmônico de efeitos poéticos". Após estrear como poeta em 1982, com Liturgia da matéria, o autor publicou vários livros que já receberam prêmios da Fundação da Biblioteca Nacional e Portugal Telecom. Tradutor de escritores notáveis como William Faulkner, Elizabeth Bishop, Byron, John Updike, Thomas Pynchon e Charles Dickens, Britto também se destaca como um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea. Em seu mais recente livro, Nenhum Mistério (2018), inclui poemas escritos originalmente em inglês e duas "autotraduções", alternando-se entre códigos linguísticos com a mesma engenhosidade demonstrada na tradução. Outra característica marcante da poesia de Britto é a preferência pelo metro regular, o que não é muito comum nos dias atuais. Embora seja predominante o tema das perdas no livro, os poemas assumem uma espécie de identidade neutra e um tom ligeiramente filosófico e reflexivo: "Todas as coisas no mundo/ fazem sentido. Senão não teria/ sentido elas serem. Ou estarem. Tudo / mais depende desse princípio" (Uma nova teoria de tudo, p. 59). Em entrevista exclusiva para a Revista Vida & Arte, o poeta fala mais sobre a sua relação com a tradução e com a escrita poética.

Vida&Arte - Após tantos anos de experiência como tradutor literário, você pode apontar os principais dilemas encontrados na tradução de poesia?

Paulo Henriques Britto - A principal dificuldade é a necessidade de levar em conta o maior número de níveis relevantes possíveis, o que com frequência obriga o tradutor a sacrificar um efeito para preservar outro. Para fazer tais escolhas, idealmente ele deve tentar se fundar em argumentos racionais, que possam ser explicitados — uma meta que também nem sempre pode ser alcançada.

V&A - Em "Nenhum Mistério", há poemas que transitam entre várias línguas. Até que ponto o tradutor se mistura ao poeta no livro?

Britto - Creio que "várias línguas" é um exagero; na verdade, só domino o português e o inglês; as outras línguas só comparecem nos títulos ou em uma ou outra citação ou expressão estrangeira. Mas quase todos os meus livros contêm poemas que eu mesmo traduzi de um de meus dois idiomas para o outro — por exemplo, o primeiro poema de Nenhum mistério reaparece, vertido para o inglês, na seção "Duas autotraduções". É esse o sentido mais direto em que o tradutor se mistura ao poeta.

V&A - "Nenhum Mistério" foi publicado cinco anos após Mínima Lírica (2013). Como foi o processo criativo nesse período?

Britto - O mesmo de sempre. Tento escrever regularmente, embora passe por períodos de produção mais escassa e outros de maior abundância. A partir de um certo momento, começo a reescrever e agrupar os poemas, dando títulos aos grupos.

V&A - Você tem planos de publicar novos livros este ano?

Britto - Não. Mas no ano que vem deve sair um livro de contos novo.

V&A - Você poderia destacar um ou dois poemas que mais lhe agradam em "Nenhum Mistério"?

Britto - Da série que abre o livro, Nenhuma arte, o primeiro e o quinto poemas, talvez.

I

Os deuses do acaso, a quem nada

lhes pediu, o que um dia levam embora;

e se não foi pedida a coisa dada

não cabe se queixar da perda agora.

Mas não ter tido nunca nada não

seria bem melhor - ou menos mau?

Mesmo sabendo que uma solidão

completa era o capítulo final,

a anestesia valeria o preço?

(Rememorar o que não foi não dá

em nada. É como enxergar um começo

no que não pode ser senão o fim.

Ontem foi ontem. Amanhã não há.

Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)

V

Veja e toque, e se contente.

Nada mais lhe é permitido.

Pois tudo que você tem

só é seu no escasso sentido

em que é sua a sombra escassa

que esse seu corpo segrega,

que some assim que se apaga

a exata luz que ela nega.  

 

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