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Entrevista com egiptóloga Flávia Haddad

Patrícia Reis Buzzini - 05/09/2020 00:30

O fascínio pelas antiguidades egípcias é uma constante ao longo da história da humanidade. Entre o final do século XVIII e início do XIX, consta que o general francês e futuro imperador Napoleão Bonaparte realizou uma expedição de conquista ao Egito, trazendo ao mundo um novo olhar sobre a fauna, a flora, a arquitetura, e os costumes desses povos. De acordo com a professora e historiadora Margaret Bakos (2004), a Egiptologia fundamenta-se na interpretação de vestígios de procedência variada, resgatados de antigas coleções europeias ou obtidos por meio de escavações - muitas delas clandestinas - nas terras margeadas pelo Nilo. Contudo, o passo definitivo para o desenvolvimento desta área de pesquisa científica ocorreu apenas quando o linguista francês Jean François Champollion (1790-1832) criou um método para a leitura e a interpretação da escrita sagrada dos egípcios: os hieróglifos. Como havia uma forte associação entre o escrito e o figurado no Egito Antigo, foi possível obter mais informação sobre a cultura egípcia do que sobre outras civilizações remotas como a grega e romana. Formada em Egiptologia pela Universidade de Sorbonne, na França, Flávia Haddad atua como palestrante e faz sucesso nas redes sociais com publicações e curiosidades acerca desse tema (ainda) tão atraente e misterioso. Entrevistada pela revista Vida & Arte, Flávia compartilha um pouco desse conhecimento conosco. Confira.

Vida&Arte - Quando e por que você começou a se interessar por Egiptologia?

Flávia Haddad - A egiptologia entrou na minha vida de forma repentina. Sou formada em Engenharia Eletrotécnica pela Universidade Mackenzie e sempre apreciei a física e a matemática. Eu já tinha uma carreira muito bem estabelecida na Autolatina, parceria comercial entre as montadoras Ford e Volkswagen que existiu até 1996 no Brasil, quando decidi largar tudo para estudar Egiptologia. Eu estava ainda na Autolatina quando apareceu um interesse muito grande sobre o Egito, algo que eu não tenho como explicar. Larguei tudo e fui para a França, a princípio para ficar seis meses. Mas a volta não ocorreu tão cedo. Eu já era fluente em inglês e italiano, estudei o francês e depois cursei Egiptologia na Sorbonne. Em 2008 meu livro "Shaana la fille du Pharaon" foi publicado em Paris pela editora francesa Arnaud Franel. Voltei ao Brasil após 11 anos.

V&A - Sabemos que os Gregos tinham forte admiração pela arte egípcia e que grande parte da cultura grega é um diálogo com a cultura egípcia. Na sua opinião, qual foi a importância da civilização egípcia para o mundo atual?

Flávia Haddad - A partir do momento que temos consciência que a civilização egípcia é o berço da humanidade, o primeiro estado do nosso planeta, compreendemos que a base sócio, econômica, cultural, religiosa e política atual tem como origem essa antiga civilização. A alma da egiptologia é o estudo do desenvolvimento da humanidade desde seus primórdios.

V&A - Como você explica a famosa frase proferida pelo historiador Heródoto (Século 5 a.C.): "O Egito é um presente do Nilo"? Como era organizada a sociedade da época?

Flávia Haddad - O grande segredo do poder econômico dos antigos egípcios era a inundação anual do rio Nilo. Isto é, uma vez por ano, o rio Nilo transbordava suas águas por quilômetros ao longo de suas margens. Essa área inundada era fertilizada pelo lodo do rio que era transportado junto com as águas. Quando o período da inundação passava, a população utilizava essa área fértil para a agricultura e criação de animais. Os antigos egípcios logo perceberam que as inundações anuais eram sua única oportunidade de crescimento, então desenvolveram dutos de irrigação e novos métodos de armazenamento de água para duplicar e até triplicar a área inundada e assim, consequentemente, duplicar e triplicar sua produção e riqueza.

V&A - A Grande Pirâmide de Gizé é considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Qual era o significado das Pirâmides? Como foram construídas?

Flávia Haddad - A Pirâmide de Quéops, que é a maior pirâmide do planalto de Gizé, é uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo e a única entre elas que sobreviveu até os dias atuais. No Egito Antigo as pirâmides eram as tumbas funerárias dos Faraós, elas eram o local onde a múmia do defunto Faraó era colocada. Até hoje estes gigantescos monumentos são um mistério a serem desvendados, um quebra-cabeça envolvendo alta tecnologia, religião, astronomia e magia. As técnicas de construção ainda suscitam grandes debates. Os textos contemporâneos da IV dinastia, os construtores das pirâmides de Gizé, são poucos e exprimem a ideologia das pirâmides, sem nenhuma menção a forma de construção.

V&A - No poema chamado "Hino ao Sol", escrito pelo faraó Aquenáton, também conhecido como Amenófis IV, o sol é descrito como deus supremo (Aton): "Tu surges belo no horizonte do céu/ Ó Aton vivo, que deste início ao viver/ Quando te ergues no horizonte oriental, todas as terras enches de tua beleza. / Tu és belo, grande, resplandecente, excelso sobre todo o país". Por que o sol é tão importante para a civilização egípcia?

Flávia Haddad - Re, ou também Ra, deus solar, é considerado como o princípio criador e original. O amanhecer e o entardecer diário do sol comprovava o poder absoluto que ele tinha ao desaparecer no ocidente e renascer todas as manhãs no oriente. Ele é normalmente representado como um homem com a cabeça de um falcão coroado com um disco solar. Desde os primórdios dessa civilização o ciclo do sol era comparado ao ciclo de vida. O sol nasce a leste, atinge seu apogeu ao meio-dia e se põe ("o sol morre") a oeste. O Egito Antigo era dividido: a leste do rio Nilo era o local onde os habitantes nasciam, moravam e trabalhavam. Lá se encontravam os vilarejos com toda vida administrativa do país, os palácios e as casas. Em contrapartida, o lado oeste do Nilo era consagrado somente as tumbas funerárias, isto é, no mesmo local onde o sol "morria" as pessoas eram enterradas. Portanto, tanto o homem como o sol nasciam a leste, atingiam seu apogeu e depois iniciavam o declínio até atingir a morte no lado oeste. A partir daí, a presença do deus Re se torna imprescindível em todas as áreas dessa civilização.

V&A - Qual era a função das esfinges? Por que a Grande Esfinge ficou tão popular no ocidente?

Flávia Haddad - As esfinges eram as grandes protetoras dos lugares sagrados que seriam as tumbas funerárias, os templos divinos e os templos funerários. Elas eram representadas com um corpo de um leão sentado e com a cabeça ou de um soberano ou de uma divindade. A Grande Esfinge está localizada no Planalto de Gizé, onde ficam as legendárias pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos. Ela é a mais conhecida por ser a maior esfinge não só do Egito, como também do mundo. Ela mede 73,5 metros de comprimento, 14 metros de largura e 20 metros de altura. Sua datação é palco de longas discussões, mas acredita-se que ela foi construída no mesmo período que as pirâmides de Gizé.

V&A - Você acredita que ainda haja mistérios acerca da civilização egípcia? Qual é a relevância de pesquisas arqueológicas?

Flávia Haddad - Com certeza, as areias do deserto ainda guardam infinitas informações. Existem grandes lacunas na história dessa civilização a serem descobertas. Sem dúvida existem muitos mistérios e acontecimentos históricos a serem desvendados.

V&A - Você tem um perfil no Instagram, com cerca de 12,8 mil seguidores, onde publica curiosidades acerca do Egito Antigo. Você poderia compartilhar algumas conosco?

Flávia Haddad - Meu Instagram é "Flavia Haddad", meu Facebook é "Flávia Haddad", como também meu Linkedin é "Flavia Haddad". Todos os dias, duas vezes ao dia, posto curiosidades e informações dessa civilização.

 

Algumas publicações:

1) Isis, a deusa mais amada e venerada na antiga civilização egípcia. Protetora da família, ajuda na cura, além da inúmeros outros atributos. Fato único na mitologia antiga: ela foi a única deusa que ressuscitou seu marido, também um deus, após ser assassinado pelo irmão.

2) No Antigo Egito, a maquiagem era normalmente usada pelos dois sexos e em todas as classes sociais. Era também uma forma de proteção ao clima seco, quente e árido. A maquiagem mais utilizada era a pintura em volta dos olhos. A cor preta era a mais usada, mas poderia ser também azul.

3) Essa tumba pertence a um nobre artesão chamado Pashedu. Ela está localizada na necrópole do vilarejo de Deir el-Medineh, local onde habitavam os melhores artesãos da época, responsáveis pela construção e decoração das tumbas faraônicas. A TT3 é uma das tumbas mais bem decoradas e é aberta ao turismo.

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