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Desejo e contradição nos meandros da memória

Patrícia Reis Buzzini - 04/07/2020 00:25

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski é reconhecido como um dos autores mais influentes de todos os tempos, reverenciado por criar um novo topos para a literatura moderna. Detentor de uma história de vida marcada por tragédias - foi preso pelo regime tzarista e obrigado a realizar trabalhos forçados na Sibéria por quatro anos - Dostoiévski também deixou um legado de obras magistrais como Crime e castigo e Os irmãos Karamázov. Ao entrar em contato com essas publicações, Nietzscche escreve: "a voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites". Por sua vez, Memórias do subsolo (1864) - também traduzido como Notas do subterrâneo - é um bom começo para quem pretende conhecer melhor a narrativa dostoiévskiana, considerando-se o fato de ser um texto mais curto, anterior à maturidade intelectual do autor. Vale destacar, ainda, que a presente edição da obra leva a assinatura de Boris Schnaiderman, tradutor e ensaísta premiado por sua contribuição na divulgação da cultura russa no Brasil.

Escrito na cabeceira de morte de sua primeira mulher, Memórias do subsolo reúne vários temas que reaparecerão em outros romances de Dostoiévski. De acordo com o crítico Manuel da Costa Pinto, é nesse livro que o escritor "materializa sua visão abissal dos conflitos morais, psicológicos e sociais, que se interpenetram caoticamente de modo a destacar, como única medida do mundo, o desejo humano de salvação diante da morte". Ao mergulhar na própria sombra individual e coletiva (metaforizada pela imagem do "subsolo"), Dostoiévski constrói uma prosa densa e psicanalítica que é citada, muitas vezes, como uma prefiguração das ideias de Freud sobre o inconsciente:

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em grande segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até de si próprio; e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas do gênero. E acontece até o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não lembro apenas, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral? Observarei a propósito: Heine afirma que uma autobiografia exata é quase impossível, e que uma pessoa falando de si mesma certamente há de mentir. (p.52-53)

No que tange à organização textual, a novela divide-se em duas partes: "O subsolo" e "A propósito da neve molhada". Na primeira parte, encontramos um monólogo no estilo de fluxo de consciência que configura uma crítica contra a tirania do pensamento racionalista, a mentalidade positivista e os pilares da cultura ocidental da época. Nessa perspectiva, o narrador inominável - um aposentado burocrata do governo - recusa-se a aceitar que "dois e dois são quatro", afirmando que a liberdade deve ser o principal bem da humanidade. Interessado nos mistérios da existência, o personagem-narrador assume um ar de zombaria, desesperança e inação, que ele chama de "consciência hipertrofiada", construindo meditações profundas sobre a realidade:

Mas o homem é a tal ponto afeiçoado ao seu sistema e à dedução abstrata que está pronto a deturpar intencionalmente a verdade, a descrer de seus olhos e seus ouvidos apenas para justificar a sua lógica.

Na segunda parte do livro, o escárnio dá lugar a uma narrativa de autodegradação e crueldade, evidenciada em duas situações específicas. A primeira, com um oficial e a segunda, com uma prostituta. Em ambas histórias emerge a consciência cindida do anti-herói infame, traído por contradições e desejos, que compara o sofrimento a um "capricho" que deve ser assegurado, sempre que necessário. Nesse sentido, elabora a seguinte indagação: "o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado?" Ímpeto de suma originalidade e polêmica Memórias do subsolo desponta como uma leitura provocativa e libertadora. E agora, vai encarar?

 

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