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"Nuvens", o último curta de Hilda Machado

Patrícia Reis Buzzini - 06/06/2020 00:30

O termo curta-metragem, que deriva do vocábulo francês court-métrage, faz referência a um filme breve (de trinta minutos ou menos) sobre questões variadas, porém, pouco atrativo do ponto de vista comercial. Nesse sentido, talvez essa seja uma boa metáfora para a trajetória fecunda e circunspecta de Hilda Machado, pesquisadora e cineasta nascida no Rio de Janeiro, que se despediu precocemente da cena carioca em 2007 com apenas dois poemas publicados em revistas especializadas e alguns manuscritos esparsos, registrados na Biblioteca Nacional. Graças ao empenho do poeta Ricardo Domeneck, que assina o prefácio da obra, e a colaboração de Angela Machado, irmã da autora, esses textos puderam ser recuperados e organizados no formato de livro, publicado recentemente como Nuvens (2018), e já ganhador do Prêmio Jabuti no ano passado.

Apresentando um estilo poético fortemente visual, os 24 poemas garimpados neste livro traduzem uma espécie de humor amargo, quase melancólico, que soa como palavras engasgadas de quem, embora derrotado, mantêm-se firme em suas convicções. De acordo com Domeneck, o poema "Miscasting" impressiona pela sua carga emocional unida à qualidade intrínseca, "interligando condensação linguística e emotiva numa sonoridade que se escamoteia e adensa de maneira explícita". Vale esclarecer que o verbo "to miscast", em inglês, significa escolher um ator inadequado para interpretar determinado papel. Segue um trecho do poema em destaque:

 

MISCASTING

"So you think salvation lies in pretending?"

Paul Bowles

estou entregando o cargo

onde é que eu assino

retorno outros pertences

um pavilhão em ruínas

o glorioso crepúsculo na praia

e a personagem de mulher

mais Julieta que Justine

adeus ardor

adeus afrontas estou entregando o cargo

onde é que assino

 

Na opinião do professor e crítico literário Marcos Siscar, o dispositivo poético da diferença entre poeta e eu-lírico em "Miscasting" é tratado a partir da interpretação do ator: "se tradicionalmente o poeta reivindica a criação ou o controle de sua ´mentira`, deixando o eu-lírico atuando a sós com o leitor, Hilda Machado duplica o problema, fazendo da inadequação entre o ator e seu papel um desajuste do qual todos participam. Pois viver já é contracenar, de certo modo" (O Globo, 28/04/2018). Nessa perspectiva, Siscar afirma que, ao mesmo tempo em que se identifica com o resgate da poeta, o livro permite perceber uma comovente e paradoxal frustração com a poesia.

Ao explorar diferentes registros da linguagem, entre o popular e o erudito, Hilda escreve versos como se editasse um filme, com frases entrecortadas e sentidos em suspenso, como ocorre no poema "Nuvem", que leva o mesmo nome do livro: "babado de organdi/ floco de algodão/ carneirinho regredido/ primeira comunhão/ beleza que é o cúmulo". Além disso, escapa-lhe na escrita um tom levemente confessional, caracterizado por paradoxos e incertezas que coexistem em aparente harmonia, como no poema "Sou", escolhido para finalizar esta breve exposição:

SOU

verso ou reverso

par ou ímpar

yin ou yang

prosa ou verso

sim ou não

nunca um talvez

Registro das últimas cenas de Hilda, o lançamento de "Nuvens" também simboliza a oportunidade do remake póstumo e, aos leitores, cabe apenas preparar a pipoca.

 

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