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O Buda no Sótão

Patrícia Reis Buzzini - 03/05/2020 00:25

No dia 18 de junho, comemora-se o Dia da Imigração Japonesa no Brasil. A data foi criada em 2005, em homenagem a Kasato Maru, primeiro navio de imigrantes asiáticos a atracar no porto de Santos. No final do século XVIII, os fazendeiros brasileiros viviam as consequências da Lei Áurea e estavam ansiosos por mão-de-obra. Por esse motivo, o então presidente Floriano Peixoto sancionou a lei n° 97, em 1892, autorizando a entrada de japoneses e chineses ao nosso país e celebrando o Tratado de Comércio, Paz e Amizade com o Japão. Em pouco tempo, os emigrantes começaram a deixar o Japão com o intuito de trabalhar em fazendas de café na região de Marília, Presidente Prudente e Mogi das Cruzes. Infelizmente, consta que muitos foram iludidos por falsas promessas de enriquecimento, e obrigados a executar tarefas antes conferidas aos escravos, em condições semelhantes.

Em um contexto paralelo mas não muito diferente, "O Buda no Sótão", segundo romance da notável escritora americana Julie Otsuka, narra a história da comunidade japonesa na costa oeste americana, em especial, a vinda das "esposas" dos emigrantes que já haviam se estabelecido nos EUA, no início do século XIX. Sem conhecer os futuros maridos, essas mulheres os imaginavam belos e prósperos, certas de que teriam a chance de construir uma vida melhor, como mostra o trecho abaixo:

"No navio guardávamos nos baús todas as coisas que iríamos precisar em nossas vidas: quimonos de seda branca para a noite do casamento, quimonos de algodão coloridos para usar no dia a dia, quimonos de algodão lisos para a velhice, pincéis para caligrafia, bastões grossos de tinta preta, folhas finas de papel de arroz para escrever longas cartas para casa, pequenas imagens de Buda feitas de latão, estátuas de marfim do deus raposa, bonecas com as quais dormíamos desde os cinco anos, pacotes de açúcar para comprar favores, colchas de tecido brilhante, leques de papel, livros de frases em inglês, faixas de seda estampada com flores, pedrinhas negras do rio que corria atrás de casa, um tufo de cabelo do menino que havíamos tocado, amado e prometido escrever, mesmo sem jamais cumprir tal promessa, e espelhos de prata dados por nossas mães, cujas últimas palavras ainda ecoavam no ouvido. Você vai ver: mulheres são fracas, mas mães são fortes."

Numa prosa híbrida e hipnótica, acompanhamos o percurso de diversas mulheres japonesas ao chegarem no Brasil, o difícil contato com a cultura e a língua local, com os valores da sociedade patriarcal da época e com a impossibilidade de desatarem os nós de uma nova e imprevisível existência. Além do "choque cultural", o livro retrata a experiência de expatriação, remetendo-nos ao conceito de "crise da alteridade" do filósofo francês Antoine Berman, ao drama causado pela relação com o estrangeiro, marcada pelo medo da perda da identidade. No que tange à configuração histórica da obra, destaca-se o momento em que os imigrantes japoneses - muitos já naturalizados americanos - são covardemente deportados para os chamados campos de exclusão militares durante a Segunda Guerra Mundial:

"Algumas de nós começaram a receber cartas anônimas pelo correio que informavam que nossos maridos seriam os próximos. Eu pensaria em sair da cidade se fosse você. (...) Mitsuko saiu uma noite antes do jantar para pegar alguns ovos de galinha e ao voltar viu as roupas estendidas no varal pegando fogo. E então soubemos que aquilo era só o começo."

Um livro atualíssimo, que suscita reflexões importantes a respeito da intolerância e da pretensão de existência de uma superioridade cultural. Enfim, não é de se estranhar que tenha recebido tantos prêmios e traduções para dezenove idiomas.

 

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