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A fé que agrada a Deus

O apóstolo Paulo definiu a palavra fé como "a certeza daquilo que esperamos, a prova das coisas que não vemos". Henrique Prata, 67 anos, é exemplo da fé descrita pelo apóstolo. Seu ânimo não é dobre, não esmorece. É fé robusta a do presidente da Fundação Pio II, mantenedora do Hospital de Amor, atual nome do Hospital de Câncer de Barretos, oásis de excelência no tratamento gratuito e humanizado a pacientes de todo o Brasil. Seu coração precisa ser firme em crer, pois sob seu comando estão 380 médicos
e 5.300 funcionários nas unidades hospitalares gerenciadas pelo Hospital de Amor por todo o País. Há 32 anos, desde que assumiu a administração, a fé de Henrique é testada todos os dias e com excelentes resultados. Somente em 2019 foram 1.047.440 atendimentos realizados a 224.883 pacientes vindos de 2.335 municípios de todos os estados. E mais 24.351 internações, 252.544 quimioterapias, 9.500 refeições servidas por dia, 100% de forma gratuita. A pandemia do novo coronavírus não o abalou. Menos ainda faz trinco na sua fé um déficit operacional que gira em torno de R$ 29,5 milhões ao mês. "Não perco o sono, dinheiro é insignificante, ele aparece na hora que tem que aparecer", diz o fazendeiro e peão de boiadeiro convertido a amar ao próximo. Henrique sabe que o seu trabalho e a estirpe da sua fé agradam em cheio ao coração de Deus. Tanto que ele vive o que Davi escreveu no Salmo 127: "aos seus amados, Deus dá o sustento enquanto dormem".

V&A - Como a pandemia afetou o atendimento e o equilíbrio financeiro das unidades do Hospital de Amor?

Henrique Prata - A pandemia pegou todo mundo desprevenido. Nós tínhamos um programa de agendamento, uma fila de espera no câncer e, de repente, precisamos cancelar as cirurgias eletivas. Foi uma surpresa, mas nossa prioridade foi atender a Covid-19 e os cuidados para proteger pacientes, familiares e os nossos funcionários. Nós mobilizamos um hospital específico para a Covid-19, e isso fez toda a diferença. Também instalamos gripários (locais onde pacientes com suspeita da Covid-19 são atendidos). Com isso eliminamos as chances de trazer o vírus para dentro dos hospitais, e continuamos com 80 por cento de ocupação durante a pandemia. As cirurgias foram as que mais sofreram com os cancelamentos. Radioterapia e quimioterapia não sofreram tanto. Foi uma surpresa e precisamos aprender com ela, estamos aprendendo, ainda não temos nenhuma regra definida para lidar com tudo isso.

V&A - De todas as receitas que compõem a difícil manutenção mensal do Hospital de Amor, a maior delas ainda é a que vem da solidariedade?

Henrique Prata - A maior receita ainda vem da solidariedade, principalmente dos pobres, por incrível que pareça. Pessoas que nem conhecem o Hospital, mas que são contaminadas por aqueles que foram tratados por amor e que têm uma fidelidade incrível. Nós temos uma carteira de arrecadação que vem dos leilões, que gira em torno de R$ 8 milhões mensais. A carteira dos leilões foi muito afetada. Por não poder reunir presencialmente as pessoas essa arrecadação caiu para R$ 500 mil no mês de abril e subiu para R$ 800 mil em maio. Foi um baque violento para ajudar a cobrir o nosso déficit mensal. A segunda receita que perdemos foi a dos títulos de capitalização, através das vendas nas ruas, que é semanal. Tínhamos uma receita de três milhões de reais por mês, caiu para zero. Foi baque de tudo quanto é lado. Mas a obra é de Deus, algumas portas foram fechadas, outras se abriram. Estamos recuperando. Estamos em plena fase de recuperação dos eventos. Aprendemos, e ainda estamos aprendendo, a fazer leilões virtuais, via online. Estamos encontrando formas de sobreviver com todas essas dificuldades. São grandes mudanças que iam acontecer no futuro e que foram antecipadas para agora, pela urgência de toda essa situação. Não tenho nada que reclamar. Temos mesmo que continuar a ter esperança que vai dar certo.

V&A - Qual sua opinião sobre a gestão da pandemia pelos governos federal e estaduais?

Henrique Prata - Até hoje ninguém me confortou mais do que a minha própria experiência. Nós temos mais de quatro mil colaboradores atuando dentro de hospital. Nós mantivemos noventa por cento deles internamente. Nós tivemos somente uma perda no começo da pandemia. Era uma pessoa com quatro, cinco comorbidades e que insistiu em trabalhar. E tivemos mais de cento e setenta pessoas afastadas por comorbidades e por protocolo de idade. Então, nós só perdemos essa pessoa. Com isso eu vi que as pessoas que estavam amparadas com máscara, com luva e com todos os cuidados de segurança não tiveram problemas. Assim, não houve pandemia dentro da equipe de colaboradores do Hospital de Amor. Então minha visão é diferente, é um pouco mais cética do que a imprensa coloca. Se todo mundo se cuidar, pode ter certeza de que a contaminação é muito baixa. Outra experiência foi com os colaboradores sem comorbidades e que foram contaminados: nenhum deles precisou ser internado. Todos fizeram quarentena em suas casas. Assim, eu tenho uma visão prática do fato, eu não tenho e não concordo com a visão acadêmica dos cientistas que pensam muito teoricamente. A minha visão é pratica e eu acho que foi um pouco de radicalismo dos governos e dos governantes em criar esse problema que gerou no País, essa paradeira absoluta e que eu não concordo.

V&A - Sua história de vida é um testemunho de conversão. O que a fé representa na trajetória do Hospital de Amor?

Henrique Prata - O meu testemunho de vida é de pura fé. Eu sei como é viver e se equilibrar administrando o problema chamado dinheiro, esse item que todos os homens se acovardam nunca me acovardou. Nunca fez parte do meu cenário perder uma noite só de sono por causa do dinheiro. Alguns me acham meio irresponsável às vezes porque eu ponho o pé no acelerador e não tiro. Nós estamos crescendo na vertical, estamos em 14 estados fazendo prevenção e em quatro estados fazendo tratamento. Isso demonstra que a fé é superior ao dinheiro. O que eu vejo é que a Providência existe na minha obra e na obra de qualquer um que tem a dimensão de fazer por amor e por igualdade a todos. E aí o dinheiro é insignificante: ele aparece na hora que tem que aparecer.

V&A - A corrupção é o pior tipo de câncer?

Henrique Prata - A corrupção é um dos piores. Mas, talvez, pior que a corrupção seja a omissão. Muitos sabem de coisas que estão sendo feitas erradas, muitos sabem e não têm coragem de se colocar em favor de quem está sendo prejudicado, não tem coragem de apontar o erro. Quantos e quantos hospitais têm médicos que não têm especialidade ocupando o lugar de especialistas, quantas pessoas morrem por erros que ninguém sabe? A corrupção é dinheiro, a omissão é vida. Para mim, a omissão é um dos maiores pecados que existe. A corrupção é importante, mas não é maior que a omissão.

V&A - O sr. acredita que surgirá um ser humano melhor depois que a pandemia acabar? O sofrimento tem o poder de mudar as pessoas?

Henrique Prata - Sim. Isso a gente percebe claramente nas famílias. Às vezes um filho está brigado com o pai, ou os filhos estão brigados com o pai, ou uma irmã está brigada com o irmão. Quando acontece um sofrimento na família essas desavenças se dissolvem, caem por terra. É quando se vê que a vida é uma fração de segundos, que a vida é um momento. Qualquer um que se diz cristão não pode ser feliz vivendo pelo orgulho, negando os mínimos preceitos de um cristão, que é amar o próximo como a si mesmo, e isso começa na própria família, na própria casa. Acho que todos nós vamos sair melhores dessa crise.

 

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