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Responsabilidade afetiva: você sabe o que é?

Jéssica Reis - 03/05/2020 00:14

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas." Você já deve ter lido essa frase do livro 'O Pequeno Príncipe' em algum lugar. Essa simples mensagem tem um significado imenso e sugere que devemos ser responsáveis pelos sentimentos daqueles que nos amam. Atualmente, esse ensinamento publicado pela primeira vez em 1943, pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, e que se tornou um clássico da literatura mundial, é chamado de responsabilidade afetiva. Mas você sabe o que realmente é isso?

"Responsabilidade afetiva é um conjunto de atitudes que combina maturidade, empatia, honestidade e comunicação respeitosa nas relações humanas. É ser leal com os pares ou companheiros no mais amplo sentido da palavra. A responsabilidade afetiva deve ser aplicada a qualquer tipo de relacionamento, duradouros ou breves, intensos ou superficiais, com conhecidos ou estranhos, presenciais ou virtuais, com crianças, jovens e idosos, familiares, profissionais ou de amizades, sem qualquer exceção", explica a psicóloga cognitivo-comportamental Mara Lúcia Madureira.

Ainda segundo Mara, não podemos ser responsáveis pelos sentimentos das outras pessoas, mas podemos e devemos ser responsáveis pelas nossas atitudes, ou seja, ser cuidadoso com a escolha das palavras e transparente nas ações, de forma que não firam, diminuam, desrespeitem, oprimam ou agridam o outro. A psicóloga ensina que isso pode ser feito de maneira clara, objetiva e zelosa. "Nunca usar o verbo em segunda ou terceira pessoa, mas falar sempre de nós mesmos. Por exemplo, se ao conhecer uma pessoa e rolar a possibilidade de envolvimento sexual, mas sem interesse amoroso, dizer ao outro as reais intenções, sem margem para interpretações dúbias. 'Eu estou a fim de ficar com você, mas não tenho intenção de nada além de encontros casuais. Se você estiver de acordo, podemos prosseguir. De outro modo, não poderei corresponder a nenhuma outra expectativa que possa ocorrer da sua parte'", exemplifica Mara.

A falta dessa responsabilidade afetiva pode interferir negativamente na vida do outro. A psiquiatra e terapeuta Lívia Penteado diz que isso acontece dependendo do quanto o outro tem de recurso emocional para se proteger dessa situação. "Uma pessoa segura, que tem família ou amigos para compartilhar, se ela se relacionar com uma pessoa que não tem responsabilidade afetiva, a chance dela se desestruturar é menor. Mas em situações opostas, essa irresponsabilidade pode gerar diversos danos emocionais e levar até mesmo a uma depressão. Sermos responsáveis emocionalmente inclui conhecermos e respeitarmos o contexto daquela pessoa", afirma.

Para Lívia, a frase 'não faça com o outro o que você não gostaria que fizessem com você' retrata o quanto a responsabilidade afetiva deve ser levada a sério nos relacionamentos. Segundo a psiquiatra, trata-se de agir de forma que as ações e palavras não levem o outro a crer em uma situação que não é a verdadeira e que pode trazer desapontamento, tristeza e até mesmo outros danos emocionais mais sérios. "É importante lembrar que a responsabilidade afetiva deve ser aplicada em todas as nossas relações, é uma questão de ética, moral, empatia e seriedade com o sentir do outro."

Segundo Mara, a responsabilidade afetiva com parceiros amorosos se traduz em coerência entre sentimentos, a fala e as atitudes. "Dizer que ama quando não sente amor ou fazer promessas que não irá cumprir são comportamentos imaturos e doentios. No primeiro caso, é importante procurar ajuda para desenvolver as habilidades mínimas para saber se relacionar de modo adequado. No segundo caso, trata-se de um comportamento predatório em que o indivíduo escolhe as vítimas por seus perfis vulneráveis, em geral pessoas inocentes ou carentes, predispostas a acreditar e a se envolverem com agressores por não conseguir reconhecer a crueldade por trás do comportamento da manipulação, mentiras seguidas de bajulações", diz a psicóloga, que conclui: "A responsabilidade afetiva torna as pessoas admiráveis e respeitáveis. Ainda que frustre as expectativas de outros, ela será vista como alguém honesto, um sujeito em quem se pode confiar."

 

Irresponsabilidade afetiva nas redes

Para a psiquiatra e terapeuta Lívia Penteado, a responsabilidade afetiva é não manipular o sentimento do outro só para o seu bem próprio, ou seja, ter responsabilidade afetiva é ser sincero sobre o que você sente pela pessoa com quem está se relacionando e o que espera dessa troca que pode ser no mundo real ou até virtual. "O mundo virtual permite um anonimato que pode ser usado para o bem ou para o mal. Para o bem quando facilita aproximação, ajuda vencer timidez, distâncias e aumenta as possibilidades de conexão. Para o mal quando facilita o crescimento de um comportamento de irresponsabilidade afetiva", diz. Ainda segundo a especialista, por meio de uma tela de computador ou celular é muito mais fácil dizer a alguém que está encantado, por exemplo. "Esse anonimato facilita as pessoas que tem um mal comportamento a poderem agir tranquilamente sem ter nenhuma repreensão social."

No entanto, a psiquiatra e terapeuta afirma que a tecnologia e as redes sociais não são as culpadas pela irresponsabilidade afetiva, elas só facilitaram as coisas. "Quem não for assim, não agirá dessa maneira em nenhuma situação", ressalta Lívia.

Além disso, segundo a terapeuta Patrícia Cotrim, a tecnologia tem 'desconectado' afetivamente muitos casais. Ela explica que, com as redes sociais, os casais estão cada vez mais distantes. "Tem casais que estão na mesma casa e conversam pelo celular, a cada dia menos diálogos acontecem, e isso vai distanciando e desgastando cada vez mais os relacionamentos. Hoje, poucos casais saem de mãos dadas, fazem uma caminhada juntos ou simplesmente sentam para conversar como foi o seu dia. A tecnologia tem preenchido todos esses horários e os resultados são casais mais desconectados afetivamente", alerta.

"Para se viver com amor é preciso transmitir o amor. Se você quer continuar seu relacionamento de uma forma amorosa com seu parceiro, respeite suas diferenças e busque algo de bom que vocês possam fazer juntos. Fale palavras de carinho, parabenize e reforce sempre as suas qualidades, assim seu relacionamento criará cada dia mais força e crescerão juntos no amor", finaliza a terapeuta Patrícia.

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