IMG-LOGO
Home Comportamento

Dias de luta

Alexandre Caprio - 01/05/2021 00:20

Olá Alexandre e redação da revista Vida&Arte. Eu me chamo A. B. F., tenho 32 anos e estou noiva. Somando namoro e noivado já são seis anos desde que o conheci. Ele é cinco anos mais velho do que eu e sempre foi muito esforçado. Até 2017, ele trabalhava em uma academia e fazia faculdade de educação física a noite. Mal tínhamos tempo juntos. Em 2018, ele já estava formado. Daí nós reunimos todas as nossas economias, fizemos um empréstimo e investimos em uma academia no nosso bairro aqui em Rio Preto. Compramos tudo novinho. Abríamos às seis da manhã e fechávamos às dez da noite. Quando estávamos quase acabando de quitar o investimento que tínhamos feito, chegou a pandemia e virou nossa vida do avesso. No começo, resistimos até bem. Mas, desde o final do ano passado ele desmoronou. O nosso dinheiro acabou, perdemos nossos clientes e os juros do investimento começaram a subir muito rápido. Ele começou a beber. Primeiro uma cerveja ou outra. Depois todos os dias. Nossa família ajuda como pode, mas nossa situação é realmente crítica e estamos prestes e vender as máquinas e entregar o imóvel. Ele não conversa mais comigo. Só lê notícias no celular e bebe. Já está em torno de seis latas por dia. Engordou muito e perdeu completamente a vaidade. Parece que envelheceu uns 10 anos. Nossa vida íntima também deixou de existir. Estou desesperada sem saber o que fazer. Por favor, me ajude!

Talvez essa seja uma das cartas mais dramáticas e tristes que nossa equipe já recebeu. E, infelizmente, ela reflete a realidade de muitos de nós. Antes da pandemia, havia um investimento certo e inabalável: a aglomeração. Estádios de futebol, esportes em geral, academias de ginástica, shows, casas noturnas, bares, restaurantes, escolas, faculdades, simpósios, convenções, seminários, excursões, hotéis, datas comemorativas, tudo o que pudermos imaginar tinha como enfoque unir indivíduos em algum lugar. Com a pandemia, uma quantidade exorbitante de pessoas viu seu chão mais sólido e inabalável desmoronar por completo. Sim, existem profissionais bons e dignos passando necessidade de uma forma que não conseguem expressar, tamanha a vergonha que sentem. Uma colega que sempre teve uma vida tranquila me disse recentemente que não imaginava chegar a um momento da vida em que contaria moedas. Prestadores de serviços e pequenos comerciantes estão perdendo o pouco que conseguiram conquistar em um país com uma carga tributária já tão difícil. Claro que, diante de um panorama como esse, o consumo de válvulas de escape como as drogas (lícitas e ilícitas) explodem também. Seu noivo bebe e olha para o celular na esperança e suportar esse momento enquanto o tempo se esvai e o navio de vocês afunda. Entendo o sofrimento dele, mas não é assim que vocês conseguirão superar uma situação tão difícil. A bebida gera dependência rápida, além de potencializar transtornos mentais como a depressão, que só tirará mais energia dele. Ele está engordando de forma acelerada também, o que nos levanta a suspeita de que o metabolismo está caindo com o uso constante do álcool e a ausência de exercícios. Isso afeta diretamente a cognição e a memória, dificultando ainda mais a resolução de problemas. Ou seja, é uma bola de neve, girando e crescendo cada vez mais. Tente conscientizá-lo desses agravantes, envolva a família (desde que ajudem ao invés de atrapalhar) e, se possível, busque um psicólogo especializado em dependência alcoólica para uma orientação inicial e/ou acompanhamento. Dentro da terapia cognitivo-comportamental criamos juntos, paciente e terapeuta, soluções práticas que podem ser aplicadas em nossas rotinas para minimizar e até solucionar problemas afetivos, familiares e profissionais. Tenha a certeza de que o pouco de recursos que resta em caixa será melhor empregado em um acompanhamento profissional do que em mais de 40 latas de cerveja por semana (fiz as contas aqui e fiquei impressionado, acho que o tratamento fica até mais barato). Não desistam. Os bons não podem desistir. Se resistir não tem funcionado, talvez a solução seja se readaptar, mudar, mesmo que provisoriamente para ganhar algum fôlego. Somem forças à família, aos amigos de verdade e a profissionais competentes que vocês conseguirão superar essa tempestade, que já levou muitos, mas que ainda verá em nossos olhos toda a força, coragem e persistência de nossos corações.

“Nem você, nem ninguém baterá tão forte quanto a vida. Mas não importa o quanto você bate, e sim o quanto agüenta apanhar, levantar e continuar lutando. Assim é a vida e é assim que se vence.” Rocky Balboa – BALBOA, 2006.


Envie suas dúvidas sobre relacionamento para o psicólogo cognitivo-comportamental Alexandre Caprio: [email protected]

Editorias:
Comportamento
Compartilhe: