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Terapia online oferece bons resultados, segundo profissionais e pacientes

Francine Moreno - 20/03/2021 17:11

Desde março do ano passado, quando Rio Preto confirmou o primeiro caso da Covid-19, os atendimentos de saúde presenciais tiveram que ser substituídos pelos virtuais. Foi o caso das terapias psicológicas, que passaram a ser feitas por videochamadas de WhatsApp ou Skype, ligações comuns e até por meio de reuniões em aplicativos de reuniões, como Zoom. Na época, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) incentivou o trabalho remoto com o objetivo de evitar a contaminação do coronavírus e exigiu que o profissional seguisse as mesmas linhas e cuidados do atendimento presencial.

Neste um ano de pandemia, o recurso ajudou muitas pessoas que estavam e ainda estão passando por um momento de grande de fragilidade e anseios. Especialistas fazem um balanço desse período e revelam que, apesar de todas as dificuldades, profissionais e pacientes conseguiram manter um vínculo positivo. O que não faltou foi acolhimento, informação e orientação. Muitas pessoas que faziam tratamento presencial continuaram com as sessões online, apesar do estranhamento do início, e outras buscaram ajuda neste período da pandemia e se adaptaram muito bem com a sessão virtual.

A estagiária de pedagogia Débora Rosseto Mota, de 26 anos, é uma delas. Depois de vivenciar uma separação durante a pandemia, ela passou a ter crises de ansiedade. "Achava que não era capaz de fazer nada e tinha noites que acordava sem ar, pois achava que estava com a covid. Fui atrás de ajuda e encontrei a psicóloga Mariana Vidotti, que foi a melhor escolha que eu fiz por mim. Todo mundo deveria fazer terapia. Na terceira semana, eu já estava muito melhor, não tinha crises e comecei a descobrir vários dons, coisas que eu não acreditava que eu era capaz de fazer."

Para Débora, a terapia online, pelo Skype, deu um norte para a sua vida. "Eu sempre fui muito bloqueada, achava que não arrumaria emprego ou conseguiria fazer uma prova da faculdade, ou até mesmo que alguém poderia gostar de mim. Hoje, uma das coisas que me ajudam a controlar a minha ansiedade é pensar: 'eu tenho controle sobre isso? Eu tenho controle sobre o que falam? Não, não tenho, então vou ficar em paz e deixar as coisas acontecerem no tempo de Deus'. Hoje estou bem mais leve, mas ainda tenho crises. Porém, sei lidar com elas e elas passam bem rápido."

Mara Lúcia Madureira, psicóloga cognitivo-comportamental, afirma que o atendimento online foi uma alternativa necessária e muito bem-sucedida no contexto da pandemia. "Graças a esse recurso, foi possível garantir a assistência psicológica às pessoas e manter os profissionais em suas atividades." Diante da gravidade da pandemia e do aumento da demanda por esse serviço, a tecnologia foi a solução, segundo Mara. "Para aqueles que se dispuseram a trabalhar dessa maneira, o processo psicoterápico não foi interrompido e os resultados se mantiveram no mesmo nível do atendimento presencial."

Desde 2015, a professora de matemática Luciana Alcantara de Toledo sabe da importância da terapia em sua vida e por isso optou pelo acompanhamento online, a partir de março do ano passado, para ficar em equilíbrio. "Fazer terapia online durante a quarentena foi muito reconfortante e muito interessante, pois pude me sentir acolhida e apoiada nesse momento de isolamento social." Segundo Luciana, as duas formas de fazer terapia, online e presencial, são boas. "Quando acontecer algum imprevisto em tempos normais, após a pandemia, é bom saber que podemos contar com a possibilidade do online também", afirma a professora.

Para a psicóloga Luciana Vera Crepaldi, os atendimentos online têm sido muito importantes e necessários durante a pandemia, pois permitem que os profissionais estejam próximos, apesar da distância física. "Entramos na casa uns dos outros. Através do vídeo podemos ver os quadros na parede, as plantas e um pouco da dinâmica dessa casa. O profissional, com esse encontro mais íntimo e com as técnicas que possui, consegue ajudar melhor o paciente nessa caminhada rumo à compreensão e transformação das suas dificuldades."

 

Como lidar com ansiedade em tempos de coronavírus

Os motivos que levam as pessoas a buscar psicoterapia são os mais diversos, porém, nesse momento, segundo a psicóloga Mara Lúcia Madureira, o risco de contaminação pelo coronavírus, o luto, as incertezas sobre o futuro, as quedas nos rendimentos, o risco ou a perda efetiva de empregos e fechamento de estabelecimentos comerciais contribuíram para o aumento dos quadros de ansiedade, insônia e depressão.

A estudante Paula (nome fictício), de 20 anos, estava em Ilha Solteira durante o início da pandemia, quando sofreu uma crise de ansiedade. Sozinha e longe da família que mora em Rio Preto, ela pediu para ficar na casa de uma amiga até que seus pais conseguissem buscá-la. "Tive momentos terríveis. Achei até que ia enfartar porque meu coração parecia que ia explodir, não conseguia respirar direito e minhas mãos tremiam muito."

Já em Rio Preto, a garota buscou ajuda emocional. Ligou para sua psicóloga e pediu para voltar a fazer as sessões de terapia que tinha abandonado há cerca de um e meio, depois que passou na faculdade e se mudou da cidade. "Hoje, depois de quase um ano de terapia online, eu entendi que não posso ficar sem acompanhamento. Já tive depressão no passado e preciso de ajuda. Hoje estou muito bem e amparada, mas tenho muitas amigas que estão mal e não aceitam tratamento. Uma pena."

Manifestação de sintomas de ansiedade e de patologias comportamentais impulsionados pela pandemia da Covid-19 devem aumentar nas próximas semanas, em Rio Preto, por causa do aumento dos casos, internações em hospitais e números de mortes. Buscar informações corretas e qualificadas sobre a doença, para evitar a insegurança e o medo, é algo essencial para lidar com ansiedade em tempos de coronavírus.

A psicóloga Luciana Vera Crepaldi afirma que sentimentos de tristeza, medo, angústia e ansiedade são comuns durante a pandemia e muitas pessoas estão vivenciando em maior ou menor grau. "A melhor forma de lidar com eles é primeiramente identificá-los, perceber o que está sentindo e assim conseguirá trabalhar melhor suas emoções. Não se ocupar tanto com as notícias ruins e procurar fazer atividades prazerosas durante o dia podem ajudar muito."

Ter um projeto, seja ele pessoal ou profissional, segundo Luciana, pode te motivar e trazer sentimentos positivos. "Comece agora a fazer aquilo que sempre teve vontade e não encontrava tempo. Não hesite em procurar ajuda profissional. A psicoterapia tem ajudado muitas pessoas a passar por essa fase com maior leveza", afirma a psicóloga.

Nos últimos dias, em que a Prefeitura de Rio Preto decretou lockdown para frear o avanço da doença, muitas pessoas estão desesperadas por medo da contaminação, medo de perder emprego, luto ou outras questões particulares. Neste cenário, mais uma vez, a psicologia tem papel importante para acalmar os ânimos. "É preciso trabalhar com dados de realidade, isto é, identificar os riscos, dimensionar as consequências e planejar ações para o enfrentamento de cada situação específica. Mais do que conscientizar as pessoas sobre seus potenciais e limitações, é preciso ensinar-lhes técnicas de controle da ansiedade, modificação de pensamentos disfuncionais e comportamentos desadaptativos. Nos casos de luto, o acolhimento e suporte emocional são fundamentais", afirma a psicóloga Mara.

Separação, alcoolismo e discriminação

Muitas pesquisas servem para chamar a atenção para o fato de que a covid-19 não ataca apenas o aparelho respiratório, a doença também causa sequelas emocionais. A terapeuta integrativa Andrezza Ferrari, especialista em psicologia junguiana, afirma que, durante a pandemia, alguns aspectos ganharam destaque nas consultas, como as separações conjugais, o alcoolismo entre as mulheres e a dificuldade de voltar às relações normais de trabalho ou familiares por quem teve a doença.

Segundo a terapeuta, com o isolamento social, os casais tiveram a oportunidade de conviverem mais tempo em casa. "A cobrança pela divisão das tarefas e as responsabilidades parentais, aliadas às inseguranças profissionais, trouxeram um ambiente de frustração e decepção, fazendo com que muitos casais optassem pela separação como solução para sua agonia momentânea. Uma coisa que eu sempre procuro orientar, como especialista, é não se precipitar em momentos como este em que não estamos conseguindo pensar claramente. Quando estamos tomados de grande estresse, causado principalmente pelo medo, tendemos a agir por impulso, isto é, acionamos o nosso sistema límbico, a nossa parte mais primitiva que vai dar comandos de afastamento (fuga), combate (luta) ou letargia."

Um outro recurso muito comum utilizado para relaxar o estresse é o álcool, segundo Andrezza. "Neste ano difícil para todos, acompanhei algumas mulheres que começaram a tomar 'uma cervejinha' sozinhas, no final da tarde, para relaxarem e dormirem melhor e, quando se deram conta, perceberam que não conseguiam mais parar por conta própria e isso estava interferindo diretamente nas suas relações e atitudes."

Num primeiro momento, este ato simples de abrir uma bebida num dia de semana pode trazer uma ideia de liberdade, autonomia e independência, segundo Andrezza. "Mas quando esta decisão é tomada para induzir uma situação, na verdade queremos nos anestesiar para não ter de lidar com momentos difíceis, e, aí, os conceitos de antes se confrontam com a realidade inversa, ou seja, a dependência, a prisão mental e carência emocional. O melhor caminho é ser sincero consigo mesmo, procurar ajuda profissional para lidar com os medos da forma mais saudável possível, através do autoconhecimento."

As pessoas diagnosticadas com a Covid-19, segundo a terapeuta, tiveram de lidar com a discriminação, além dos sintomas físicos e emocionais. "Por ser uma doença de fácil contágio, o doente precisa avisar a todos de seu convívio e afastar-se do trabalho, ficando em quarentena. Ocorre que ao serem liberadas pelo médico, muitas pessoas que eram do convívio e que lhes são queridas, passam a olhar de outro jeito, distanciando-se. Este comportamento traz um sentimento de rejeição, de não pertencimento, e levam a casos de tristeza que precisam ser tratados", afirma.

Saiba mais

Os atendimentos online, desde que considerando o tempo adequado de uma sessão terapêutica, podem, sim, auxiliar, ainda que parcialmente, no alívio do estresse, na compreensão do medo e no equilíbrio emocional nesta época de pandemia. Outros recursos, que podem complementar o tratamento, são os exercícios da mente (como meditação), uma ocupação manual (pintura, bordado) e exercícios físicos aeróbicos (dança, caminhada, corrida). Fundamental, porém, é que não se perca a fé, a esperança, a positividade e se pratique expandir o amor ao próximo, com ações de caridade e compaixão; e expandir o autoamor, com menos autocrítica, mais paciência consigo mesmo, mais autoestima e sabendo que tudo um dia passa e deixa um rastro de conhecimento e aprendizado

Fonte: Andrezza Ferrari, terapeuta

 

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