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Rolando os dados: Relacionamento não é jogo para 1, mas para 2 players

Alexandre Caprio - 06/03/2021 00:20

Olá Alexandre. Meu marido não sai do videogame. Estamos casados há quatro anos e ele sempre gostou de jogar aquele negócio, mas piorou muito de uns tempos pra cá. Chega do trabalho, toma banho (pelo menos ainda está tomando banho), coloca uma bermuda rasgada horrorosa e come na sala assistindo jornal. Ele deve achar que é um porco na engorda, porque a barriga só cresce. Depois vai para um quarto que montamos como escritório. Daí não sai mais. Fica lá até uma hora da manhã. Não pode nem falar alguma coisa nessas horas porque ele diz que está online e os infelizes que estão jogando com ele podem escutar. Também não pode trocar uma lâmpada porque diz que não dá pra pausar jogo online. A vontade que eu tenho é de jogar tudo pela janela. Não saímos mais, não viajamos mais e quando ele vai deitar eu já estou no quinto sono porque acordo às seis pra dar tempo de pegar a circular e chegar no trabalho. Sem falar da nossa vida sexual que diminuiu, sei lá, uns 80%. É caso pra tratamento ou é só sem-vergonhice mesmo?

Olha só, mais um caso envolvendo jogos (e de novo online). Daqui a pouco vamos ter coluna específica para esse tipo de situação. Esclarecedor o seu texto. Me faz querer saber detalhes. Vocês moram em casa ou apartamento? Porque jogar o videogame pela janela de um apartamento pode ser muito perigoso pra quem está passando lá embaixo! Se for o primeiro modelo do Xbox One então, pode atravessar o motor de um carro e abrir um buraco no asfalto. E, se você está disposta a jogar coisas pela janela, porque não começar pela bermuda rasgada e horrorosa? Bom, mas vamos à resposta. Como já mencionei da outra vez, sou fã dos jogos eletrônicos e já joguei muito também. Mas, como diz aquele velho ditado, “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. Esporte, lazer, passatempos, jogos, sexo, internet e tantas outras coisas são muito legais, desde que tratadas com moderação. E quando sabemos se estamos moderando ou não? Simples, quando o resto de nossa vida, de nossos compromissos e nossas alianças não abandonadas para dar vazão apenas àquela atividade. Vamos direto ao seu exemplo. Ele decidiu se casar com você, certo? Então ele criou o compromisso de compartilharem uma vida juntos. Mas agora, sem desfazer esse compromisso, ele assumiu outro com os amigos, te deixando de molho por tempo indeterminado. Claro que isso gera uma ansiedade progressiva em você que, com o passar do tempo, começa a fazer mal. Entendo que um casal não deva nem precise fazer tudo juntos e que cada um tem direito ao seu momento particular. Mas quando anulamos outras áreas de nossas vidas para nos dedicarmos a uma atividade só, precisamos sim rever nossos conceitos e investigar o que poderia estar acontecendo. Ele deixou o casamento de lado, a saúde de lado, as viagens que vocês faziam de lado, a vida íntima de lado. Se não está trocando nem uma lâmpada, imagino então que os sonhos e projetos para o futuro também vão de mal a pior. Suspeito que ele esteja usando o jogo como válvula de escape para fugir da realidade. Seria necessária a ajuda de um profissional para identificar os motivos do universo digital ter se tornado mais interessante do que a vida real. Pode ser um problema de perda de confiança, desesperança, pressão no trabalho ou até mesmo desinteresse no relacionamento. A única certeza é que temos que investigar e tratar o quanto antes, porque enquanto ele mergulha no universo binário, seu relacionamento fica pausado. E relacionamento não é jogo para 1, mas para 2 players. Não sinta ciúme de um videogame. O problema pode ser realmente mais profundo e merece observação antes de acharmos que é simplesmente sem-vergonhice. No entanto, se depois de explicar e conversar calmamente ele não aceitar ajuda e quiser simplesmente impor essa condição a você, bom... aí talvez seja interessante você mudar de fase. Porque desaforo não é usar bermuda feia. Desaforo é sentar pra jogar o Jogo da Vida com alguém e essa pessoa achar que pode tirar um cochilo enquanto você espera a vez dela rolar os dados.

Envie suas dúvidas sobre relacionamento para o psicólogo cognitivo-comportamental Alexandre Caprio: [email protected]

 

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