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A criação dos filhos sob o olhar da psicanálise

Jessica Reis - 06/02/2021 00:18

Você já parou para pensar em como vai criar seus filhos ou formar as próximas gerações? Para responder a essa questão as psicanalistas Daniela Teperman, Thais Garrafa e Vera Iaconelli idealizaram uma coleção de livros "Parentalidade e Psicanálise" (Editora Autêntica) que traz um olhar da psicanálise para filhos, maternidade e família. A obra é dividida em 5 volumes: Parentalidade, Laço, Gênero (já publicados), Corpo e Tempo (ainda não publicados).

Parentalidade é um conjunto de valores e tarefas envolvidas na criação de uma criança. Ela pode ser exercida pelos pais, assim como por avós, padrasto, madrasta, tios, cuidadores, dependendo da configuração familiar.

Segundo uma das autoras, a coleção foi concebida como um material de estudos que aborda, a partir da psicanálise, temas fundamentais da parentalidade por meio de uma linguagem acessível a diferentes públicos. "É interessante para todos os que se dedicam ao tema, como jornalistas, educadores, pediatras, profissionais do direito, entre outros, pois a perspectiva psicanalítica difere amplamente discursos dogmáticos e normativos que têm circulado sobre o assunto", afirma Thais Garrafa.

Em entrevista à Vida&Arte, as psicanalistas falam sobre a importância de abordar temas como parentalidade e gênero nos dias atuais, além de como essas obras podem ajudar na formação de futuras gerações.

V&A - Qual a importância de abordar temas como parentalidade, laço e gênero atualmente?

Vera Iaconelli - A revolução cultural desencadeou o abalo de um dos pilares da nossa sociedade: o binarismo de gênero. Nos anos 1980, os estudos de gênero e feministas se mostraram incontornáveis para a psicanálise, que passou a ser acusada de ser heteronormativa. As discussões produzidas a partir de então se mostraram fundamentais para que esses diferentes campos de pesquisa produzissem um diálogo oportuno e promissor.
Pensar como uma geração dá lugar a outra a partir do laço social implica entender as questões próprias de cada época e o tipo de sofrimento psíquico que ela produz. Não poderíamos fazer isso sem levar em consideração o conceito de gênero. Tampouco os estudos de gênero o farão sem a psicanálise.

V&A - Como cada uma dessas obras (Parentalidade, Laço e Gênero) pode contribuir na criação dos filhos?

Daniela Teperman - Como a proposta da coleção é, por meio de uma linguagem acessível, mas nem por isso menos rigorosa, alcançar profissionais de diferentes áreas e atuações, acreditamos que os temas tratados em cada um dos volumes, por sua atualidade e relevância no laço social e na criação das crianças contribuirão para o olhar e para a escuta da criança, da família e da parentalidade em diversos contextos clínicos e institucionais. Entendemos que a coleção pode e precisa circular entre trabalhadores das áreas da saúde, da educação, assim como junto àqueles que atuam no judiciário. Um dos eixos centrais da coleção é a desidealização da família, da maternidade e da paternidade e o entendimento de que não estão garantidas pelo formato ou pela aparência da família as condições para a criação dos filhos. Com isso, se pretende rebater noções como a de competência ou eficiência na família - que tendem a atrapalhar os adultos no exercício das funções parentais -, autorizando uma transmissão singular, dentro do possível para cada um.

V&A - Como a psicanálise pode ajudar na formação das próximas gerações?

Daniela Teperman - A contribuição da psicanálise para o campo da família, da infância (das infâncias como os leitores poderão observar no volume Tempo), da adolescência, assim como para reflexões acerca do que se passa no laço social é ampla e irrestrita. Entendemos que a Coleção Parentalidade & Psicanálise, ao reunir textos de psicanalistas e de autores de outras áreas, implicados na pesquisa e no avanço das leituras sobre o que se passa na nossa época, atentos para os atravessamentos sociais e para as questões de gênero e raça, e sem perder de vista a nossa história terá impacto nas novas gerações. Esta é a nossa aposta!

V&A - A pandemia e a mudança de rotina nas famílias interferiram de alguma forma nos conceitos de parentalidade abordados por vocês?

Thais Garrafa - Não há interferência. A pandemia é um fenômeno social de extrema magnitude que adentrou o cotidiano das famílias e há de deixar marcas importantes nas relações entre pais e filhos, confinados a uma convivência intensiva sempre cedentes. No entanto, na Coleção, abordamos os conceitos relacionados à temática da parentalidade em sua perspectiva estrutural, o que, na psicanálise, circunscreve os elementos mínimos, fundamentais à constituição subjetiva e, portanto, presentes em todas as culturas e épocas. Um exemplo disso é a noção de "função materna", tal como estabelecida por Jacques Lacan, que se diferencia do "papel da mãe". O papel seria algo de ordem cultural, histórica, variável em cada sociedade enquanto a função se refere às condições de transmissão da linguagem, envolvendo os aspectos que fundam o sujeito do inconsciente. Esses elementos se atualizam de formas distintas em cada época, de modo que as chaves de leitura da psicanálise trazem uma importante contribuição para o estudo da parentalidade e de suas manifestações no cotidiano, uma vez que, por meio delas, podemos melhor compreender as relações entre estrutura e história.

V&A - Como surgiu a ideia da coleção Parentalidade & Psicanálise?

Vera Iaconelli - Daniela Teperman, Thais Garrafa e eu trabalhamos juntas há anos na Equipe Clínica e de Pesquisa da pós-graduação do Instituto Gerar de Psicanálise. Havia uma demanda permanente dos nossos alunos por textos que discutissem a parentalidade da forma crítica e atual como apresentamos no curso. Tínhamos a demanda nossa e dos nossos alunos, uma equipe de professores e colaboradores excepcionais e tivemos ainda carta branca da Editora Autêntica para produzir os livros em plena pandemia. O material era tanto, que organizamos cinco volumes a partir de eixos centrais. Obviamente, estamos longe de esgotar o tema, mas conseguimos juntos produzir um material que já nasce como referencia na área, preenchendo uma lacuna considerável na pesquisa sobre parentalidade a partir do referencial psicanalítico.

V&A - Quem deveria ler essa coleção (pais, professores...)?

Thais Garrafa - Coleção foi concebida como um material de estudos que aborda, a partir da psicanálise, temas fundamentais da parentalidade por meio de uma linguagem acessível a diferentes públicos. É interessante para todos os que se dedicam ao tema, como jornalistas, educadores, pediatras, profissionais do direito, entre outros, pois a perspectiva psicanalítica difere amplamente discursos dogmáticos e normativos que têm circulado sobre o assunto. Nesse sentido, também pode ser um material interessante para pais que estejam mais habituados a leituras e discussões teóricas.

 

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