IMG-LOGO
Home Comportamento

Guerra e paz

Alexandre Caprio - 06/02/2021 00:25

Alexandre, tenho um companheiro há quatro anos. Só não somos casados, mas moramos juntos. Quando nos conhecemos ele não era tão fanático por política, mas de uns anos pra cá ficou muito difícil lidar com ele. Ele já brigou com vários amigos nossos, com boa parte da minha família e fica atacando as pessoas nas redes sociais. Quanto mais as pessoas respondem, mais louco ele fica e acaba sobrando pra mim. Está sempre de mau humor dando lição de moral em todo mundo. Fico com medo de ir num aniversário ou qualquer lugar público porque ele só sabe falar de política e sempre age com muita ironia ou sarcasmo em relação a quem pensa diferente dele. Já pedi para ele parar com isso, mas não adianta. Devo procurar ajuda? Ele não aceita fazer terapia de casal e nem falar sozinho com um psicólogo.

Sim, acho que você deve procurar ajuda imediatamente. É nítido que o problema está no fanatismo dele, mas você vai ter que desenvolver habilidades para adestrar esse indivíduo. Pessoas com baixa autoestima não podem mudar de ideia. Quando entram em um debate, só falam, nunca ouvem. São sempre donos da razão e precisam esfregar suas ‘verdades’ nas caras dos outros o tempo todo. São carentes de poder, e ainda bem que não o têm, porque com certeza usariam muito mal. Se não são idolatrados, ficam furiosos e explodem de raiva. Tem gente assim na política, na religião, defendendo ideologias e causas sociais. Estão pelas ruas reais e vias digitais usando quem aparece na frente deles como degrau para se sentirem superiores. São tão agressivos e extremistas que, ao invés de conseguir a adesão das pessoas, criam exatamente o efeito oposto: fazem sua causa parecer cada vez mais ridícula e doentia. Latem ao invés de debater (perdão aos cães por tal analogia) e sacrificam a paz das pessoas que vivem ao seu redor como se não tivessem alternativa. A verdade é que seu parceiro usa uma figura política para inflar o próprio ego. Temos cada vez mais pessoas assim em todos os lugares, mas não somos obrigados a engolir esse tipo de situação. No seu caso, temos duas alternativas simples: ou ele muda ou você aguenta. Mas como sabemos, ele não é o tipo de pessoa que aceita ajuda ou que repensa suas crenças. Então, talvez ele tenha que correr o risco de perder a última pessoa que ainda está o aturando para refletir sobre o que é mais importante: o político de estimação ou a família. Caso você resolva ir pela segunda opção (a de aguentar) desejo muita sorte a você. Pessoas que aceleram no extremismo e fanatismo não passeiam pela vida, mas se lançam em um precipício, perdendo contatos sociais, oportunidades de emprego e ficando cada vez mais isoladas do mundo. E, claro, arrastam quem convivem com elas para esse buraco. Verdade seja dita, ninguém aguenta gente chata que passa a vida dando lição de moral nos outros. São deixadas de lado e tiradas das listas de confraternizações porque desmancham mais rodas do que adolescente dando cavalo de pau com o carro do pai. Dê a ele a chance de mudar, mas não se obrigue a seguir nessa situação se ele não quiser melhorar. A vida já nos traz problemas de verdade para esgotarmos nossas energias com delírios e obsessões desnecessárias. Se tudo der errado ele ainda pode pedir o político dele em casamento. Quem sabe, juntos, os dois deixem a guerra de lado, descubram a paz... e nos deixem em paz.

Envie suas dúvidas sobre relacionamento para o psicólogo cognitivo-comportamental Alexandre Caprio: [email protected]

Editorias:
Comportamento
Compartilhe: