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A constante busca pela felicidade

Jessica Reis - 05/09/2020 00:20

Uma rápida pesquisa no dicionário pela palavra 'felicidade' e as explicações são: sensação real de satisfação plena; estado de contentamento, de satisfação. Condição da pessoa feliz, satisfeita, alegre, contente. Mas será que o dicionário pode responder tudo, inclusive definir o que é felicidade? A felicidade é uma busca constante do ser humano e depende de vários fatores, aliás existem várias formas de felicidade, segundo Luiz Felipe Pondé, filósofo, escritor, diretor do laboratório de política, comportamento e mídia da PUCSP, professor da FAAP e colunista da Folha de São Paulo, em entrevista à revista Vida&Arte.

"Se você olhar para a história da Filosofia tem épocas em que se acha que não realizar muitos desejos é felicidade, manter o desejo longe deixa você mais feliz. Hoje, a gente acha que ser feliz é realizar o desejo. Eu acho que a busca da felicidade é uma das grandes causas de infelicidade do mundo contemporâneo. A obsessão pela felicidade e a obsessão pelo sucesso, pela prosperidade causa muita ansiedade e depressão, mas isso não vai melhorar, vai continuar assim, porque o sistema capitalista produz competição, superação, o tempo inteiro", diz Pondé.

Em um vídeo, o professor fala que não gosta da discussão autoajuda em torno do tema felicidade e ele explica o porquê: "Autoajuda é um mercado, quem vende autoajuda ganha milhões e as pessoas adoram, acham lindo falar palavras bonitas e confortáveis. Uma das características da felicidade é você se sentir mais calmo. Quando se sente mais calmo, produz uma menor ansiedade naquele momento. Mas a prova de que os esquemas de autoajuda não funcionam é que toda hora você tem que procurar um novo. É um mercado e nenhum deles funciona, porque o ser humano nunca é plenamente feliz. A felicidade é o estado de espírito, ele é atravessado por todo tipo de contingência, depende de pessoas, depende de dinheiro, depende de saúde que é uma variável extremamente contingencial".

O professor ainda exemplifica e menciona o caso da pandemia, em que é necessário fazer escolhas, como, ficar em casa e se cuidar, ou sair porque precisa ganhar dinheiro. E continua: "Depende dos estados de espírito. Se você é uma pessoa mais depressiva, se você não é, se você tem uma história familiar pior ou melhor, se você é uma pessoa mais dada ou mais tranquila. Se você é mais generoso ou mais mesquinho. Eu acho que os mesquinhos são menos felizes. São tantas variáveis, por isso que eu acho que toda discussão de felicidade é mentirosa. Aliás tem um tema interessante também que é o seguinte: a ideia da felicidade associada ao encontro do significado na vida. No nosso tempo eu acho que uma das forças mais ativas em você ter um estado de espírito mais feliz é ter significado o trabalho que você faz, porque se passa muito tempo trabalhando", afirma o filósofo.

Mas a pergunta que todos devem se fazer é porque o ser humano busca incansavelmente pela felicidade, por que tanta obsessão? "Porque a vida é infeliz em grande parte. É normal em certa medida. Você adoece, você morre e você perde pessoas que você ama, você fica pobre, você é traído, te passam para trás, você tem um governo que te rouba, ou você tem um governo que é injusto ou no trabalho não consegue chegar onde você quer, ou você é obrigado a trabalhar no que não gosta. Você é obrigado a transar com quem não quer, ou você quer transar com alguém que não quer transar com você. São muitos os motivos para a infelicidade, então é natural que a gente tente ter uma vida um pouco menos sofrida. Agora, hoje eu acho que essa obsessão de felicidade já é um produto: ser feliz em tudo. Ter os sentimentos certos, a comida certa, ter o filho certo, o relacionamento perfeito, o rosto perfeito, aí já é uma doença", finaliza Pondé.

 

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