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É hora de buscar novos caminhos

Jessica Reis - 05/09/2020 00:05

Você sente que está desperdiçando sua vida durante o isolamento social? Infelizmente, você não está sozinho. Esse é um sentimento comum entre as pessoas que estão vendo os dias passar sem poder comemorar com seus amigos e familiares, por exemplo, um aniversário, ou que teve que adiar a festa de casamento. Esse foi um dos temas abordados em um artigo da escritora Martha Medeiros, autora de 24 livros, colunista dos jornais O Globo e Zero Hora, entre outros.

Em entrevista à revista Vida&Arte, Martha, que está finalizando um livro de ficção, fala sobre como lidar com esse momento, como tirar coisas positivas do isolamento e esse período de distanciamento deveria ser usado para as pessoas olharem mais para si. "É nestes momentos de necessidade que a gente se desacomoda e busca novos caminhos", diz a escritora.

V&A - Em um texto seu publicado recentemente você começa dizendo: "As pessoas têm reclamado da quantidade de vida que estão desperdiçando durante o isolamento social". Como lidar com esse "desperdício de vida", já que há uma sensação de 'perda', não só de vidas, mas de momentos como uma simples comemoração de aniversário?

Martha Medeiros - Reavaliando nosso conceito sobre a vida. Continuamos a achar que só quando estamos muito ocupados é que estamos vivendo. Não é verdade. Há vida no silêncio, no sossego, na contemplação. É provável que não passemos por outra pandemia como esta, tomara que seja um episódio único em nossas vidas, então, em vez de apenas reclamar - e sei que há muitos motivos para isso - devemos extrair algum benefício dessa loucura toda. É uma oportunidade para nos tornarmos mais íntimos de nós mesmos, descobrir quais são os nossos reais desejos. É ótimo fazer festa, estar cercado de gente e ter a agenda cheia, mas o excesso de distrações nos deixava sem tempo para nos escutar internamente.

V&A - É possível tirar coisas boas desse momento de isolamento, dá para aproveitar de alguma forma?

Martha Medeiros - Eu estou aproveitando para concluir um livro de ficção e para me familiarizar mais com as plataformas digitais: nunca tinha feito uma live na vida, e agora elas são várias, semanais. Estou lendo mais do que antes. Estou exercitando a paciência (quem não?). Ando menos vaidosa por força das circunstâncias: cabelo, manicure, tudo isso deixou de ser tão importante. Sei que voltarei a me cuidar quando tudo passar, mas descobri que não preciso lutar diariamente contra o espelho. Enfim, sei que tem muita gente que está sofrendo por não poder trabalhar, por perder clientes, por contrair dívidas. Sou uma privilegiada, mas todos nós estamos passando por algum processo de adaptação. Alguma energia transformadora essa pandemia tem que irradiar.

V&A - Esse período de distanciamento deveria ser usado para as pessoas olharem mais para si, se conhecerem mais, descobrir coisas que gostam de fazer?

Martha Medeiros - Sim, muita gente está se dedicando a atividades que nunca haviam nem cogitado. Uma amiga, assessora de marketing, descobriu que quer mesmo é trabalhar com gastronomia. Outra amiga abriu um brechó virtual. É preciso se virar. É nestes momentos de necessidade que a gente se desacomoda e busca novos caminhos.

V&A - Qual é a tarefa mais urgente neste momento? Como o tempo deveria ser melhor aproveitado? O que agrega valor nas nossas vidas?

Martha Medeiros - O mais urgente é cuidar da própria saúde para que a gente possa contribuir para a saúde dos outros. Somos elos de uma mesma corrente. O individualismo não está mais com nada. Não gosta de usar máscara? Ninguém gosta, mas tem que usar. E lavar as mãos com frequência. E manter distanciamento uns dos outros. As autoridades não estão pedindo nenhum absurdo, isso é o mínimo que podemos fazer para que a gente saia mais rápido dessa situação. E é um belo exercício de coletividade e empatia.

V&A - Vamos falar um pouco sobre relacionamentos, que também foram muito afetados durante essa pandemia. Muitos casais têm se separado, mas outros têm se reencontrado. Como você avalia as relações em tempos de isolamento social, em que o casal está mais junto, sem muito contato com os amigos?

Martha Medeiros - Ah, cada casal é que sabe o que está acontecendo entre quatro paredes. Não acredito que as relações mudarão radicalmente, é mais provável que a energia dominante do casal fique mais acentuada, para o bem e para o mal. Se a relação já estava desgastada, pode acabar de vez. Se o clima era amistoso, a relação deverá sobreviver sem sequelas. Mas, seja como for, o grude é sempre complicado. Meu caso é diferente, tenho um namorado e não vivemos juntos. A gente se encontra nos finais de semana, ele mora sozinho numa casa na beira do rio, um lugar aberto, ventilado. Uma benção! Não é confinamento, e sim lua de mel. Mas não responderia por mim caso estivéssemos trancafiados juntos num apartamento todo santo dia (risos).

V&A - A sua vida, o seu dia a dia mudou muito com o isolamento social? Do que mais sente falta?

Martha Medeiros - Não mudou muito, não. Eu trabalho em casa há mais de 20 anos, então estou habituada. Tenho saudade de ir ao cinema e ao teatro, apesar de haver muitas opções online. E sinto muita falta de viajar. Eu vivia em aeroportos, indo para lá e para cá cumprindo compromissos profissionais. Minha filha mais velha mora na França, tínhamos programado passar juntas seu aniversário, em junho, mas não foi possível e agora os brasileiros estão impedidos de entrar na Europa. Não sei quando irei revê-la. Essa sensação de impotência é o que mais me incomoda.

V&A - Tem algum projeto em andamento, algum livro previsto para ser lançado?

Martha Medeiros - No fim do ano lançarei um novo livro de ficção, um romance que está sendo concluído agora. Ainda não defini o título. E em 2021 pretendo relançar uma pequena novela que está esgotada, "Noite em claro", junto com alguns poemas inéditos, tudo num mesmo volume. Ano que vem faz 20 anos que não publico poesia, está na hora de voltar a este gênero que, felizmente, ainda agrada uma boa parcela de leitores.

 

Confira trechos de artigos de Martha Medeiros

"As pessoas têm reclamado da quantidade de vida que estão desperdiçando durante o isolamento social. A sensação é de que 2020 já era, foi um ano morto. Há quem inclusive faça piada dizendo que não trocará de idade, manterá a do
ano passado, até
que possa festejar seu aniversário de novo.

É natural acreditar que a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados. Ao cumprir inúmeras tarefas, utilizando todas as horas do dia com atividades práticas, parece que conseguimos manter a morte à distância - brincando de Deus, nosso hobby…"

(A Vida e o Tempo, Martha Medeiros)


"Lavar as mãos, usar máscara e evitar aglomerações: já estamos nos acostumando. Poderíamos nos acostumar agora com o desprestígio da ostentação e do consumismo delirante. Continuaremos comprando comida, roupas e remédios, precisaremos de um bom teto como sempre precisamos, mas nossos luxos talvez mudem - tomara que mudem. Hora de privilegiar as questões humanas, se soubermos aproveitar a oportunidade.

Não chego a falar de um renascimento espiritual, que soaria pomposo, mas acredito, sim, que a tendência é reavaliarmos nosso estilo de vida. As grandes metrópoles se tornaram zonas de contágio, e um êxodo urbano não seria má ideia: sair em busca de desintoxicação, mais atividades ao ar livre, cidades menores, menos concentração populacional…"

(E se não passar?, Martha Medeiros

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