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Consultório sentimental: Game over

Alexandre Caprio - 01/08/2020 00:24

Olá equipe da revista Vida&Arte. Me chamo M. E. M., tenho 22 anos e estou em um namoro há 1 ano e 2 meses com um rapaz de 26 anos. Trabalho em um escritório de contabilidade e meu namorado em uma loja de materiais elétricos. No começo do namoro ficávamos muito tempo juntos, passeávamos mais e fazíamos muitos planos para nossas vidas profissionais. Ele dizia que não queria ser funcionário para sempre, que iria abrir a própria loja e que sabia muito mais do que o chefe dele. Agora parece que ele acomodou bastante. Ele sempre gostou muito de jogos eletrônicos e passa várias noites jogando online. No começo eu achava normal, mas agora ando me irritando porque ele passa quase todo o tempo livre jogando. Se eu reclamo, ele diz que estou implicando com o lazer dele e que isso é injusto, levando em conta a quantidade de desaforos que aguenta no trabalho. Será que isso é um lazer mesmo ou será que ele está evitando lidar com a realidade? É que estou desanimando e não sei se vou querer continuar o relacionamento se as coisas ficarem assim.

Essa é uma situação que vêm se repetindo com frequência atualmente e levantando um grande estigma em torno dos jogos eletrônicos. Mas, na verdade, a análise deveria ser feita não só em relação aos games, mas sim em relação ao que chamamos de ‘válvulas de escape’. Quando a vida não flui da forma como previmos, podemos fazer duas coisas com nosso tempo e energia: usá-los para modificar nossa realidade ou para fugirmos dela. Tudo aquilo que nos dá prazer pode se tornar um lazer, se feito de forma comedida, ou uma compulsão de feito de forma exagerada. Comer é essencial para ficar vivo, mas comer demais pode acabar com a saúde. Jogar pode ser maravilhoso para abstrair, mas jogar demais pode aumentar a estafa e o desgaste. Até mesmo a água, cuja ausência nos mata de sede, pode nos afogar em excesso. Em resumo, a diferença entre o veneno e o remédio é a dose. Por isso, uma ressalva de continuarmos: a responsabilidade sempre é do usuário, jamais do instrumento. Se os videogames fossem responsabilizados no lugar das pessoas, teríamos que incluir nesse pacote filmes, livros, músicas e todo o resto do mundo. Além disso, teríamos que libertar todos os criminosos que utilizaram algum instrumento para matar, porque a culpa seria sempre da arma, nunca de quem a usou. Mas, voltando ao seu namoro, é perfeitamente compreensível a sua chateação, porque você vê seu namorado gastar todo o tempo que ele poderia usar na melhoria da vida profissional em uma atividade que não gera nenhum tipo de retorno para vocês dois. Esse é um grande ponto de frustração das mulheres nos relacionamentos. O cara diz que vai construir um castelo, mas gasta todas as horas livres de todos os dias com coisas que não levam a nada. E as semanas vão se passando sem que ele empilhe sequer três tijolos. Passado um tempo, você começa a desconfiar de que, talvez, ele tenha se acomodado e deixado tudo que idealizava de lado. E se você acabar concluindo isso, sua admiração por ele vai desmoronar, levando junto o amor. Antes que isso aconteça, você deve tentar um reajuste. Bata um papo claro e amigável, sem ironia ou sarcasmo. Primeiro tente um alinhamento de objetivos. Pergunte se ele realmente quer crescer e se os sonhos antigos ainda estão de pé. No caso de uma resposta afirmativa, peça para explicar qual seria a estratégia para que isso acontecesse. A resposta para isso inevitavelmente envolveria algum tipo de comprometimento. Se ele começar a dedicar pelo menos uma hora por dia a uma leitura ou curso, já teremos um progresso e isso já mereceria um crédito de confiança. Se permanecer irredutível, ainda temos o recurso da terapia de casal ou até mesmo de uma terapia individual para ele. Um possível transtorno de depressão pode estar oculto e vale a pena uma investigação por um profissional qualificado. Mas, se ele não quiser conversar e não aceitar nenhuma mudança, talvez seja interessante você repensar a sua vida sozinha. Porque se ele preferir continuar tentando salvar a princesa ao invés de construir um futuro juntos, pode ser que vocês estejam diante de um GAME OVER e não dê um CONTINUE.

Envie suas dúvidas para sobre relacionamento para o Psicólogo Cognitivo-comportamental Alexandre Caprio: [email protected]

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