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O que a vida pode nos ensinar?

Jessica Reis - 06/06/2020 00:05

"Nós gostamos de viver. A gente não quer apenas sobreviver. É que neste momento, agora durante a pandemia, nós estamos fazendo um esforço imenso para sobreviver e, portanto, adiando um pouco das coisas que nós entendemos como o bem viver", diz o filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortella. Ele lançou recentemente, com o também filósofo Leandro Karnal, a obra "Viver, a que se destina?" (Editora Papirus 7 Mares) e que, apesar de ser escrita em 2019, parecia prever tudo o que estava por vir em 2020 e ajuda a pensar a própria vida.

Dias difíceis que mostram que realmente 'viver é muito perigoso', como o próprio professor faz referência à obra de Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas". No entanto, Cortella também diz que é um momento de grande aprendizado e a saída será a solidariedade. "Só a solidariedade, a construção, especialmente, do modo de convivência que seja capaz de compaixão e empatia vai permitir que a gente serene um pouco todo tipo de turbulência que agora vivemos", afirma.

Em entrevista exclusiva à revista Vida&Arte, Mario Sergio Cortella fala sobre seu novo livro, sobre o momento atual e o que a vida tem nos ensinado. O professor, filósofo e autor best-seller de aproximadamente 40 livros também reflete sobre o que é uma vida bem vivida e consciente.

V&A - Professor, o senhor e o Leandro Karnal lançaram recentemente o livro 'Viver, a que se destina?' (Editora Papirus 7 Mares). No livro vocês debatem algumas questões como: Qual o sentido da vida? Porque estamos aqui? Somos mesmo livres? Temas que têm tudo a ver com o momento em que estamos passando com a pandemia do novo coronavírus, um momento de dúvidas. O que esse livro pode nos ensinar?

Mario Sergio Cortella - Este livro foi pensado, escrito e trabalhado em 2019, quando nem se imaginava que 2020 ia nos dar essa forma de susto imenso que nós tivemos, especialmente no Brasil, a partir do início de março de 2020. Portanto, o título do livro é especialmente colocado com um ponto de interrogação ao final, porque ele não é uma prescrição. Ele não é viver a que se destina, em que nós estamos prescrevendo, Leandro Karnal e eu, como as pessoas devem fazer e existir. O ponto de interrogação ajuda a ter uma reflexão que, mesmo construída em 2019, se fosse feito agora, se ele tivesse sido produzido neste momento, ele ficaria muito mais agoniante até, porque afinal de contas uma parte das grandes questões que nós hoje temos estão ligados a porque isso, por qual razão, se existe alternativa. Pessoas que têm uma prática religiosa ficam olhando mais ou menos estupefatas pensando 'cadê aquele apoio' e 'porque não', 'porque sim'. Então há toda uma série de agonias que estão circulando ao nosso lado e que torna o título do livro 'Viver, a que se destina?' uma atualidade muito forte exatamente para a gente poder pensar a própria vida.

V&A - Viver é um desafio contínuo, especialmente nesse momento em que não temos muitas perspectivas do futuro, do que está por vir, de quando tudo isso vai passar?

Cortella - Guimarães Rosa colocou no seu estupendo livro 'Grande Sertão: Veredas' (1956) algo que é por várias vezes dito por Riobaldo, personagem principal. Uma ou outra vez durante a obra Riobaldo diz 'viver é muito perigoso', mas tem uma das vezes em que Riobaldo completa a frase em algo que agora de fato não só é assustador, como muito próximo a nós. Um dos momentos Riobaldo diz 'viver é muito perigoso, sempre acaba em morte'. É claro que a frase está ligada à ideia da nossa mortalidade. Nós sabemos que somos mortais, temos clareza da nossa mortalidade, mas queremos primeiro adiar o momento do término da nossa vida e segundo não queremos que a nossa vida, enquanto esse término não vem, que ela seja inútil, banal e apenas sofrimento. Nós gostamos de viver. A gente não quer apenas sobreviver. É que neste momento, agora durante a pandemia, nós estamos fazendo um esforço imenso para sobreviver e, portanto, adiando um pouco das coisas que nós entendemos como o bem viver. Quando a sobrevivência é absolutamente emergente e urgente, a vivência com aquilo que desejamos, gostaríamos do campo dos nossos desejos e também das nossas carências fica adiada momentaneamente, por isso que, sem dúvida, viver é perigoso como lembrava Guimarães. Existir é algo que nos dá um trabalho imenso, mas nós não desejamos deixar isto que é a nossa existência com tanta tranquilidade, tanto que quando alguém tira, por exemplo, a própria vida nós sempre nos perguntamos 'mas porque', se o bem maior era a vida, porque descartou isso.

V&A - Como lidar e o que podemos aprender com esse período de quarentena?

Cortella - Nós aprendemos três coisas fortes neste momento. Primeiro que nós não somos como espécie, como humanidade tão poderosos face a outras situações da natureza como imaginávamos. Há formas de existência na vida, embora não se classifica até agora um vírus como um ser vivo, ainda assim isso para nós é indiferente, é uma outra forma de ser que neste momento nos coloca num perigo imenso e a nossa onipotência foi colocada à prova. Nós somos frágeis, mesmo tendo grandes ferramentas para o enfrentamento, ainda assim somos frágeis e esse aprendizado é de um pouco mais de humildade.

O segundo grande aprendizado é que há outras formas de trabalhar e viver que não, exclusivamente, no modo como vínhamos fazendo pré-pandemia. Não só o trabalho mais à distância, como também uma economia maior de recursos para viver. O fato de muita gente estar hoje dentro de casa sem ter uma atividade essencial que a leve a sair faz com que ela precisa economizar roupa, economizar alimentos, economizar até louça porque é ela mesma que terá que dar conta daquilo. O terceiro é o aprendizado de que a convivência quando intensa e contínua, se ela não tiver uma afetividade no respeito recíproco muito grande, ela pode ser entediante e agressiva. Afinal de contas não estamos tão habituados a pessoas que pré-pandemia e, talvez pós-pandemia, adiem a chegada em casa, exatamente porque não querem encontrar outras pessoas com as quais convivem e, agora, esse modo necessário de reclusão faz com que as pessoas possam se conhecer mais por conta do convívio e, eventualmente, não gostar mais também dessa mesma convivência. Como não há possibilidade, a menos que se queira arriscar a própria integridade, de romper com essa convivência de uma maneira veloz, será preciso lidar bem com isso. E a única forma de fazê-la, como eu dizia, é o respeito recíproco e a edificação.

V&A - O senhor acredita que as pessoas serão transformadas positivamente após a pandemia?

Cortella - Não necessariamente. Tenho uma certa suspeita de que uma parcela pela própria demonstração que dá hoje de desrespeito àquilo que são as medidas sanitárias de proteção coletiva e não só individual. Se pessoas hoje já têm atitudes desrespeitosas em relação às medidas necessárias, isso me leva a imaginar que, quando essa pandemia puder ser melhor controlada, a pessoa não terá alterado a sua conduta. No entanto, algumas pessoas menos mentalmente limitadas e algumas pessoas mais permeáveis à reflexão e à alteração de hábitos, sem dúvida, vão fazer com que haja a construção, uma reinvenção da sua vida e da sua prática. É provável até que as pessoas que foram vitimadas próximas a ela com a perda de parentes, ou amigos, ou a pessoa que ela mesma foi contaminada e eventualmente passou por um sofrimento muito grande para sobreviver e, sobreviveu, essa não sairá ilesa dessas circunstâncias. Mas há pessoas, em larga escala que, dificilmente, alterarão assim que ela imaginar que voltou ao que era, o que não voltará. Mas se ela imaginar que voltou ao que era, ela adotará idêntica conduta que tinha antes. Esta não é uma perspectiva desesperançada minha, apenas que momentos anteriores na história humana mostraram que nós demoramos um pouco mais para elevar a nossa inteligência.

V&A - Com tudo o que tem acontecido o que pode nos ajudar a seguir em frente e a crescer? O que o senhor acha que a vida tem nos ensinado nesse momento?

Cortella - Só uma coisa nos fará chegar ao outro lado dessa tempestade sem uma dor maior do que a perda, que já é uma imensa dor, é a solidariedade. É o fato de ninguém ficar de braços cruzados e com a mente acalmada sem ter feito alguma coisa para si e para outras pessoas. A única maneira de enfrentar uma situação de angústia é ter alguma atitude que faça bem a si e a outro. Portanto, só a solidariedade, a construção, especialmente, do modo de convivência, que seja capaz de compaixão e empatia vai permitir que a gente serene um pouco todo tipo de turbulência que agora vivemos.

V&A - Qual é a mensagem que a vida está nos passando?

Cortella - A vida sempre nos ensina, ela é uma mestra especial, mas vez ou outra fingindo esse ensino que ela faz, nos chacoalha um pouco e nós estamos agora tomando da vida em geral, não com uma intenção externa em que alguma divindade tenha decidido tomar essa atitude, mas as circunstâncias da vida nos balançou imensamente. Para usar uma expressão mais comum de caipira, como eu que sou de Londrina, um safanão muito forte que nos fez olhar à nossa volta e observar coisas que não tínhamos notado. E esse safanão, esse tipo de balanço que se deu, faz com que a gente pense em outros modos de ser e existir. Como dizia antes, algumas pessoas não o farão, continuarão tolas como antes eram e estão totalmente se mostrando durante a tempestade. Mas várias pessoas, e espero que eu e você também, teremos aprendido muito com esses ensinamentos que a vida nos provocou, não sei se o fez de propósito, mas eu aprenderei de propósito.

V&A - Em um trecho desse novo livro com o Karnal, o professor diz que "Ter de assumir as próprias escolhas nos exige lembrar que toda escolha é uma abdicação". Qual a importância de planejar, escolher e abdicar?

Cortella - O planejamento é a possibilidade de decidir desde agora qual o lugar que eu estarei mais adiante, como eu farei para chegar até lá e, especialmente, porque quero fazer essa trajetória de caminho para lá estar. Isso significa que o planejamento é uma maneira que impede que eu seja vitimado pelas circunstâncias, pelo acaso que está à minha volta, portanto assumindo a autoria da minha própria escolha em vez de apenas obedecer o que outras escolhas, que eu não participei, sejam feitas em meu nome. Por isso, essa noção de abdicação sempre é necessária para que não se imagine que se possa ter tudo o tempo todo, de todos os modos.

V&A - O que é para o professor uma vida bem vivida, consciente?

Cortella - É uma vida em que eu tenho clareza de que ela tem muitos senões, mas que esses senões não são suficientes para demolir todas as razões para que eu entenda aquilo que na vida é essencial como a amorosidade, amizade, solidariedade, fraternidade, sexualidade e religiosidade, tudo aquilo que faz com que não se tenha uma vida banal. Nesse sentido uma vida bem vivida é aquela que não é desperdiçada com tolices, com mesquinhezes que não é colocada fora por ser alienada. É uma vida que pode até ter bens, mas a eles não se apega apenas os usa e possui, deles não depende de modo psicótico. E por outro lado, saber que vida é partilha e, se não houver partilha, a vida diminui e, portanto, fica menor do que deveria ser. E quando a vida que eu faço se torna menor do que ela poderia e deveria ser ela, sem dúvida, cai fora do campo do bem vivido.

V&A - Nesse sentido, podemos dizer que a felicidade está nas coisas simples, em perceber o quanto algo corriqueiro, por exemplo, pode ser prazeroso e proporcionar felicidade?

Cortella - Ela está também nas pequenas coisas, mas não está exclusivamente. Há momentos em que também essa junção das pequenas coisas elas se agregam em grandes coisas. A felicidade é uma ocorrência, ela não é uma situação contínua, não é algo que vem o tempo todo, mas ela não deixa vir e quando vem é preciso reverenciá-la, agradecê-la porque eu sei que ela vai partir, mas sei também que voltará se eu prestar atenção. Não se pode esquecer que a alegria é a possibilidade de uma vitalidade mais expressiva que a própria felicidade, ela não se ausenta de modo intenso e nem se apresenta de modo intenso, mas quando vem, aproveite.

V&A - As pessoas têm preguiça de pensar, de buscar soluções para os problemas, o que fazer para elas pensarem?

Cortella - Uma parte das pessoas, não diria que no geral. Hoje boa parte das pessoas busca sobreviver economicamente, socialmente e fisicamente, portanto essas pessoas estão tendo, sim, de buscar alternativas para essa sobrevivência que não são fáceis. Mas há um grupo de pessoas que desdenha daquilo que aí está e aguarda que venha uma solução mágica, algo quase infantil. Porque isso é compreensível em uma criança, mas não em um adulto. Uma criança em vários momentos imagina que se ela fechar os olhos e dormir amanhã tudo acordará bem e em ordem. Esse é um sonho gostoso, mas ele é só um sonho infantil. Daí que uma parcela das pessoas fica numa expectativa de que as coisas aconteçam sem que ela precise se mexer. É uma alternativa, mas ela é desonrosa, porque ela é covarde em relação ao que precisa ser feito.

V&A - O que é viver em paz, para morrer em paz?

Cortella - Viver em paz é viver com a certeza que não está tendo uma vida inútil, banal, fútil, superficial. Para que se possa morrer em paz é preciso viver em paz. Viver em paz é viver sem problema, sem dificuldades, sem encrenca. Viver com a clareza de que a vida tem de ter um propósito, de não ser colocada fora, não ser desperdiçada, não ser uma vida egoísta marcada pela autocentralidade. Uma vida que ao partir, isto é, no momento da morte se entenda que vai se deixar mais vida do que quando se chegou. 

 

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