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Debaixo deste teto

Alexandre Caprio - 06/06/2020 00:25

Olá equipe da Revista Vida&Arte. Meu nome é M.S.G. e tenho 43 anos. Sou casada há 18 anos e tenho dois filhos, um com 22 e outro com 19 anos. Sou professora e meu marido tem uma loja de artigos esportivos. Estamos enfrentando uma fase muito difícil de nossas vidas com essa pandemia. Nossas reservas já estão acabando e não enxergar uma luz no fim do túnel torna as coisas dentro de casa muito mais difíceis. Nossa vida sempre foi corrida e mal tínhamos tempo para conversar ou viajar. Nossas agendas eram muito diferentes e estávamos sempre sobrecarregados com as responsabilidades profissionais e familiares. Agora que temos tempo, estamos ansiosos e brigando muito. Acho que isso está abalando profundamente nossa relação. Os meninos também estão agressivos e frequentemente tem alguém tendo um pico de raiva. Sei que esse é um espaço para relacionamentos afetivos, mas vocês poderiam nos ajudar com dicas para mediar nossa relação familiar? Temo que isso possa terminar no cartório se as coisas não melhorarem.

Sim, eu também estou com medo do que acontecerá nos cartórios esse ano. Acho que eles, os advogados e os psicólogos serão os primeiros a se recuperarem da pandemia. E fique tranquila. Esse é um espaço para relacionamentos. É impossível separar relação familiar de afetiva, simplesmente porque estão completamente entrelaçadas. Vou aproveitar sua pergunta para esclarecer quais são os cinco maiores estados de tensão que estou percebendo nisso tudo que estamos vivendo. Essas tensões estão destruindo nossas relações sociais, nossas amizades e nossa paz familiar. Por isso, classificá-las pode ajudar bastante no entendimento e autocontrole.
O primeiro estado de tensão é, claro, o medo de morrer. Isso abrange dois aspectos: o medo da morte em si e o medo do sofrimento até a morte. Parece a mesma coisa, mas não é. Tem gente que não está nem aí para a morte, mas sente pânico em relação ao sofrimento que leva a ela. Já outras pessoas morrem de medo do desconhecido, de não saber o que acontece depois. De qualquer forma, esse primeiro estado de tensão transforma o vírus em um terrorista e deixa as pessoas angustiadas, principalmente aquelas que têm mais idade, mais peso, que são diabéticas, fumantes ou que estão lutando contra alguma doença.
O segundo estado de tensão é o medo de matar. Mais do que o medo de morrer, são muitos os que se desesperam ao imaginar que podem transmitir a doença para um ente querido dentro de casa. O medo de arrastar para sempre a culpa de ter infectado um pai ou uma avó que, depois, viria a óbito, é desesperador.
O terceiro estado de tensão é o financeiro. O principal gerador de ansiedade nesse caso não é a pandemia em si, mas não saber quando ela acaba. Se eu não sei quando a crise terá fim, também não sei se terei recursos suficientes para sair dela. É como fazer uma viagem de carro sem ter ideia de onde está a chegada e com o ponteiro do combustível quebrado. Cada quilômetro deixa de ser uma medida de distância para se tornar uma medida de tortura.
O quarto estado de tensão é a informação (ou desinformação). Em um mundo onde muitos preferem ‘bater boca’ ao invés de dar as mãos, cada um publica sua paranoia como verdade absoluta. Isso deixa as pessoas desorientadas, confusas, sem saber no que acreditar e, claro, mais ansiosas do que já estavam. Essas divergências de opiniões, alimentadas por fake news e teorias da conspiração, também trazem muitos desentendimentos afetivos e familiares.
E, finalmente, o quinto e último estado de tensão é lidar com os vínculos assumidos e não trabalhados. Casar e ter filhos é fácil. Difícil é o dia seguinte. Formar um filho não é meramente alimentá-lo, vesti-lo e mandá-lo pra escola. Estamos sempre escapando de nossos vínculos familiares através da agenda cheia e do trabalho. Depois chegamos em casa, olhamos superficialmente para tudo e julgamos a todos. Aponto o dedo para a cara de uma filha, dizendo que ela não sai do computador, enquanto seguro meu celular fortemente com a outra mão. Reclamo que o garoto joga videogame, mas não me interesso em saber os motivos dele gostar daquele jogo. Casamos com pessoas que mal cumprimentamos porque estamos sempre atrasados. No final do dia, em torno do micro-ondas, repassamos tarefas com pesar e balbuciamos alguma frustração com a política.
Em resumo, não sabemos direito com quem nos casamos e nem quem são nossos filhos. Agora a pandemia nos obriga a lidar com essa situação. O que fazer? O principal desafio para estornar esse estrago todo é se interessar pelo outro com sinceridade. Devemos aprender a conversar sem prejulgamento, deixando a pessoa explicar sua forma de pensar até o final, sem interrompê-la. Depois, se necessário, podemos pedir o mesmo respeito e espaço para argumentar, acrescentar ou simplesmente opinar. Relação nenhuma existe sem os pilares do respeito e do diálogo. Se vocês se respeitarem, conseguirão dialogar. Se conquistarem o diálogo, conseguirão estabelecer uma relação de verdade. Mas sem esses dois pilares, só resta ao casal e à família que o teto desabe sobre suas cabeças. E em um momento em que o teto do mundo mostra rachaduras sérias, esse seria o pior momento isso acontecer.

Envie suas dúvidas sobre relacionamento para o psicólogo cognitivo-comportamental Alexandre Caprio: [email protected]

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