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Síndrome do suquinho

Alexandre Caprio - 03/05/2020 00:20

Olá Alexandre. Meu nome é C. D. T. e tenho 47 anos. Terminei um longo relacionamento há cinco anos e hoje tenho um namoro (moramos juntos) que já está no terceiro ano. Ele é um homem trabalhador, mas esquentado. É só ser contrariado que já levanta o tom de voz e parte para as ofensas. Ele também faz isso com os dois filhos que tem de outro casamento, que já são adolescentes. Mas com os amigos e o pessoal do trabalho ele é a pessoa mais educada e bem humorada que eu já vi na vida. O problema é que, mesmo quando está completamente errado, ele jamais pede desculpas. Isso me magoa muito porque fica parecendo que o orgulho dele é mais importante do que o nosso relacionamento. De um ano pra cá, ele anda mais agressivo e exagera mais nas ofensas. Eu acabo me afastando e ficando em silêncio porque se retruco, a coisa fica feia. Daí, quando ele vê que exagerou, fica bonzinho, chama pra ir num restaurante, traz algum doce que eu gosto ou comenta alguma notícia que está passando no jornal até que eu quebre o silêncio e tudo volte ao normal. Estou certa em evitar conflito ou meu silêncio pode acabar piorando as coisas?

Nossa, você já fez uma parte do meu trabalho. Você descreveu a “síndrome do suquinho” perfeitamente. Nunca ouviu falar? É que eu acabei de inventar esse nome. Mas com toda certeza, todo mundo conhece um pai, namorado, chefe ou marido assim.
É muito comum tratarmos com educação os estranhos enquanto maltratamos as pessoas que escolheram viver ao nosso lado. Não deveria ser assim, mas muita gente tem a mania de descontar as frustrações naqueles que não sabem ou não podem se defender. E tem gente que exagera muito! O bullying surge assim nas escolas. O praticante humilha sempre o mais fraco, nunca o mais forte. Também é a base do assédio moral, um tipo de violência em que um sujeito se utiliza de um cargo para maltratar um subordinado. E temos, ainda, os covardes que despejam sua ira nos bichinhos de estimação, chutando-os e machucando-os. Em todas essas situações, é muito difícil o agressor se arrepender e se desculpar. Seu parceiro segue a mesma tendência. Primeiro, ele levanta a voz e te agride praticamente sem pensar. Fala tudo aquilo que tem vontade, transformando palavras em punhais afiados que penetram dolorosamente em você. Passado um tempo, ele percebe o exagero e arruma um jeito de resolver a situação sem ferir o orgulho inflado. Então vai lá na cozinha, espreme umas laranjas, bate com gelo no liquidificador e vem todo mansinho puxando assunto. Pergunta se você viu o acidente que passou na TV ou se ficou sabendo do que aconteceu com a Dona Olga, da rua de baixo. Você está magoada e responde alguma coisa em tom baixo, com meias palavras. Daí e ele aproveita a brecha e diz: “você quer um suquinho? Acabei de fazer!”
Esse momento é uma encruzilhada, pra não dizer uma chantagem. Ele basicamente está propondo que você volte a ficar numa boa para que a violência praticada saia de graça para ele. Se você não aceitar o suquinho e voltar ao assunto da discussão, ele te pune com mais agressões e ainda te culpa por quebrar a paz. E se você aceitar, pelo menos vai ajudar a descer goela abaixo o sapo que ainda estava enroscado na sua garganta. Com isso, você o ensina a te maltratar o quanto quiser porque, além de nunca precisar pedir desculpas, a violência (verbal ou física) que ele praticar sempre custará, no máximo, um suquinho, um chocolatinho ou um lanchinho. E isso, claro, vai deixá-lo muito mal acostumado.
Cuidado com quem já se casou com o próprio orgulho e não abre mão dessa aliança. São pessoas que não crescem, não se desenvolvem e se limitam a impor suas ‘verdades’ distorcidas. Cuidado com aquele que rouba o seu amor-próprio e troca por presentes baratos. Quem tem passe livre para ferir com a língua, cedo ou tarde usa a mão. Ensine ao seu parceiro, desde cedo, que a violência não é inofensiva só porque vem pela boca. Mas para ter essa autoridade, você não pode descer no mesmo nível. Quando você xinga quem te xinga ou maltrata quem te maltrata, acaba igual ao seu agressor. E aí, o casalzinho que, no começo, mais se parecia com duas cerejinhas doces, acaba se transformando em dois limões cascudos e azedos, que ficarão eternamente espirrando ácido um no outro. E aí, minha cara leitora, não haverá gelo e açúcar que dará jeito nesse suco mais.

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