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Amanda Oliveira: a empreendedora social que não para de sonhar

Jessica Reis - 06/03/2021 00:20

Ela tem uma vida que daria um roteiro de um belo documentário. Mulher, empreendedora social, esposa e, agora, mãe. Amanda Oliveira, conhecida carinhosamente como Mandinha, não teve uma infância fácil, enfrentou a desigualdade social, a pobreza, a fome, o bullying e tantas outras adversidades que fazem parte da vida de milhares de pessoas no Brasil.

Mesmo com tantas dificuldades, Amanda deu a volta por cima e hoje, aos 31 anos, ajuda pessoas em situação de vulnerabilidade por meio do Instituto As Valquírias, fundado por ela em 2007. A instituição, localizada no Jardim Paraíso, impacta a vida de 1.139 famílias diretamente por meio dos atendimentos feitos mensalmente.

Casada com o empresário e jornalista Danilo Ferraz, também é mãe do pequeno Apollo, de 3 meses. Amanda é daquelas mulheres de garra que não para de sonhar com um mundo melhor. "Eu sonho muito, crio as metas e não esqueço do essencial, acordar cedo para bater. Eu quero ocupar cada vez mais espaços que disseram que eu não ocuparia, pelo simples fato de nascer mulher e favelada", afirma.

Em entrevista à Vida&Arte, essa sonhadora conta um pouco da sua trajetória como empreendedora social, as mudanças que promove por meio do Instituto na vida das pessoas, os desafios da maternidade, além de falar sobre empoderamento feminino.

V&A - Você nasceu em São Paulo. Como chegou em Rio Preto? Como foi sua infância?

Amanda Oliveira - Passei parte da minha infância em São Paulo, cresci vendo minha mãe fazer uma refeição para mim e para minhas irmãs duas, via a enchente levar tudo de dentro do barraco feito de papelão, lona e madeira. Por falta de recurso, quando eu tinha três meses de vida, adoeci e minha mãe improvisou uma inalação, meu pai cochilou e eu caí com o rosto dentro da água fervendo. Fome, pobreza, desigualdade, falta de acesso à saúde e educação, então minha mãe resolveu mudar para Rio Preto. Logo notamos que estávamos morando em um bairro dominado pelo tráfico e pela prostituição, no Jardim Paraíso. Nessa época comecei a sofrer bullying na escola por conta das cicatrizes no rosto (resquícios do acidente) e por ser pobre e ter materiais escolares usados. Fui acometida por uma tristeza profunda. Minha infância é a parte mais triste da minha história. Desesperada minha mãe ao perceber que eu poderia entrar em uma depressão me matriculou em projeto social administrado pelo Ielar. Eu fui acolhida de um jeito sem igual, e comecei a voltar a sorrir, esse era o único lugar que minha infância tinha importância. Fui empoderada em todos os sentidos.

V&A - Em que momento da sua vida nasceu a Amanda Oliveira empreendedora social?

Amanda Oliveira - Aos 19 anos. No projeto social Ielar, eu comecei a compreender que meu lugar era no palco, por mais que o movimento de criminalidade e tráfico do bairro tentavam me mostrar o contrário, o método pedagógico aplicado às crianças que lá frequentavam eram eficazes demais e me mostrava que me limitar não era o caminho. Eu até tentei me esconder, pois tinha medo da rejeição que já estava sofrendo, mas o projeto social nessa época era palco para todos os matriculados, as feridas abertas foram pouco a pouco sendo cicatrizadas, o amor e a educação que eu recebi era tanto que transbordou, e eu resolvi multiplicar o impacto. E então, me tornei mulher, musicista e empreendedora social, sigo espalhando os valores que foi ensinado nesta época.

V&A - O Instituto As Valquírias é um negócio de impacto social, como ele surgiu, em quais frentes atua?

Amanda Oliveira - Surgiu do sonho de fazer pelos outros aquilo que o Ielar fez por mim. Quando pensei em fundar o Instituto, pensei em vários nomes. Gosto da ideia de arquétipos, apesar de nunca ter estudado, em um momento de meditação vi uma águia em um galho que se aproximou rapidamente e olhou no fundo dos meus olhos, exatamente na época em que eu estava me preparando para fundar o Instituto, cheguei a fazer o estatuto com o nome 'Instituto Águia', mas para a minha surpresa esse nome já existia. E então, imediatamente defini que se chamaria 'Instituto As Valquírias', e foi a escolha mais assertiva que fiz em toda a minha vida. Atuamos em três frentes: o Instituto, a Banda e a Loja das Valquírias. A Banda Musical é uma homenagem a minha professora Valquíria, mas o Instituto As Valquírias é uma homenagem às integrantes da Banda As Valquírias, estávamos a tanto tempo juntas e conheci essas meninas quando elas tinham entre 7 e 11 anos, fui chamada de louca por várias vezes, "Como assim, Amanda? Essas meninas têm entre 15 e 16 anos, tá louca? É muita responsabilidade nomeá-las co- fundadoras". Eu nunca fui contra os questionamentos, mas nunca me preocupei em me justificar, respondia sempre com um sorriso, até porque as pessoas que me falavam isso, não tem noção do prazer que tenho quando me chamam assim, sempre que me chamam de louca, eu faço questão de mostrar do que uma louca é capaz de fazer.

V&A - Quantas pessoas o Instituto atende atualmente?

Amanda Oliveira - 1.139 famílias são impactadas diretamente por meio dos atendimentos feitos pelo Instituto mensalmente, cerca de 30 mil meninas e mulheres são impactadas anualmente por meio das palestras shows feitas por mim e pela banda As Valquírias em todo o Brasil, e cerca de 400 mulheres são impactadas por nossa loja que trabalha com economia circular, permitindo que elas vistam roupas que jamais pensaram que vestiriam, mexendo consequentemente com sua autoestima.

V&A - O que o Instituto representa para você e como é ver que ele é reconhecido nacional e internacionalmente?

Amanda Oliveira - Quando você descobre sua missão, você passa a confiar em si. O Instituto As Valquírias é a descoberta da minha missão aqui na terra, desde que eu descobri isso eu passei a ignorar o impossível e aprendi a substituir a palavra problema pela palavra desafio. Ver o Instituto sendo reconhecido nacional e internacionalmente me faz acreditar que estamos no caminho certo. É um desafio atrás do outro, intermináveis. Quando faço um planejamento de crescimento institucional e tal ação não sai conforme o planejado, tenho comigo a certeza de que não significa que eu tenho que parar de tentar, ou que aquilo não é para nós, significa que devo planejar novamente e substituir uma ação pela outra. Acima de qualquer coisa em primeiro lugar, eu acredito no potencial criativo e de realização do Instituto As Valquírias. Eu descobri que agindo assim, a gente não vai parar nunca de crescer.

V&A - Com esse trabalho social você mudou a vida de muitas meninas. Tem alguma história que te marcou?

Amanda Oliveira - Sim. A história de Bianca. Eu a conheci quando ela tinha 11 anos, moradora do Jardim Paraíso. Bianca estava prestes a ser expulsa da escola por apresentar "comportamento inadequado". Quando a convidei para participar do grupo musical As Valquírias sua perspectiva de ter sucesso na vida era zero, afinal ela não tinha motivo algum para querer ser alguma coisa, isso porque aos 11 anos ela já tinha perdido quase tudo, padrasto e pai foram assassinados pelo envolvimento no tráfico, mãe presa pela segunda vez. A Bianca me contava com os olhos cheios de água que nunca se esqueceria do dia em que os policiais invadiram sua casa e colocaram sua mãe dentro do camburão, pra completar o irmão morreu de meningite. Meu primeiro contato com ela foi amargo, ela não quis me ouvir, mas bastou eu perguntar qual era o seu sonho para a menina desabrochar e dizer que queria ser médica, ali começou um vínculo pela vida toda. Ela era aluna no grupo musical, ganhou de duas empresárias queridas, Bruna Carrazone e Gil Carrazone, sua tão sonhada festa de quinze anos, foi um divisor de águas. Quando eu fui fundar o Instituto convidei Bianca que já estava com dezesseis anos para co-fundar comigo. Atualmente, ela integra a banda As Valquírias, estuda pedagogia na Unirp (parceira do Instituto), é responsável pelo nosso programa de voluntariado, ministra aulas de meditação para as meninas vindas da mesma realidade que a dela e é palestrante. Hoje sua mãe está solta, está trabalhando honestamente, Bia ressignificou seus traumas por meio das aulas de psicodrama ministrada pela nossa voluntária Andressa D'Agostino. No último ano, protagonizou representando o Brasil em um documentário mundial que escolheu dez meninas do mundo todo e sonha em revolucionar a educação. A história dela faz meu coração ter certeza de que estamos com êxito cumprindo nossa missão.

V&A - Qual o balanço que você faz desde o início com o grupo musical que se transformou em Instituto. Quais as conquistas e desafios teve desde 2007?

Amanda Oliveira - O Instituto As Valquírias ao longo desses anos promoveu benefícios econômicos, sociais e ambientais, que refletiram diretamente no desenvolvimento socioeconômico e na sustentabilidade das comunidades que atende. Anualmente monitoramos, investigamos, avaliamos, com o objetivo de medir os efeitos causados pela distribuição de oportunidades fornecidas pelo nosso Instituto. São mais de 60 mil atendimentos ao longo desses anos e o desafio que nos cerca é sempre o mesmo, de inovar, trabalhar duro, implantar tecnologias inteligentes sem ferir nossos valores, aumentar o número de beneficiários e mobilizar pessoas em prol da nossa causa. É desafiador, mas esse é um jogo que salva e transforma muitas vidas, tira as pessoas da arquibancada e bota na quadra pra jogar, mas o fato é que um jogo importante e quando o jogo é importante a gente não sente a lesão.

V&A - Muita gente acha que periferia é coisa de cidade grande, mas em Rio Preto temos hoje a favela da Vila Itália e você está sempre lá. Como é o seu trabalho com as pessoas que lá residem?

Amanda Oliveira - Trabalhamos em prol de várias comunidades em Rio Preto, periferia significa uma determinada região cuja sua localização é afastada do centro urbano, algumas comunidades em Rio Preto estão nessa condição. Trabalhamos junto de algumas dessas comunidades para reduzir as desigualdades, e usamos à educação, alimentação e atendimentos na área da saúde como escudo de combate ao que ainda está desigual. Especificamente na Vila Itália estamos apoiando um projeto inovador, encabeçado pela Gerando Falcões, Instituto Tellus e Accenture com apoio do Instituto As Valquírias, Movimento Luta Popular e Prefeitura de São José do Rio Preto. Trata-se de um projeto feito a muitas mãos, que busca romper com o ciclo de pobreza instalado naquela região, estamos juntos construindo uma solução para que esta favela se torne uma favela 3D, como diz meu amigo Edu Lyra, 3D de Digital, Digna e Desenvolvida. E em poucos anos a solução encontrada para esta favela será a solução que vai resolver os desafios e problemas das favelas de todo o Brasil. Vale ressaltar que o trabalho feito na Vila Itália não é para os moradores e, sim, com os moradores, lá tem muita luta, muita fé, muita garra e lideranças incríveis como a do senhor Bem-Vindo que sempre nos recebe de braços abertos e nos ensina muito com seu talento e liderança. Temos muito pela frente, o sonho é grande, a fé tremenda, como diz a turma aqui da comunidade onde o Instituto atua: "O bagulho é doido, mas a gente é mais doido que o bagulho" em frente.

V&A - Como é a Amanda Oliveira mãe? A sua rotina mudou muito com a chegada do Apollo?

Amanda Oliveira - A chegada do Apollo fez minha rotina mudar muito e sei que é para sempre. Nos primeiros 30 dias, minha vida ficou marcada por visitas agradáveis de parentes e amigos, tempo de sono reduziu muito, o cansaço triplicou e o sentimento de culpa por uma série de motivos, aflorou. Antes da maternidade eu fazia cerca de seis reuniões por dia, e atualmente, para não sentir o vazio de ficar sem o prazer e o êxtase de trabalhar em prol da humanidade, tenho feito pelo menos duas reuniões, vez ou outra passo dos limites, faço mais. Daí vem o peso de não ter dado o melhor de mim para o meu filho. Não pretendo seguir trabalhando feito louca nesse momento, mas vou seguir trabalhando, porque o Apollo veio para me dar forca e não me paralisar. Ele fica calmo embaixo das arvores e ao som dos cachorros e passarinhos, então, vez ou outra, levo meu escritório junto das árvores e contemplo junto da natureza o prazer de trabalhar, amamentar e ser mãe.

V&A - Como é ser mãe e empreendedora?

Amanda Oliveira - Tenho tentado loucamente separar os papéis de mãe e de profissional. Sei da necessidade de aprender a manter meu papel de mãe e mulher de negócios separados, dando a cada um a devida atenção, assim sinto que estou desempenhando bem as funções. Minha casa hora é casa, hora é escritório, meu pijama virou meu uniforme, por mais que eu separe bem as coisas, o bebê me interrompe a todo momento, minha casa é anexada ao Instituto, então no meu caso estar em casa é "trabalho" e não "diversão", o tempo parece que está contra mim: pisquei e já é hora de amamentar, já é hora do almoço, já é hora do jantar, já é hora do banho, da troca de fraldas, das brincadeiras de estímulo e de estudar sobre maternidade. Acho que estou tirando de letra. Já entendi que esse não é um ano para colocar mil e um projetos no papel se a minha nova rotina não permitirá que eu realize, tenho trabalhado meu mindset para aceitar a realidade do que é possível hoje.

V&A - Quem é a Amanda Oliveira, como você se definiria?

Amanda Oliveira - Tenho dentro de mim todos os sonhos do mundo, por ser mulher e CEO sou testadas o tempo todo. Na minha trajetória enquanto empreendedora social já vivi experiências amargas, a pior delas foi a tentativa de assédio sexual de um empresário da grande São Paulo. Mas eu não paro de sonhar, quando me sinto desafiada, olho para o céu e logo me restabeleço, porque sei que os desafios nada mais são que a forma exata encontrada por algo maior de guiar o nosso ser até o nosso propósito. Eu sonho muito, crio as metas e não esqueço do essencial, acordar cedo para bater. Eu quero ocupar cada vez mais espaços que disseram que eu não ocuparia, pelo simples fato de nascer mulher e favelada. Mais que um sonho, eu tenho um plano e não vou parar. Amo meditar, amo meu marido, amo cachorros, tenho oito, amo minhas irmãs e sigo honrando as minhas ancestrais.

V&A - Como você definiria uma mulher empoderada? E como incentivar esse empoderamento feminino nos dias de hoje?

Amanda Oliveira - Nós mulheres já entendemos que não estamos mais em 1950, onde em uma mesa de reunião apenas redigíamos minutas e atas enquanto a mesa dominada por homens tomavam as decisões. Empoderar-se é compreender que tudo que nós mulheres exercemos, criamos e realizamos tem relação com as nossas ancestrais. Entender que a forma em que atuamos em nossos trabalhos, o poder de gerar uma vida dentro de nós, nossos cabelos, nossa cor, nossa pluralidade e engajamento em nossa própria jornada diz para o que viemos, por onde já passamos, e para onde estamos indo. Cada mulher carrega consigo a sua paixão, não que seja fácil, mas nos dias de hoje temos que ter a audácia de nos manter firmes, fortes, destemidas e conscientes de que não importa quantos serão os ataques, o importante é não parar.

 

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