IMG-LOGO
Home VidaeArte

Jorge e Miriam Haddad: Um casal e 30 mil bebês

No romance "A Ilustre Casa de Ramires", o escritor português Eça de Queiróz pincelou a seguinte obra de arte: "As crianças são os únicos seres divinos que a nossa pobre humanidade conhece. Os outros anjos, os das asas, nunca aparecem. Os santos, depois de santos ficam na Bem-Aventurança a preguiçar, ninguém mais os enxerga. E, para concebermos uma ideia das coisas do Céu, só temos realmente as criancinhas...". Em Rio Preto, um casal de médicos vive muito próximo dessas "coisas do Céu", criaturinhas lindas que tanto encantam papais, mamães e suas famílias. Os especialistas em Pediatria e Terapia Intensiva, com atuação voltada à área de Neonatologia, Jorge e Miriam Haddad, casados há 38 anos, contabilizam aproximadamente 30 mil bebês atendidos em sala de parto. Desses, um número grande de prematuros, em torno de 2.000 nascimentos, incluindo quatro famílias de quadrigêmeos, vários trigêmeos e mais de 40 gêmeos, todos, sempre com sucesso. Formados pela Faculdade de Medicina de Rio Preto, ele em 1977, ela em 1979, os dois se conheceram quando Jorge estava no último ano de residência médica, e Miriam no sexto ano do curso médico. Jorge Haddad lembra que eles atenderam aos primeiros quadrigêmeos nascidos na América do Sul em 1992. "Eles são de Potirendaba, hoje estão com 28 anos e todos muito bem", comemora. O início do trabalho foi no extinto hospital Nossa Senhora da Paz, onde fundaram a primeira UTI Neonatal da cidade. No ano seguinte, migraram para a Beneficência Portuguesa com a instalação de uma UTI Neonatal moderna e muito bem equipada. "A UTI da Beneficência é muito bonita, segue muito bem equipada e muito atualizada", diz ele.

A rotina dos dois é extenuante, mas o resultado do esforço compensa cada hora do dia passada no atendimento e nos cuidados dos pequenos pacientes. Quem relata é Jorge. "Começamos o dia na Beneficência para os nascimentos da manhã. Em seguida a Miriam faz visita no berçário e eu, nos bebês da UTI. Depois vamos para as visitas da ala da Pediatria. Por volta das 9 horas Miriam já está no consultório (na clínica do casal, Guidotti Haddad Pediatria). Eu começo as consultas por volta das 10h. Atendemos até por volta das duas da tarde. Almoçamos em meia hora e eu volto para o consultório, onde atendo até a meia noite. A Miriam, depois do almoço, vai atender as salas de parto.

580 gramas de vida

O especialista lembra que a maior incidência de doenças que acometem recém-nascidos é a prematuridade. "Com os avanços da Medicina e dos recursos da tecnologia, muitos prematuros que antes morriam, hoje sobrevivem. Crianças que nascem acima de 1 quilo hoje dificilmente morrem e a chance de sobrevida para elas é muito alta. Ele lembra que o menor prematuro que ele tratou nasceu com apenas 580 gramas. "Ele saiu sem sequelas e teve um desenvolvimento normal." Segundo Jorge Haddad, a prematuridade pode ocorrer por causas maternas (mães fumantes, eclampsia, infecções) e causas fetais (malformações, síndromes e multiparidade). Mas a principal é a idiopática, por razões não conhecidas. Habituado ao trabalho na UTI neonatal, o médico lembra que o estresse das famílias sempre é controlado com informação e apoio. "As mamães são as mais preocupadas, por isso transmitir segurança à elas é muito importante. E a angústia delas hoje cresce mais com o acesso às informações, muitas vezes inverídicas das redes sociais e da internet. Mesmo assim, considero que de uma forma geral, as pessoas hoje estão mais esclarecidas e as mães são melhores orientadas pelos pediatras," diz Haddad. Ele ressalta ainda que os hospitais, principalmente a Beneficência Portuguesa onde ele atua, instrui bastante as mamães. Tanto os pediatras como a equipe de enfermagem e de apoio à amamentação oferecem orientações para que as mães tenham tranquilidade e segurança para cuidar dos bebês quando chegarem em casa. Segundo ele, a amamentação é um dos fatores que gera mais estresse para a mãe no início do relacionamento com o recém-nascido. Por isso, a orientação e o suporte ainda no hospital são fundamentais.

Um filho só

Uma observação do médico Jorge Haddad é a de que aumentou a faixa etária das mulheres que decidem pela maternidade. "As mulheres decidem ter filho hoje somente acima dos 28 anos de idade. E a maioria quer um filho apenas. Quando a família quer mais filhos, geralmente é uma opção, uma decisão do pai. A mãe não quer não", constata ele. Segundo o especialista "as mulheres hoje estão com atuação muito forte no mercado de trabalho. Quatro meses depois de ganhar o bebê, elas precisam voltar a trabalhar fora de casa e isso é muito sofrido para elas. Por isso, a maioria, além de decidir ter filho depois dos 28 ou 30 anos, também opta por apenas um filho".

O bem mais precioso

"A pediatria nos aproxima do bem mais precioso da família, que á a sua criança. Isso nos obriga a ser extremamente responsáveis e dedicados. Olhamos a criança como olhamos um de nossos filhos." A palavra é da pediatra Miriam Haddad. "Sinto muito de perto o coração das mães, com suas ansiedades tão comuns. Ao acompanhar a criança desde o nascimento, criamos um vínculo muito estreito com os pais. Isso facilita muito o relacionamento no crescimento da criança e as famílias se sentem amparadas, seguras." As recomendações de Miriam para as mães são básicas e definem muito do amor e da responsabilidade com os filhos. "Amamentação materna exclusiva até o sexto mês se possível, manter o calendário de imunização atualizado e observar o comportamento da criança durante o seu desenvolvimento". A médica lembra que existem muitos casos de depressão na infância, é preciso ficar atento. Outras dicas valiosas: observar as companhias do filho ao longo da vida, procurar ser ouvinte assim como tornar os horários das refeições possíveis juntos em momentos agradáveis de reunião e afeto.

Pandemia e os bebês

Os dois especialistas fazem recomendações importantes no acompanhamento dos bebês e das crianças nestes tempos inéditos de pandemia da Covid-19, doença transmitida pelo novo coronavírus. Segundo Jorge Haddad o ideal é seguir a orientação mundial de isolamento social. Evitar idas frequentes ao pronto-atendimento quando a criança está bem clinicamente. Olhar muito o seu aspecto geral. Se ela tem o aspecto geral bom e sintomas leves, não precisa correr para o pronto-atendimento. Além disso, hoje são grandes as facilidades de contato com os pediatras, fica mais fácil ligar ou mandar mensagem para esclarecer dúvidas do que sair de casa com os pequenos. Vale lembrar que as crianças normalmente não têm formas graves de Covid-19, mas são transmissoras da doença, principalmente para pessoas mais velhas. Miriam também alerta que é preciso evitar que as crianças sejam expostas durante muito tempo às notícias sobre a pandemia. É preciso dedicar tempo para resolver suas dúvidas e inquietações.

O que os bebês ensinam

Jorge e Miriam Haddad têm dois filhos: Jorge, 34, e Marina, 30 anos. Ambos são médicos oftalmologistas, ele especialista em córnea refrativa em São Paulo; ela aprimorou-se em oculoplástica e trabalha em Rio Preto. Orgulhosos das muitas conquistas profissionais e do desenvolvimento dos filhos, e em paz por terem, claramente, se dedicado à vida dos dois, Miriam resgata sua definição sobre o que é ser mãe. "É um ato de amor, bravura, um sentimento muito difícil de explicar. É carregar dentro de si o sentido da vida, a procriação. A mãe abandona tudo, até a si mesma, pela criação de um filho. É o maior presente de Deus para as mulheres." Para o casal de pediatras de 30 mil bebês, essas pequenas criaturas têm muito a ensinar. "Bebês são o renascimento da vida. Vemos neles tudo começando de novo, a vida iniciando mais uma vez com pureza, alegria e inocência. Os bebês e as crianças são símbolos de amor, de entrega, novidade de vida. Eles não nos pedem nada, apenas confiam em nosso cuidado e proteção."

 

Editorias:
VidaeArte
Compartilhe: