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Sueli Noronha Kaiser: A arte de cuidar e empreender

Ela treinou e formou a primeira equipe de Enfermagem da Cirurgia Cardíaca da Beneficência Portuguesa de Rio Preto, onde trabalhou por 37 anos. Ela teve uma percepção incrível para criar um novo mercado. Ela lutou e venceu. Ela comanda aquele que é hoje o maior grupo empresarial de Home Care do Brasil, com 20 filiais atendendo a 16 Estados e 550 municípios. Ela é a presidente e a grande motivadora dos 357 colaboradores da empresa, que gera mais de dez mil empregos indiretos. Ela inaugurou recentemente a nova sede do Grupo CENE numa área construída 3.260 metros quadrados, 230 estações de trabalho, sala de amamentação, espaço de lazer e conforto, energia solar e sistema de aproveitamento de água pluvial. Ela foi por duas vezes governadora de Rotary Internacional, sendo a primeira mulher eleita do Distrito 4480 que reúne 42 cidades. Ela viaja o mundo a trabalho. Ela viaja o mundo pregando a equidade de gênero e o fim da violência contra a mulher. Ela viaja o mundo com as principais empresárias brasileiras abrindo novas portas do Grupo Mulheres do Brasil. Ela viaja o mundo com a família. Ela viaja o mundo pelo prazer de conhecer o mundo. Ela é mãe de quatro filhos. Avó de oito (à espera de Maria, a nona da prole de netos). Ela tem uma energia contagiante, uma alegria inabalável. Ela é carioca e seu nome tem raiz germânica que significa "a que é como a luz". Ela é a enfermeira e empresária Sueli Noronha Kaiser, um sol que aquece, faz florescer e frutificar por onde mira o seu olhar de raios generosos, inovadores e plenos de vida.

V&A - De onde veio a inspiração para criar a CENE?

Sueli Noronha Kaiser - Veio do meu trabalho como Diretora de Enfermagem da Beneficência Portuguesa. Fui contratada pelo Dr. Domingo Braile em 1971 para criar o Serviço de Enfermagem daquele hospital que iniciava a cirurgia cardíaca. Dr. Braile me desafiou: "quero você trabalhando 24 horas todos os dias!". Eu estava grávida do primeiro filho e aceitei o desafio. Eu fui a quarta enfermeira-padrão de Rio Preto. Montei uma equipe com empregadas domésticas. Eu as treinava a dar banho nos pacientes, aferir pressão, ministrar injeções, enfim, tudo. As mais habilidosas eu separara para a UTI e para o Centro Cirúrgico. Levei cinco anos para formar um bom time. Acabei ficando por 37 anos na Beneficência. Durante esse período me especializei em Administração Hospitalar, Auditoria em Saúde e cursei Faculdade de Pedagogia Plena. Em 1986 eu visualizei um novo mercado. Faltavam leitos no hospital para atender a todos os pacientes que precisavam de cirurgia cardíaca. A equipe do Dr. Braile chegava a fazer cinco delas por dia. Enxerguei a possibilidade de desocupar leitos tratando pacientes menos graves em casa com muito mais conforto, sem risco de infecção hospitalar num custo reduzido entre 35 a 60% para as operadoras de saúde. Foi então que iniciei o serviço de atendimento domiciliar, o Home Care e dei o nome de CENE - Centro de Enfermagem Especializado. Treinei auxiliares e cuidadores focando higiene pessoal, diagnóstico, medicamentos e efeitos colaterais, segurança e humanização. Enfim, foi a arte de cuidar que sempre me inspirou. Além disso, muitos pacientes que recebiam alta me perguntavam onde podiam comprar ou alugar muletas, cadeiras de rodas, aparelho de oxigênio. Percebi essa carência no mercado e comecei a adquirir materiais e equipamentos para alugar por um preço justo. Juntei dinheiro e comprei uma ambulância usada. Começamos eu mais três pessoas e o apoio incrível do meu marido Roberto Luiz Kaiser (médico-cirurgião coloprocto, pioneiro na especialidade em Rio Preto, falecido em 2009). A procura aumentou e hoje somos referência no Brasil nesta prestação de serviço.

V&A - Como você avalia a situação econômica do Brasil com essa pandemia?

Sueli Kaiser - Teremos dias difíceis, a economia será fortemente afetada. Por isso entendo a preocupação do presidente Jair Bolsonaro com o isolamento social nos moldes que foi feito. O Brasil é imenso, poderíamos ter isolado primeiramente as capitais e as grandes cidades e focado na orientação da população com relação às medidas de higiene, cuidados com os idosos e grupos de risco. O presidente tem um jeito meio atrapalhado, mas sinto nele honestidade e desejo sincero de lutar pelo Brasil. Eu confio em suas palavras, apesar de todo o movimento contrário a ele. Acredito que o mundo passará por transformações sociais e comportamentais importantes. Vamos valorizar mais a família, os amigos, as relações e os sentimentos. A Saúde merecerá mais o olhar dos governos, principalmente no Brasil onde sempre foi esquecida.

V&A - Qual a posição do seu grupo empresarial em relação à pandemia? Houve alguma mudança de rota por conta do novo coronavírus?

Sueli Kaiser - Em fevereiro, com o agravamento da situação na China, instalamos nosso Comitê de Crise. Uma das primeiras decisões foi a de que não haveria demissões. Entre muitas outras medidas destaco o afastamento dos colaboradores acima de 60 anos, conforme orientação do Ministério da Saúde. Hoje temos 154 colaboradores em sistema de Home Office. Reforça dos estoques de EPIs e medicamentos. Implantação da telemedicina e plano de informação aos pacientes. Telemonitoramento e atendimento de sintomas da COVID-19 ou alteração do quadro clínico do paciente em tratamento domiciliar. No Hospital de Transição reduzimos visitas. Nas lojas, fortalecimento do delivery e do e-commerce. Na sede temos o monitoramento diário da temperatura dos colaboradores e o "Corona-Man", colaborador exclusivo para limpeza dos principais pontos de contato de mãos. Com relação às projeções de expansão, diminuímos o ritmo de um projeto na área de logística por conta das incertezas. Congelamos a construção de novas unidades do Hospital de Transição, previstas para Rio Preto e Campinas. Direcionamos nossa energia para a consolidação das últimas filiais abertas em Goiânia, Recife e Salvador. Por outro lado, a COVID-19 nos abre oportunidade com a necessidade de desospitalização para liberar vagas nos hospitais. Estamos recebendo muita demanda para implantar Home Care.

V&A - Como surgiu no coração da Cene a bandeira pela equidade de gênero e raça?

Sueli Kaiser - Eu sempre investi no potencial da mulher. Eu vi a evolução de uma família quando a mulher se aperfeiçoa. Entendi ser possível erradicar a pobreza e dar condições dignas de sustento e sobrevivência as famílias com o trabalho da mulher fora de casa. Além de incentivá-las eu buscava melhores condições e direitos para elas. Quando criei a CENE, apostei que as mulheres precisavam cada vez mais conquistar espaço e serem mais e melhores reconhecidas. Quando o governo federal lançou o programa de Equidade de Gênero, Raça e Etnia, todos os princípios que eram exigidos, nós, na CENE, já fazíamos e nos inscrevemos. No ano seguinte, na Rio 20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, fui convidada a falar sobre Autonomia e Empoderamento da Mulher como pressuposto para o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza. Também participamos do pacto da ONU, em Cartagena, na Colômbia em 2014, para pôr fim à violência contra a mulher, na América Latina e Caribe até 2030. Em eventos do tema já distribuímos mais de 4 mil cartilhas da Lei Maria da Penha. A CENE é a única empresa porte médio tricampeã do Prêmio Ouro Weps (Women's Empowerment Principles), iniciativa da ONU Mulheres. Temos Selos de Equidade de Gênero e Raça e de Diversidade concedidos pelos governos Federal e do Estado de São Paulo. Oferecemos sala de amamentação e 150 dias de licença-maternidade; 10 dias de licença-paternidade, sala de estudos e muito incentivo para o crescimento profissional das mulheres.

V&A - Você é exemplo e iluminação para muitas mulheres. O que pensa disso?

Sueli Kaiser - Eu acreditei nos meus sonhos. Minha força veio da minha mãe. Ela trabalhava na enfermagem, me inspirei nela. O olhar da minha mãe alcançava além. Otimista e determinada. Dizia a mim e aos meus sete irmãos que acreditássemos em nossos sonhos. Conheci o grande amor da minha vida, o Kaiser quando eu estava no terceiro ano de Enfermagem na Universidade Católica no Rio de Janeiro, e ele no último ano de residência de cirurgia coloproctologia no hospital de Ipanema em 1969. Nos casamos no Rio em 1971 e nos mudamos para Rio Preto. Tivemos quatro filhos maravilhosos: Roberto Luis Kaiser Jr, Vanessa, Carla e Kelvin, que nos deram oito netos, a nona neta nasce em maio. Nunca parei de trabalhar. Desde criança vibro imensamente com cada conquista. Sou completamente apaixonada e dedicada a minha família. Amo meu trabalho e meus amigos. Gosto de desafios. É a soma de tudo isso que me faz viver.

V&A - Uma mensagem para as mulheres do Brasil nestes tempos difíceis.

Sueli Kaiser - Fiquem calmas e firmes. As mulheres são a base fundamental de milhares de famílias brasileiras. É hora de enxergar oportunidades e buscar o equilíbrio mental, emocional. Vocês são fortes, colunas de seus lares. Vocês podem conquistar o que quiserem. Continuem a acreditar nos seus sonhos. Vocês são capazes!

 

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