Poluição que mata

Saúde

Poluição que mata

Ciência mostra que degradação aumenta resistência ao tratamento com antibióticos


Estudo mostra que poluição pode deixar bactérias mais resistentes aos antibióticos
Estudo mostra que poluição pode deixar bactérias mais resistentes aos antibióticos - Freepik/Banco de imagens

Eles revolucionaram a maneira como as infecções são tratadas. Desde que o bacteriologista escocês Alexander Fleming descobriu a penicilina, em 1928, os antibióticos vêm desempenhando um papel fundamental no combate às infecções causadas por bactérias. Entretanto, o uso indiscriminado desse tipo de medicamento passou a preocupar as autoridades de saúde de todo o mundo, pois, quando um antibiótico é utilizado, as bactérias que ele combate podem se tornar resistentes ao tratamento.

Um relatório encomendado pelo governo britânico estima a morte de 10 milhões de pessoas por resistência bacteriana, em 2050, ultrapassando as mortes por câncer e diabetes, caso nenhuma medida de combate à resistência bacteriana seja instituída. Apesar de ser considerado um problema de saúde pública, há estudos que garantem que tal se deve não apenas ao uso excessivo de antibióticos. A poluição parece desempenhar também aqui um papel. Através de um processo conhecido como análise genômica, os cientistas da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, encontraram uma forte relação entre a resistência a antibióticos e a poluição.

Os antibióticos são substâncias capazes de matar bactérias - microrganismos que causam infecções. "Algumas dessas infecções são graves e podem levar à morte. O uso desses medicamentos evita consequências mais graves. Antes dos antibióticos, algumas infecções, como a meningite bacteriana e a pneumonia bacteriana tinham altas taxas de mortalidade, que foram reduzidas consideravelmente", explica a infectologista Ana Gales, coordenadora do Comitê de Resistência Antimicrobiana da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Segundo o estudo publicado revista Microbial Biotechnology, solos com metais pesados apresentavam um nível mais elevado de hospedeiros bacterianos específicos, acompanhados por genes resistentes a antibióticos. "Bactérias que apresentam genes resistentes a antibióticos - como a vancomicina, a bacitracina e a polimixina, todos medicamentos usados para tratar infecções em humanos e revelam ainda um forte gene de defesa capaz de resistir a metais pesados e também aos antibióticos", diz Jesse C. Thomas IV, ex-aluno da Faculdade de Saúde Pública e do Laboratório de Ecologia de Savannah River.

O estudo relata que trabalhos anteriores identificaram resistência a antibióticos em riachos contaminados com metais pesados, examinando as amostras de água em laboratório. "Quando se expõe a amostra a um medicamento numa placa de Petri ou ensaio, ela representa apenas uma fração. Isso não dá uma imagem completa. Com a análise genômica, fomos capazes de ir muito mais longe", afirma Thomas.

Thomas, que era biólogo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano, defendia que os microrganismos desenvolvem novas estratégias e contramedidas ao longo do tempo para se protegerem. "O uso excessivo de antibióticos no ambiente adiciona uma pressão de seleção adicional sobre os microrganismos, que acelera a sua capacidade de resistência a várias classes de antibióticos. Mas os antibióticos não são a única fonte de pressão desta seleção", afirma Thomas. "Muitas bactérias possuem genes que atuam simultaneamente em vários compostos que seriam tóxicos para a célula, e isso inclui metais", explicou na conclusão.

Travis Glenn, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade da Geórgia, que acompanhou Thomaz durante o trabalho, considera que são necessários mais estudos para determinar se os genes resistentes a metais respondem às bactérias da mesma forma que os genes resistentes a antibióticos. Segundo ele, a contrário dos antibióticos, os metais pesados não se degradam no meio ambiente e "podem exercer uma pressão a longo prazo."

"São muitos os patógenos humanos que desenvolvem resistência aos antibióticos, mas seu uso excessivo não é a única causa. Atividades humanas, como a agricultura e a queima de combustíveis fósseis, que causam poluição, desempenham também um papel importante", declarou Thomaz.