Fator de risco para a Covid-19, a obesidade deve ser tratada

SAÚDE

Fator de risco para a Covid-19, a obesidade deve ser tratada

Obesidade é um dos fatores de risco para pacientes diagnosticados com o novo coronavírus. A boa notícia é que é possível tratar a doença que é um dos desafios de saúde mais complexos enfrentados hoje


Obesos têm mais riscos de desenvolver forma grave da doença
Obesos têm mais riscos de desenvolver forma grave da doença - Pixabay/Divulgação

Os idosos não são os únicos mais vulneráveis a Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. Homens e mulheres com pelo menos um fator de risco associado, as chamadas comorbidades, também integram o grupo de risco. Diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares estão entre as doenças preexistentes mais preocupantes em pacientes com o vírus. A obesidade, que é uma doença crônica, que se caracteriza principalmente pelo acúmulo excessivo de gordura corpora e tem ligação com estas enfermidades, é um importante fator complicador para quem contrai o coronavírus.

Cientistas no campo emergente do imunometabolismo estão descobrindo que os obesos têm mais riscos de desenvolver a forma grave da Covid-19. Pesquisas mostram que a obesidade interfere na resposta imune do corpo, colocando as pessoas obesas em maior risco de infecção por patógenos como o novo coronavírus.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) revelou que pacientes com condições crônicas preexistentes, como diabetes e hipertensão, apresentaram versões mais graves da doença. O proctologista e cirurgião bariátrico Roberto Luiz Kaiser Júnior explica que a infecção progride de maneira mais rápida para complicações respiratórias de um modo geral neste perfil de paciente. "Como a obesidade anda associada a essas doenças crônicas, ela também entra como fator de risco para a Covid-19 e suas complicações." O boletim do Ministério da Saúde, divulgado em abril, sobre a disseminação da Covid-19 no Brasil, apontou uma nova tendência relacionada às mortes por coronavírus: a obesidade estava mais presente nos óbitos de jovens que os de idosos.

Algumas pesquisas concluíram que a seriedade da infecção da Covid-19 aumenta à medida que o Índice de Massa Corpórea (IMC) cresce. Um estudo francês mostrou que 47,6% eram obesas (IMC > 30) e 28,2% tinham obesidade grave (IMC > 35). Os cientistas notaram ainda que 68,6% utilizaram ventilação mecânica, sendo que a proporção foi maior entre os obesos graves (85,7%).

Quem é considerado obeso

Atualmente classifica-se a obesidade de acordo com o IMC, que é uma conta feita baseada no peso e na altura da pessoa. Se esse número for maior ou igual a 30 significa que está na faixa da obesidade. Se for entre 25 e 30 considera-se que está acima do peso (sobrepeso), mas fora da faixa da obesidade e dos seus riscos. Se for menor que 25, considera-se dentro da normalidade.

A obesidade já é considerado um problema mundial há muitos anos. Segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), de 2018, do Ministério da Saúde, a prevalência da obesidade voltou a crescer no Brasil, principalmente entre os adultos de 25 a 34 anos e 35 a 44 anos, com 84,2% e 81,1%, respectivamente.

Mais alto que o índice de obesos, estão o de sobrepesos, o que representa uma séria ameaça. Kaiser Júnior afirma que a população com sobrepeso corresponde a mais da metade da população. "Os números da última Pesquisa de Vigilância dos Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas (Vigitel) que apontou que 55,7% da população adulta no Brasil tem excesso de peso e que 19,8% é obesa."

Alerta

Neste cenário, o excesso de gordura é uma doença e as pessoas precisam se livrar dele para fugir de outros males, não só por estética. As principais causas do problema são alimentação inadequada, falta de exercício físico, influência psicológica, questões genéticas e alterações hormonais. Por isso, é preciso buscar orientação médica para um tratamento multidisciplinar, elaborado em conjunto por médicos, psicólogo, nutricionista e profissional de educação física. A mudança de estilo de vida passa por diversas etapas.

O endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Hospital Albert Einstein, afirma que uma forma tratar a obesidade é adotar mudanças no estilo de vida, com uma dieta menos calórica aliada a um programa de exercícios físicos, sempre sob a supervisão de um profissional. Também pode ser feito o uso de medicamentos, desde controladores de apetite até os que reduzem a absorção de gordura pelo organismo. Para os casos mais graves, pode ser recomendada também a cirurgia bariátrica, especialmente para quem possui o IMC acima de 35 e também ter doenças associadas à obesidade, e para os que têm IMC acima de 40 e não conseguem emagrecer com outros tratamentos. "Em todos os casos, o acompanhamento médico regular é fundamental."

Persistência

Maria Edna de Melo, endocrinologista especialista em obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (Sbem-SP), afirma que a obesidade é uma doença crônica, multifatorial e recidivante. Mas, com orientação, fica mais fácil se livrar-se do peso extra. Neste confinamento por causa do coronavírus, a médica afirma que o obeso em tratamento precisa seguir um planejamento para a mudança de hábito de vida.

A rotina alterada e o estresse causado por essa situação é apenas uma das pontas que desencadeia o consumo exagerado de calorias. Dentro de casa, eles ainda podem se sentir mais estimulados a comer fora de hora, por isso a necessidade de planejamento para as refeições. "É muito importante se manter dentro do tratamento, ficando atento ao que se come e à evolução do peso. Caso pare de perder ou até ganhe peso, uma boa estratégia é fazer o automonitoramento da comida ingerida através de aplicativos." A médica recomenda a companhia de aplicativos para prática de atividade física, além de filmes, séries e livros como aliados nesse novo cenário.

O índice de obesidade no Brasil é elevado. Com o isolamento social, o sedentarismo cresceu no país, o que fatalmente mostra um alerta para o risco de desenvolvimento da doença. Educadores físicos alertas sobre a forte influência da obesidade em outros diagnósticos graves como diabetes, hipertensão e depressão. Para combater o aumento de peso é importante praticar exercícios físicos e criar uma dieta com alimentação saudável.

O controle de peso é necessário para a saúde em geral. Neste cenário, o professor Gustavo Musa Lemes afirma que o primeiro passo a pessoa obesa, que quer emagrecer, é a conscientização do papel da atividade física na sua vida. "Um processo mental mesmo, entender que uma vida saudável se conquista com alguns ajustes de comportamento, não é um hábito apenas, seja ele qual for, que irá lhe proporcionar uma vida saudável."

Um dos ajustes, segundo Lemes, é incluir a atividade física na rotina ao menos quatro vezes por semana, mas sem sair fazendo qualquer atividade aleatoriamente. "Não tem como pensar em algo que realmente lhe promova melhoria na saúde se não for algo elaborado e gerenciado por um profissional de educação física. Sem fazer assim é um tiro no escuro, que muitas vezes não atinge o alvo."

Apesar das limitações de espaço, é momento de improvisar e colocar a criatividade em ação para que seu corpo não fique parado. O professor afirma que, em função da pandemia, atividades ao ar livre são as melhores opções. "Praças, parques e pistas de caminhada de muito fluxo de pessoas não devem ser a opção neste momento. Busque alternativas de locais com o menor número de pessoas e evite os locais badalados. Se for treinar com um professor ao ar livre se assegure que ele respeita o distanciamento entre os alunos, ou se preferir ir sozinho, peça auxílio online para que um profissional monte seu programa e te monitore a cada seção."

Não existe atalho para emagrecer. Assim, neste momento, além de respeitarem as orientações de isolamento e higiene para evitar o vírus, as pessoas obesas devem pensar nas suas escolhas. A endocrinologista e nutróloga Tania Mara Olmedo afirma que hoje existem várias alternativas para o emagrecimento e para o controle de peso. "Com tantas opções, as pessoas acabam tendo sedução por dietas mágicas e milagrosas. No entanto, o emagrecimento e a saúde devem ser encarados como um projeto de vida e um hábito para o resto da vida para fazer com prazer e continuar tendo uma boa saúde."

O controle de peso, nesta pandemia, é importante porque a gordura é uma fonte de inflamação. "Quanto mais a pessoa tem gordura, mais ela terá células que fabricam, pela gordura, fontes de inflamação." Neste cenário, a endocrinologista e nutróloga afirma que, para ser saudável e duradouro, este processo exige tempo e escolhas conscientes. Uma sugestão é fazer um emagrecimento personalizado e com auxílio de profissional, como nutricionista, nutrólogo e até endocrinologista.

Para iniciar o processo, em alguns casos, será preciso fazer exames de rotina, segundo Tânia Mara. Não se deve pegar a dieta da moda da revista ou da televisão e seguir, visto que cada pessoa responde de um jeito aos tratamentos para perder peso e tem um tipo de organismo, com suas necessidades individuais. "É importante não gastar tempo a toa. Em alguns casos, será preciso fazer suplementação."

A especialista recomenda, de uma maneira geral, muita hidratação e a escolha de mais alimentos naturais e menos industrializados. "É importante variar alimentos. Quanto mais natural e colorido, mais fitonutrientes a pessoa terá para fortalecer seu organismo. É preciso ainda ter um sono de qualidade e um emocional equilibrado", afirma Tânia Mara.

O cirurgião bariátrico Roberto Luiz Kaiser Júnior afirma que a cirurgia é o tratamento mais efetivo para os pacientes com indicação, pois além de melhorar o peso, melhora também as doenças associadas à obesidade, como hipertensão, diabetes, colesterol e problemas respiratórios. "Podemos dizer que esses problemas mostram-se os principais fatores de risco para as formas graves do novo coronavírus e que inclui internação em UTI e mortalidade decorrente da síndrome respiratória aguda grave. Além de todas as doenças e complicações que podem ser evitadas com a perda de peso, podemos somar agora as gravíssimas consequências da Covid-19."

Desde maio, a cirurgia bariátrica voltou a ser realizada de maneira eletiva durante a pandemia. Foi levado e m consideração que pacientes portadores de doenças graves e ou/crônicas como a obesidade e o diabetes precisam de tratamento e que a sua postergação pode resultar no aumento da morbidade e da mortalidade. "O retardo da cirurgia bariátrica de pacientes com obesidade severa, principalmente naqueles que possuem doenças associadas como diabetes, hipertensão e problemas respiratórios e que tenham indicação de cirurgia, pode resultar em aumento da morbidade e da mortalidade decorrente da Covid-19, caso estes pacientes venham a adquirir o vírus."

Dessa maneira, a cirurgia bariátrica age de maneira eficiente não só na correção do peso, como também na melhora das doenças associadas a obesidade. "Todos esses fatores são considerados como de risco para as complicações da Covid-19 e são minimizados com o procedimento cirúrgico. Dessa maneira podemos concluir que a cirurgia aumenta a chance de sobrevivência em caso de contágio com o vírus." Kaiser Júnior afirma que é importante realizar as cirurgias bariátrica e metabólicas, de preferência, em instituições que tenham fluxo de atendimento independente para os casos da Covid-19, com salas cirúrgicas isoladas e todo ambiente controlado.