Reprodução humana assistida: saiba quem pode se beneficiar

SAÚDE

Reprodução humana assistida: saiba quem pode se beneficiar

Especialistas em reprodução humana assistida de Rio Preto explicam quais são os perfis de quem pode se beneficiar dos procedimentos para gerar um bebê


Procedimento tem grandes chances 
de sucesso
Procedimento tem grandes chances de sucesso - Freepik/Divulgação

Com dificuldades para engravidar, muitos casais recorrem à reprodução assistida para aumentar a família, que consiste no procedimento que requer a manipulação de óvulo, espermatozoide ou embriões a fim de ajudar na obtenção da gravidez. Atualmente, há diversos tipos de tratamentos que apresentam sucesso. Os recursos variam entre intervenções de baixa e de até alta complexidade.

Edilberto de Araújo Filho, especialista em reprodução humana assistida, diretor clínico do CRH Rio Preto e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (Sbra), afirma que o termo reprodução assistida está relacionado aos tratamentos para auxiliar na fertilização e aumentar as chances de uma mulher engravidar. "Para que as técnicas sejam eficazes, avaliamos o estado de saúde do casal, ou da paciente (em caso de produção independente), e indicamos qual método de reprodução assistida pode gerar melhores resultados, podendo ir desde técnicas de baixa complexidade, como a inseminação artificial, até técnicas mais avançadas, como fertilização 'in vitro', biópsia embrionária, entre outras."

Uma das técnicas é a Duo Stim, que é o duplo estímulo em caso de pacientes que são "pobres respondedoras" ou que têm uma baixa reserva ovariana. "Utilizamos o mesmo ciclo menstrual para estimular duas vezes, pegando essa onda de ovulação em duas etapas dentro do mesmo ciclo com intuito de otimizar e aumentar o número de óvulos e embriões formados", afirma Filho.

Mulheres com dificuldades para engravidar, ou seja, que estão tentando pelo menos há um ano sem sucesso, é um dos perfis que recorrem à reprodução assistida. O especialista explica que, em uma consulta, o médico avaliará o caso para saber qual é o tipo de procedimento que é mais indicado, levando-se em conta a idade, o sêmen do marido, as trompas, a ovulação, entre outros fatores.

Outro perfil são os das mulheres que adiam a gestação e recorrem aos serviços de reprodução humana assistida para congelamento de óvulos. "São mulheres que querem ser mãe, mas ainda não encontraram o parceiro ideal ou que estão em uma ascensão na carreira profissional e que não podem engravidar no momento. Elas chegam até nós para congelar os óvulos porque sabem que os óvulos envelhecem e diminuem em número com o passar dos anos, principalmente após os 35 anos, e querem preservar a fertilidade para tentarem uma gestação com mais segurança no futuro", afirma o médico.

Pacientes oncológicas

A reprodução assistida é vista como alternativa para mulheres que estão passando por tratamentos que vão usar algum tipo de droga que possa a vir comprometer sua fertilidade no futuro, como as pacientes oncológicas. Ligia Previato, embriologista clínica, chefe de laboratório do CRH Rio Preto, afirma que, nesses casos, é preciso congelar os óvulos ou, se for o caso, congelar o tecido ovariano. "Outro perfil é o de mulheres que têm algum histórico genético e, por isso, precisa que o embrião seja estudado (analisado geneticamente) para o nascimento de crianças saudáveis."

O tratamento dos pacientes oncológicos com radioterapia ou quimioterapia costuma causar danos nos gametas tanto masculino (espermatozoide) quanto feminino, então, se possível, é importante guardar (congelar) os espermatozoides ou óvulos antes da quimioterapia. "Se não fizer isso existe o risco considerável de essa quimioterapia ou radioterapia causar danos na produção de espermatozoide e nos óvulos, diminuindo ou até anulando a possibilidade reprodutiva dessa pessoa", explica Edilberto de Araújo Filho.

Mais beneficiados

Casais homoafetivos femininos e masculinos são outro grupo que se beneficia da reprodução assistida. "No caso das mulheres, elas recorrer a um banco de sêmen, e existe a técnica de inseminar e congelar esse sêmen de banco e colocar nas trompas da paciente, se ela estiver com as trompas saudáveis. E também existe a possibilidade da fertilização in vitro, em que é colhido o óvulo, fertiliza com o espermatozoide do banco de sêmen, forma embriões, tendo a opção de transferir esses embriões para quem colheu os óvulos ou para a parceira feminina que não foi estimulada", explica Filho.

A embriologista Ligia explica que, no caso do casal homoafetivo feminino, pode ser feito também a estimulação das duas parceiras e transferência dos embriões para as duas, ou então a estimulação de uma única paciente, de uma das parceiras, fertilizando e transferindo o embrião para uma delas ou então transferindo um embrião para cada uma delas. "No caso dos casais homoafetivos masculinos, precisamos de um óvulo doado, pois o sêmen a gente já tem por se tratar de um casal masculino, e também de um empréstimo temporário de útero para gestar o embrião e nascer o bebê. Um detalhe é que a mulher que vai gestar para esses casais, sejam eles de mulheres ou homens, precisa ter um grau de parentesco com um dos envolvidos."

O Brasil é protagonista em tratamentos de reprodução assistida. A presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (Sbra), Hitomi Nakagawa, afirma que as pessoas que apresentem dificuldade para engravidar procurem um médico especialista para fazer uma investigação detalhada do problema e analisar a urgência do caso. "O casal não deve perder tempo e precisa procurar ajuda médica, especialmente porque existem casos inadiáveis e urgentes tanto para a realização de tratamentos quanto para orientação e informação personalizados, considerando o quanto essas situações já afetam o emocional das pessoas", afirma.

As técnicas de reprodução assistida vão desde baixa complexidade até a alta complexidade, começando do coito programado, em que é acompanhado o período ovulatório através do ultrassom, e nesse período é feita a orientação para namorar em casa com intuito de obter a gravidez. Edilberto de Araújo Filho afirma que, após isso, tem a inseminação intrauterina, em que a mulher toma medicamentos hormonais para que ela possa produzir óvulos. "Quando esses folículos chegam em um determinado diâmetro (tamanho), a mulher toma uma injeção para poder ovular e, marcando esse período fértil, a gente colhe os espermatozoides do marido, prepara no laboratório, fazendo a capacitação, e coloca esse material preparado dentro do útero dela, e também nas trompas, em que o espermatozoide vai fertilizar espontaneamente esse óvulo, formando então o embrião, obtendo a gravidez. Mas claro que essa paciente precisa ter as trompas permeáveis e normais."

No caso de algum dano nas trompas ou uma quantidade muito diminuída de espermatozoide, ou uma endometriose grave que comprometeu as trompas, é possível recorrer a fertilização 'in vitro' clássica. "Em que também são estimulados os ovários para produzir uma quantidade maior de folículos. Depois, guiados por ultrassom vaginal sob sedação, coletamos todos os óvulos. Em seguida, prepara o sêmen do marido, ou do banco de sêmen, e ocorre a fertilização dentro do laboratório. Acompanhamos fertilização e desenvolvimento do embrião até o quinto dia de desenvolvimento embrionário e, após isso, selecionamos os melhores embriõezinhos para transferir para o útero da mãe (a quantidade varia de acordo com a idade). Existe também a possibilidade de congelar os outros que forem bons e que a paciente não vai usar no momento. Com a possibilidade do congelamento ela terá chances futuras de engravidar", revela o especialista.

A bióloga embriologista Ligia Previato apresenta outras técnicas:

Existe também a Fertilização 'in vitro com a ICSI, que é a injeção intracitoplasmática do espermatozoide no óvulo, no qual o procedimento também é feito com estimulação ovariana, captação de óvulos e preparo do sêmen, mas nesse caso é escolhido o melhor espermatozoide para injetar no óvulo, formando o embrião para que possamos ter uma transferência e obter a gravidez

A Fertilização 'in vitro' com ICSI amplificada/magnificada é uma técnica em que é feita a escolha dos espermatozoides quando necessário com aumento de 8,5 mil vezes para escolher o melhor espermatozoide, no qual não possui nenhum defeito morfológico para fazer a fertilização do óvulo

Há também biópsia embrionária, em que é tirado um número de células do embrião no quinto dia de laboratório com o intuito de investigar geneticamente o embrião em busca do embrião saudável. Existem as indicações, que são mulheres com mais de 39/40 anos ou que tenham algum histórico genético na família

 

A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (Sbra) divulgou um artigo em que fala da importância das clínicas de reprodução seguiram os rígidos protocolos de biossegurança neste momento com a pandemia da Covid-19. Os estabelecimentos precisam adotar os protocolos de proteção para garantir a segurança dos pacientes e das equipes.

De acordo com o ginecologista e ex-presidente da Sbra, Selmo Geber, os protocolos são importantes e devem ser priorizados pelas clínicas nas áreas externas comuns e internas com vistas a impedir a transmissão do vírus durante o atendimento ou tratamento de pacientes, especialmente os casos considerados urgentes e inadiáveis. 

A ginecologista Hitomi Nakagawa, presidente da Sbra, afirma que a Sbra recomenda que as tentantes mantenham contato com os seus médicos para que os casos possam ser avaliados de forma personalizada e os inadiáveis tenham a devida abordagem. "A contextualização da oferta dos serviços de reprodução assistida deve obedecer às diretrizes governamentais locais para que não haja interferência na assistência à saúde da comunidade, nem riscos maiores à segurança das pessoas envolvidas. Todas as clínicas têm se solidarizado com o momento delicado e a pressão psicológica a que os nossos assistidos estão sendo submetidos".

O médico Selmo Geber reforça que este momento é de prudência para todos os profissionais e deixa um recado para tranquilizar as pacientes que precisam realizar algum procedimento na área de reprodução assistida. "Para as que tiveram seus ciclos adiados, minha mensagem é de esperança, porque isso vai passar e não irá comprometer o resultado do tratamento."

 

O fator emocional pode atrapalhar ou ajudar quando a mulher vai passar por uma reprodução humana assistida. A psicóloga de tentantes Bruna de Marchi afirma que a mente tem uma grande influência em um tratamento para engravidar, e isso pode tanto atrapalhar quanto ajudar. "Se a mulher, ou até mesmo o casal, não cuida e não administra bem os sentimentos ao longo deste processo pode aumentar os níveis de estresse e ansiedade, o que pode sim prejudicar o resultado do tratamento. Para se ter uma noção, estudos já mostraram que mulheres menos estressadas podem ter mais facilidade de engravidar em comparação às mulheres com nível de estresse elevado. Portanto, quando a mulher está com dificuldades para engravidar, além de consultar um especialista em reprodução humana, é fundamental buscar por um acompanhamento psicológico, em que tanto ela quanto o parceiro (a) terão um espaço para dividir suas angústias, medos e expectativas, recendo auxílio adequado para lidar com essa fase tão importante."

Embora por si só não represente uma causa de infertilidade, o estresse pode, sim, atrapalhar os planos de engravidar. Bruna de Marchi afirma que a reposta emocional está relacionada a produção de hormônios que possuem influência nas funções do corpo. "O hipotálamo, que é a região do cérebro capaz de transformar impulsos nervosos em sinais hormonais, regula tanto a reposta sexual quanto a do estresse, que quando estão descontrolados podem prejudicar a fertilidade."

Quando se fala em reprodução assistida, todo o processo para realizar o sonho da maternidade pode mexer muito com as emoções, e esse quadro de tensão, expectativa e esgotamento emocional não é nada favorável para a eficácia do tratamento. "É por esse motivo que a terapia pode ser uma grande aliada nessas condições. Além disso, alguns hábitos no dia a dia são valiosos para manter a calma nesta fase, como meditar, praticar atividades físicas e preservar uma alimentação equilibrada e rica em nutrientes que ajudam no bom funcionamento do organismo", afirma Bruna.