Vício digital afeta a memória

Saúde

Vício digital afeta a memória

Efeito é causado por excesso de uso de computadores e buscadores online, diz estudo


Estudo sugere que depender da tecnologia tem um impacto a longo prazo no desenvolvimento de memórias
Estudo sugere que depender da tecnologia tem um impacto a longo prazo no desenvolvimento de memórias - Javier Sánchez Mingorance

Se você costuma usar a tecnologia como uma extensão do seu cérebro, é bom começar a rever esse hábito e colocar mais a cabeça para funcionar. Um novo estudo da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, concluiu que o uso constante de computadores, smartphones e outros aparelhos podem enfraquecer a memória. Em vez de registrar informações como telefones e endereços no cérebro, os usuários de tecnologia recorrem a esses aparelhos e a memória se atrofia. É o que diz um estudo feito pela Kasperski Lab.

A ideia não é demonizar a tecnologia, um recurso indispensável para as atividades do dia a dia. Mas, apesar dos benefícios, o uso desenfreado causa dependência, ansiedade, estresse e irritabilidade. Ao serem ignorados, os sinais podem desencadear uma série de problemas, entre eles, aparece a memória.

"É um conjunto de procedimentos que permite manipular e compreender o mundo, levando em conta o contexto atual e as experiências individuais, recriando o mundo por meio de ações da imaginação. O que fica armazenado é um sumário interpretativo de toda nossa experiência passada. A capacidade dos neurônios de se transformar, adaptando sua estrutura ao contexto, seria o suporte desse funcionamento da memória", explica José Lino Bueno, professor titular de psicobiologia da USP. A memória é estimulada pelo uso, pelo treino. "A melhor prática e o que mais a estimula é a simples leitura", diz o neurocientista Ivan Izquierdo.

O estudo

No estudo, os pesquisadores constataram que, muitos adultos que ainda podiam recordar os números de telefone da sua infância, não conseguiam lembrar o número do seu trabalho atual ou o número do telefone um membro da família. O estudo acompanhou os hábitos de memória de 6 mil adultos no Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica, Holanda e Luxemburgo. Mais de um terço recorria primeiro a computadores para lembrar de algumas informações.

Impacto a longo prazo

O estudo sugere que depender de um computador tem um impacto a longo prazo no desenvolvimento de memórias, porque tais informações podem muitas vezes ser imediatamente esquecidas. "Nosso cérebro parece reforçar uma memória cada vez que lembramos dela, e ao mesmo tempo esquecer memórias irrelevantes que estão nos distraindo", disse Maria Wimber, autora do estudo. Segundo ela, o processo de recordar a informação é uma maneira eficiente de criar uma memória permanente. "Em contraste, repetir passivamente informações, como repetidamente pesquisá-las na internet, não cria um traço de memória com duração sólida da mesma forma", diz.

A pesquisadora diz ainda que as pessoas se acostumaram a usar dispositivos tecnológicos como uma "extensão" do seu próprio cérebro. Logo, tem havido uma escalada do que pode ser chamada de "amnésia digital", em que as pessoas não se importam em esquecer informações importantes por acreditarem que elas podem ser recuperadas em um dispositivo digital. Além do armazenamento de informações factuais, há uma tendência de manter memórias e fotografias de momentos importantes em formato digital. Se elas só existirem em um smartphone, há o risco de extingui-las se for perdido.

"Vivemos em um mundo hiperconectado em todos os sentidos. Somos estimulados o tempo todo a estarmos disponíveis e conectados por meio da tecnologia, o que também causa muita agitação", diz a neuropsicóloga Fernanda Queiroz.