Quanto mais cedo, melhor

Criança e adolescente

Quanto mais cedo, melhor

Gagueira tem cura se for tratada na infância


Condição costuma aparecer entre os dois e cinco anos de idade
Condição costuma aparecer entre os dois e cinco anos de idade - Banco de imagens/Pexels

De repente seu filho começa a falar as primeiras palavras e já consegue se comunicar melhor a cada dia. Que emoção. Entretanto, você percebe que algo está errado. Da noite para o dia, sem avisar, a gagueira aparece e se instala na fala das crianças, assustando pais e filhos. Estima-se que 5% da população é afetada pela gagueira durante o desenvolvimento da fala. Porém, apenas 1% irá apresentar a doença na forma crônica, ou seja, na fase adulta.

A gagueira é um distúrbio de fluência da fala em que o fluxo é interrompido por repetições, prolongamentos e bloqueios de sílabas. Na maior parte das vezes, a gagueira ocorre na primeira sílaba das palavras.

O distúrbio costuma aparecer na infância entre dois e cinco anos. "Os pais geralmente percebem que a criança está com algum problema para falar, porque ela perde a desenvoltura que já possuía. A criança estava se desenvolvendo bem e, de repente, os pais percebem que ela repete várias vezes a sílaba inicial das palavras ou que ela faz força para falar e não sai nenhum som", explica a fonoaudióloga Sandra Merlo, especialista em gagueira e fluência.

"De imediato, não é possível saber se é uma questão de alteração temporária ou se será um quadro permanente. Isso porque tanto aquela gagueira que é um distúrbio de linguagem real quanto a orgânica - que tem caráter passageiro e intermitente, são muito comuns durante essa etapa do processo de desenvolvimento de linguagem", explica a fonoaudióloga Lilian Kuhn.

Como a gagueira ocorre na fala espontânea, nas conversas do dia a dia e na leitura em voz alta, os pais podem ficar confusos e atribuir a uma causa emocional como ansiedade e timidez, porém isso é um mito. Embora possa parecer estranho em situações como cantar ou até mesmo fazer uma peça de teatro, a gagueira costuma desaparecer. Sandra explica que isso acontece porque o cérebro não controla os dois tipos de fala da mesma maneira. "A fala espontânea e natural é controlada por uma rota cerebral chamada de pré-motora medial, enquanto modos não-espontâneos de fala como o canto, são controlados por outra rota cerebral, a pré-motora lateral, diz.

 

A gagueira tem várias causas. Uma delas já está comprovada e é genética. Já foram identificados alguns genes relacionados à gagueira. Eles respondem por cerca de 15% dos casos. Ou seja, ainda há muitos outros para serem descobertos. "Filhos de pais que têm ou tiveram gagueira têm mais chances de gaguejar. A probabilidade aumenta se a criança for do sexo masculino porque 80% dos casos de gagueira envolvem o sexo masculino", explica Sandra.

Além da genética, a gagueira pode ocorrer devido a lesões cerebrais, acidente vascular cerebral, traumatismos cranioencefálicos, intercorrências na gravidez, parto e pós-parto, entre outras condições que afetam o funcionamento e a fisiologia do cérebro. O fator social também é um componente importante na origem da gagueira. Crianças que vivem em um ambiente familiar em que as pessoas falam muito rápido ou usam uma linguagem muito complexa podem ter mais probabilidade de desenvolver a gagueira, desde que exista a predisposição genética.

Para que o problema possa ser curado, o diagnóstico e o tratamento devem ser feitos ainda na infância. "A gagueira, portanto, tende a ser uma condição tipicamente infantil. Quando tratada pode ser curada", diz Sandra.

O tratamento fonoaudiológico é baseado em exercícios para respiração, voz e articulação da fala. Também são realizados exercícios específicos para fluência, envolvendo leitura em voz alta e fala espontânea. No caso de adultos, o treino de fala em público é muito importante. O fonoaudiólogo também avalia se são necessários tratamentos complementares.