De olho na fumaça

Saúde

De olho na fumaça

Compostos perigosos do cigarro impregnam ambientes de não fumantes


Fumantes podem transportar composto nos corpos e roupas e liberá-los em ambientes sem fumo
Fumantes podem transportar composto nos corpos e roupas e liberá-los em ambientes sem fumo - Pexels/Banco de imagens

Se você não fuma, não pense que precisa conviver com uma pessoa que tem esse hábito para ser um fumante passivo. Um novo estudo mostrou que os fumantes podem transportar compostos perigosos presentes no fumo do cigarro, que ficam agarrados aos corpos e roupas e, em seguida, libertá-los em ambientes sem fumo, expondo as pessoas mais próximas aos efeitos nocivos do cigarro.

Segundo o pneumologista Elie Fiss, engana-se quem se considera ileso dos males do cigarro porque não fuma. "A exposição involuntária à fumaça do tabaco pode acarretar desde reações alérgicas (rinite, tosse, conjuntivite, exacerbação de asma) em curto período, até infarto, câncer do pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema pulmonar e bronquite crônica) em adultos expostos por longos períodos. Em crianças, aumenta o número de infecções respiratórias", explica o especialista.

Pesquisadores da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, mostram que mesmo que você esteja em um ambiente onde ninguém fumou, pode ser exposto a muitos dos compostos químicos perigosos que compõem o fumo do cigarro. O estudo foi publicado na Science Advance e mostrou que, "no mundo real, foram encontradas emissões concentradas de gases perigosos em grupos de pessoas previamente expostas ao fumo do tabaco quando entram num local para não fumante", afirma Drew Gentner professor associado de química e engenharia ambiental.

Isto significa que as pessoas transportam contaminantes do fumo passivo para outros ambientes. "Portanto, só porque não está diretamente exposto ao fumo passivo, a pessoa não está protegida contra os possíveis efeitos do fumo do cigarro na saúde", explica.

A boa notícia para conter essa exposição é que o número de fumantes está caindo. Nas últimas duas décadas, o consumo global de tabaco caiu de 1,397 milhão em 2000 para 1,337 milhão em 2018 - menos 60 milhões de fumantes, revelam os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre as tendências na prevalência do uso do tabaco. Até o fim de 2020, a entidade estima menos dez milhões de fumantes em comparação com 2018, e outros 27 milhões a menos até 2025.

 

Os pesquisadores analisaram durante uma semana milhares de compostos presentes numa sala de cinema, como gases ou partículas. Eles encontraram uma sére diversificada de compostos orgânicos voláteis presentes no fumo do tabaco, que aumentou quando certas audiências chegaram ao cinema.

Os índices foram menores nos filmes para crianças e maiores nos destinados aos adultos- espectadores com maior probabilidade de fumar ou de serem expostos ao tabaco. "Apesar das regulamentações que impedem as pessoas de fumar em ambientes fechados, os produtos químicos perigosos dos cigarros continuam a entrar em casa", explica Roger Sheu, principal autor do estudo. As emissões de gases revelaram-se iguais às produzidas pelo fumo passivo de um a de cigarros no período de uma hora.

As emissões e concentrações de ar atingiram o pico na entrada do público na sala de cinema e diminuíram com o tempo, mas não completamente, mesmo quando as pessoas deixaram a sala. Em muitos casos, a contaminação foi observada nos dias seguintes.

"Notamos que a nicotina era o composto mais proeminente", diz Jenna Ditto, coautora do estudo. Os resultados, segundo ela, ajudam a explicar por que estudos anteriores encontraram quantidades notáveis de nicotina nas superfícies em vários ambientes para não fumantes.